quarta-feira, 28 de junho de 2017

Polícia Federal suspende emissão de passaporte por tempo indeterminado



A Polícia Federal suspendeu a emissão de novos passaportes no país por tempo indeterminado sob a justificativa de falta de recursos.
A medida foi anunciada na noite desta terça (27), às vésperas das férias escolares, e em meio à relação tensa do governo Michel Temer (PMDB) com a instituição.
Veja aqui perguntas e respostas sobre a suspensão do serviço no país.
Segundo a PF, usuários atendidos nos postos até esta terça receberão seus passaportes normalmente. O agendamento on-line do serviço e os atendimentos nos postos da PF continuarão funcionando nesta quarta-feira (28), segundo a instituição, mas não haverá prazo para emissão do documento.
"Não há previsão para entrega do passaporte solicitado enquanto não for normalizada a situação orçamentária", disse a Polícia Federal.
Segundo a instituição, os gastos com esse tipo de serviço chegaram ao limite previsto na lei orçamentária.
"A medida decorre da insuficiência do orçamento destinado às atividades de controle migratório e emissão de documentos de viagem", informou a PF em nota.
Ela disse que "acompanha atentamente a situação junto ao governo federal para restabelecimento completo do serviço", mas não deu prazo para resolver a situação.
O órgão não deu detalhes do orçamento nem do motivo de eventuais negociações para a elevação da verba antes do estouro do limite.
O presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Carlos Eduardo Sobral, responsabilizou o governo Temer.
"Sem a previsão orçamentária, fica difícil a renovação de contratos e convênios. Foi o que ocorreu nesse caso. O contrato acaba e não há dinheiro para renovar. Não foi possível fazer contrato com a Casa da Moeda", afirmou.
Em 2016, a emissão de passaportes foi prejudicada por uma série de questões, desde a falta de matéria-prima para confecção da capa até a falha em uma máquina que faz a perfuração do documento.
O passaporte comum padrão ICAO (cor azul) tem uma taxa de confecção de R$ 257,25. O prazo normal de entrega é de seis dias úteis, mas a PF sempre alerta que somente cada posto escolhido para dar entrada no documento pode dar uma previsão exata da data. Um ano atrás, problemas elevaram a espera para até 45 dias.
A validade dos passaportes é de até dez anos. Após esse prazo, é necessário solicitar novo passaporte (não há renovação do documento).
Nos últimos anos, a PF já vinha fazendo pressão por mais recursos e reclamando de redução de servidores. A Fenapef (Federação Nacional dos Policiais Federais) diz que, em seis meses, triplicou a quantidade de aposentadorias.
Na segunda-feira (26), a instituição apresentou relatório no qual afirma que Temer atuou para embaraçar investigações da Lava Jato.
O ministro da Justiça de Temer, Torquato Jardim, disse a sindicalistas na semana passada que fazem parte de seus planos promover mudanças na cúpula do órgão e colocar em outra instituição funcionários que cuidam de funções como emissão de passaportes e controle de estrangeiros.
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Tire suas dúvidas abaixo com oito perguntas e respostas sobre a suspensão do serviço em todo o país.
1.Novos agendamentos para tirar o passaporte foram suspensos?
Não. O agendamento on-line do serviço e o atendimento nos postos da Polícia Federal pelo país vão continuar funcionando.

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2. Quem já agendou o atendimento também foi afetado?
Quem fez o agendamento on-line vai seguir o trâmite normal. Terá que comparecer aos postos da PF no horário previsto. No entanto, a entrega do documento foi suspensa e assim permanecerá até a situação orçamentária da Polícia Federal ser normalizada.

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3.Estive no posto da PF antes de a suspensão da emissão do passaporte passar a valer. Terei meu documento?
Sim. De acordo comunicado da PF, todas as pessoas que completaram o atendimento nos postos de emissão até esta terça-feira (27) terão o passaporte em mãos.

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4.E quem agendou o atendimento em um dos postos da PF antes do dia 27 vai receber o passaporte?
Não. O documento só será entregue para os que já passaram por todo o trâmite burocrático de emissão realizado nos postos de atendimento da instituição.

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5.Mesmo após a suspensão do serviço, decidi agendar a emissão. Terei uma estimativa de entrega do passaporte?
A Polícia Federal informou que não há previsão de entrega. No site da instituição há, inclusive, um aviso informando que o solicitante precisa estar ciente que não há nenhum prazo para a emissão acontecer.

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6.O que eu preciso fazer caso tenha que fazer uma viagem de emergência?
A emissão do documento para quem precisa viajar emergencialmente não foi suspensa. São viagens motivadas por catástrofes naturais, conflitos armados, doença, necessidades do trabalho, ajuda humanitária, interesse da administração pública, entre outras situações não previstas com antecedência. Segundo a PF, o solicitante precisará comprovar o motivo da viagem. Esse tipo de documento tem validade de apenas um ano e será entregue 24 horas após a confirmação dos dados do solicitante.

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7.Por que a situação chegou ao ponto de suspender o serviço no país inteiro?
Segundo a instituição, os gastos com a emissão de passaportes atingiram o limite previsto na lei orçamentária. Em entrevista à Folha, o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Carlos Eduardo Sobral, responsabilizou o governo de Michel Temer (PMDB) pela medida drástica. "Sem a previsão orçamentária, fica difícil a renovação de contratos e convênios. Foi o que ocorreu nesse caso. O contrato acaba e não há dinheiro para renovar. Não foi possível fazer contrato com a Casa da Moeda", afirmou.

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8.O que precisará ser feito para a situação voltar ao normal?
Como o orçamento da PF para as atividades de controle migratório e emissão de documentos de viagem atingiram o limite do gasto previsto, será preciso aprovação no Congresso de um projeto de lei para ampliar o orçamento do serviço.

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TIPOS DE PASSAPORTE
Passaporte comum
Custo: R$ 257, 25
Emissão: em até 45 dias úteis, segundo a Casa da Moeda; atendentes chegaram a falar em até 120 dias
Duração: 10 anos
Quem pode pedir: qualquer cidadão brasileiro que não tenha problemas com o fisco, a Justiça, a Justiça Eleitoral ou o Exército

Passaporte 'express': comum em caráter de urgência
Custo: R$ 334,42 (R$ 77,17 são da 'taxa de urgência')
Emissão: em até 4 dias úteis, segundo a PF; atendentes falam em 20 dias
Duração: 10 anos
Quem pode pedir: qualquer pessoa com viagem marcada para os próximos 4 meses; é necessário levar as passagens para comprovar a viagem

Passaporte de emergência
Custo: R$ 334,42
Emissão: em até 24 horas
Duração: 1 ano
Pode ser pedido em caso de: catástrofes naturais, conflitos armados. motivos de saúde, necessidade do trabalho, ajuda humanitária, interesse da administração pública, entre outros; não deve ser pedido em casos de turismo; necessário comprovar a situação emergencial


COMO SOLICITAR
1. Preencha o formulário eletrônico de solicitação de passaporte;
- Ao final da inclusão de seus dados será emitida a Guia de Recolhimento da União (GRU)
2. Pague a GRU, respeitando sua data de vencimento;
3. Após a compensação do pagamento (que pode variar de 2 a 3 dias), agende seu atendimento presencial em uma das unidades emissoras de passaporte;
4. Compareça ao posto da PF, no dia e horário agendados, com documentação exigida, boleto GRU, comprovante de pagamento e do agendamento.


DOCUMENTOS EXIGIDOS
- Identidade
- CPF
- Título de Eleitor e comprovantes de votação da última eleição
- Passaporte anterior válido, se houver
- Para homens, comprovante de quitação com o serviço militar
- Para os naturalizados, certificado de naturalização
- Para dúvidas específicas, consulte o site da PF


ONDE SOLICITAR
Os passaportes comuns podem ser solicitados em todo o pais. No Estado de São Paulo, os passaportes de emergência podem ser obtidos nos aeroportos internacionais, na sede da polícia na Lapa (zona oeste da capital), em Santos e em Ribeirão Preto. No Rio, só é possível consegui-lo no posto do aeroporto internacional do Galeão
Superintendência Regional da PF
R. Hugo D'Antola, 95, Lapa de Baixo
Tel: (11) 3538-5000 / 3538-5930

Delegacia do Aeroporto Internacional de Cumbica - Guarulhos
Rod. Hélio Smith, s/n, Guarulhos - Terminal 3, piso T, desembarque
Tel: (11) 2445-2780 / 2445-2212
dpfpltdeainsrsp@dpf.gov.br

Unidade de Polícia no Aeroporto Internacional de Viracopos
Edifício Garagem (em frente ao Terminal 1)
Tel: (19) 3795-8235 / 3725-5092

Polícia Federal em Ribeirão Preto
Shopping Iguatemi - Av. Luiz Eduardo de Toledo Prado, nº 900 - Ribeirão Preto
Tel: (16) 3602-7390
passaporte.rpo.sp@dpf.gov.br

Delegacia de Santos
R. Riachelo, 27, Centro - Santos
Tel: (13) 3213-1800
dpf.cm.sts.srsp@dpf.gov.br

Aeroporto Internacional Galeão
Av. Vinte de Janeiro, s/n, Ilha do Governador - Terminal 1, setor vermelho
Tel: 194

domingo, 18 de junho de 2017

Como os cristãos devem se relacionar com os muçulmanos?

No outono passado, o jornal Times, do Reino Unido, apresentou aos seus leitores o uso do taweez[1] no sufismo sunita generalista dentro do islamismo. Por quê? Porque estava a noticiar a condenação de um salafista que havia assassinado um imã que praticava esta forma do islamismo[2].

A variedade do Islão

Os leitores do Times, já familiarizados com termos como sunita, xiita, sufismo e salafismo, estavam a conhecer mais uma vertente do islamismo, praticada por 41 % dos paquistaneses e 26 % dos nacionais do Bangladesh[3]. Como, pergunto eu, eles irão integrar esta informação nas categorias “radical” e “moderado” que a mídia costuma atribuir ao islamismo? E como podem os cristãos integrar a variedade do islamismo nas suas cosmovisões?
Como devemos olhar para o islamismo?
Ao longo das quatro décadas e meia desde que compreendi como Deus se preocupa com os muçulmanos, já escutei muitos debates acerca de como a missão cristã deve ser dirigida. Devemos nos focar no islamismo “popular” — na enorme percentagem daqueles que usam o taweez e cujas vidas são dominadas pelas crenças no jinn. Devemos nos focar no serviço — às mulheres que foram abusadas, às minorias que sofrem com o racismo e aos que vivem na pobreza. Devemos nos focar na apologética, na polêmica, no diálogo e na coexistência… ou talvez em questões políticas. Talvez os cristãos devessem estar na frente da batalha contra o terrorismo ao estilo do Estado Islâmico.
Por detrás destes debates estão perguntas sobre como deveremos olhar para o islamismo, que, por sua vez, encontram eco nas respostas polarizadas dadas aos muçulmanos, que estão a dividir o universo evangélico nos nossos dias. Creio que o principal problema é não sabermos como encaixar a variedade do islamismo nas nossas categorias de pensamento. À medida que o mundo secular luta com a dificuldade que é acrescentar o mundo do taweez no seu entendimento da “religião”, os cristãos também têm dificuldade para encaixar o islamismo na sua compreensão do mundo. Por isso, escolhemos categorias que já existem e nos focamos nos muçulmanos que cabem dentro delas. Os nossos mestres e pregadores precisam urgentemente ler a Bíblia de uma forma que permita a toda a igreja se relacionar com toda a variedade do islamismo e dos muçulmanos
PRECISAM
Se pensarmos assim, vemos que o desafio é ainda maior: o islamismo pode ser um caso especial, mas precisamos de uma cosmovisão bíblica que nos dê um enquadramento que permita o relacionamento com todos os povos de todas as fés. O meu livro, The Bible and Other Faiths,[4] procura fornecer isso mesmo: uma forma de ler a Bíblia que tem em conta o mundo religioso “por detrás” dos textos bíblicos, de forma a ajudar-nos a entender o nosso próprio mundo religioso. O meu livro mais recente, Thinking Biblically about Islam,[5] lida com o caso especial do islamismo.

Enquadramentos bíblicos

A obra Thinking Biblically about Islam desenvolve dois enquadramentos bíblicos de pensamento e aplica-os de duas formas:
Os enquadramentos bíblicos lidam, em primeiro lugar, com o desenvolvimento de uma compreensão da humanidade que inclui os muçulmanos e, em segundo, de uma forma de entender o islamismo. Ambas estão relacionadas porque o “islamismo” é praticado por seres humanos, e é por isso mesmo que apresenta tanta variedade.
As aplicações interrogam, para começar, sobre como podemos refletir acerca de vários aspectos do islamismo: o Corão, Maomé, a umma e a sharia; e, em segundo lugar, sobre como os nossos estudos bíblicos podem nos transformar em nossos relacionamentos com muçulmanos.
Esta análise de duas vertentes reflete uma tensão inerente a muita da polarização a que assistimos nas respostas cristãs ao islamismo: estamos tentando compreendê-lo como um sistema posterior a Jesus Cristo e que se vê a si mesmo como suplantando o cristianismo, enquanto tentamos nos relacionar com a enorme proporção de seres humanos que são muçulmanos. Por um lado, muitos cristãos sentem que o islamismo nunca deveria ter existido e que os muçulmanos são intrusos no seu mundo. Por outro, muitos cristãos vivem em lugares onde se relacionam com muçulmanos diariamente e têm amigos, colegas e familiares muçulmanos a quem amam.
Aqui está uma amostra dos dois enquadramentos bíblicos:

Uma visão da humanidade que inclui os muçulmanos

A base deste enquadramento é Gênesis 4 a 11. É uma análise padronizada do texto como um quiasmo (a letra maiúscula chi, do grego, parece um X). Ou seja, a sua estrutura é ABCB’A’ ou ABA’ ou ABCDC’B’A, etc. Os primeiro e último elementos “correspondem”, à medida que definem temas e assuntos, podendo repetir palavras. O elemento central é o ponto principal do assunto do texto. Os elementos intermédios “correspondem” (aqui são ambos genealogias) e indicam de que forma todo o argumento faz sentido.[6] Portanto, esta análise corresponde Gênesis 4 e 11, Gênesis 5 e 10 e, depois, considera Gênesis 6 a 9 como central.
Em Gênesis 1 a 3, aprendemos que todos os seres humanos, incluindo muçulmanos, são feitos à imagem de Deus e estão debaixo da queda. Gênesis 4 a 11 nos dá uma análise de um mundo religioso caído que pode ser lida como um quiasmo. O início e fim lidam com a religião à escala individual e societal. O ponto central é a história do dilúvio, e no meio estão as genealogias que são tão importantes em toda a estrutura de Gênesis:
A Capítulo 4: Os seres humanos fora do Éden procuram se aproximar de Deus através de um ato religioso. Não é evidente o porquê de um ser aceito e o outro rejeitado, mas fica claro que o resultado é a violência.
B Capítulo 5: Os seres humanos têm uma origem comum, e todos (exceto Enoque que aponta para uma esperança de vida) partilham a morte na sua genealogia.
C Capítulos 6 a 9: A resposta de Deus ao alastrar da violência é a ira e o sofrimento(6:6). A história do dilúvio é lida como demonstrando duas formas possíveis de Deus lidar com o mal: o juízo do dilúvio e o pacto de aliança que sucede ao sacrifício de Noé. Esta última indica a preferência de Deus, que se mantém por toda a história.
B’ Capítulo 10: As sociedades humanas têm uma origem comum e estão debaixo da mão provedora e doadora de vida de Deus.
A’ Capítulo 11: Os seres humanos têm a tendência de usar a religião para propagar o poder e o território de um povo em particular. Esta é a religião perigosa, que Deus irá julgar para limitar o mal que dela advém.
Esta análise nos fornece categorias simples, mas convincentes, para refletir sobre sunitas e xiitas, sufismo e salafismo, e sobre quem usa o taweez e os apoiantes do Estado Islâmico que matam idólatras.

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A: Religião individual. Podemos olhar para todos os muçulmanos como pessoas que tentam chegar a Deus, seja pelo exemplo de Abel ou com motivações iguais às de Caim. Podemos esperar lutas religiosas violentas por causa de questões sobre o que agrada a Deus
Portanto, este tipo de cisões é esperável entre sunitas e xiitas. Contudo, podemos também esperar que alguns dos sufistas, que buscam a face de Deus como um amante busca aquele a quem ama, sejam os “Abéis” do mundo muçulmano. A história nos leva a perguntar até que ponto conseguimos distinguir quais dos apoiantes do Estado Islâmico que sacrificam suas vidas são como Caim, e quais são como Abel.
A’: Religião social. É possível entender as várias dimensões políticas do islamismo como manifestações de uma tendência humana comum de juntar religião, etnia e poder[7] Podemos estar certos de que quando esta fusão ergue estruturas de poder exploradoras que se opõem a Deus, ele irá limitar os danos que elas causam à sua criação, que é boa.
B e B’: Genealogias. Tudo isto é a condição humana partilhada. Os muçulmanos não são intrusos no nosso mundo: todos fazemos parte do mundo de Deus. Uma das implicações disso é podermos esperar os padrões de Gênesis entre cristãos e entre muçulmanos também. Os cristãos também podem discutir sobre quem é aceitável diante de Deus. Os cristãos também podem lutar e matar-se uns aos outros. Os cristãos também podem usar a religião para construir impérios.
C: No centro de tudo está o problema do mal. Não me refiro à questão da origem do mal, embora o livro explore algumas das principais diferenças entre a posição muçulmana e cristã sobre o assunto, ao estudar a história de Adão no Corão e na Bíblia. Antes, a grande questão levantada pela história de Noé em Gênesis é: como é que Deus lida com o mal, e quais as implicações disso para a forma como os seres humanos devem lidar com mal em si mesmos e nos outros.
A minha esperança é que os leitores cristãos estejam agora partilhando um pouco da dor, da ira e do coração de Deus (Gn. 6:6). Espero também que, tal com Aquele a quem servimos, o leitor esteja decidido a preferir o caminho do sacrifício e do pacto de aliança em vez do caminho do juízo em resposta ao mal. Ele nos leva a Jesus e à sua cruz, ao sangue que clama tão mais alto do que o de Abel, o mártir. Talvez a nossa maior dor seja que a cruz e o sangue não existam no pensamento islâmico e, por isso, não são tidos em conta por quem usa o taweez ou pelos apoiantes do Estado Islâmico nas suas lutas contra o mal. E assim chegamos ao centro do segundo enquadramento analítico.Isto nos sugere uma chave para um pensamento biblicamente fundamentado acerca das variedades do islamismo: podemos descobrir o que estes muçulmanos em particular consideram ser o mal, e como estão a tentar lidar com isso. Um exemplo é a polarização entre quem usa o taweez e os apoiantes do Estado Islâmico. Os primeiros se focam no mal que os afeta e às suas famílias na vida diária. Eles lidam com isto através de rituais e, muitas vezes, tentando controlar o jinn que consideram ser responsável pelos seus problemas. Os apoiantes do Estado Islâmico concentram-se mais nos males políticos, que consideram serem causados por uma adoração errada. É frequente tentarem lidar com eles tentando destruir as causas.

O enquadramento para entender o islamismo

Este enquadramento advém da transfiguração. Ao escrever o livro, compreendi a centralidade da transfiguração nos evangelhos sinóticos; o evangelho de João pode ser lido como uma exegese da transfiguração.[8]
As perguntas às quais a transfiguração responde são perguntas islâmicas: De que forma Jesus está relacionado com os profetas anteriores? O que significa que ele é o Messias? Como lidamos com o escândalo da sua insistência em sofrer uma morte humilhante?
Até aqui, os evangelhos estão largamente em harmonia com a visão corânica de Jesus, sendo que o Corão levanta as mesmas questões que os evangelhos. No entanto, os muçulmanos encontram respostas diferentes.[9] Eles negam a crucificação e colocam Jesus no mesmo nível de todos os outros profetas. Na verdade, eles revertem a transfiguração para depois desenvolver uma tradição profético-jurídica, com base numa figura que combina o paradigma da entrega da lei como alicerce da comunidade de Moisés, com o zelo monoteísta e de aplicação da lei de Elias.
Estas observações provocam uma releitura dos paradigmas jurídicos e proféticos representados por Moisés e Elias, pelo menos enquanto formas de lidar com os males do pecado humano. Por um lado, como pode o material bíblico nos ajudar a entender as forças e as fraquezas do islamismo? Por outro, por que motivo os relatos bíblicos destes profetas encontram o seu cumprimento na cruz de Cristo em vez de na Medina de Maomé?
Portanto, uma compreensão do propósito e da natureza, das riquezas e limitações da lei bíblica e do sistema dos profetas nos oferece algumas categorias para pensar acerca do islamismo; além disso, abre a possibilidade de uma forma de ler o Novo Testamento que ilumina o modo e o motivo para ser boas novas para os muçulmanos. De ponta a ponta, a Bíblia fala ao mundo do islamismo e para a desorientação do povo secular e cristão que está tendo dificuldades para o entender.
Qual a implicação para os líderes evangélicos? Vamos colocar a Bíblia “em conversa” seria com o pensamento islâmico e o povo muçulmano, pregando todos os desígnios de Deus ao nosso mundo que sofre.
Os muçulmanos ainda estão aguardando a vinda de Jesus e de outras figuras messiânicas, que vêm para lidar definitivamente com o mal, destruindo os maus e salvando os bons. Tal como os cristãos também aguardam o julgamento final, que diferença faz nas nossas vidas e naquilo que pregamos o fato de o Messias já ter vindo e de ter lidado com o mal na cruz?  A cruz é o sacrifício aceitável disponível para quem é como Caim tanto como para quem é como Abel. Ela desafia todas as fusões de religião e poder, juntando, de uma vez para sempre, o julgamento que purifica e a dor que perdoa. De que forma podemos fazer dessa cruz a base de todas as nossas respostas ao islamismo?

Notas

  1. Taweezé uma palavra do urdu geralmente traduzida como “amuleto”. Ela se refere a um objeto usado ao pescoço ou atado de outra forma na pessoa. Nele está contido um papel com alguns versos do Corão ou diagramas místicos. A sua preparação é realizada por um religioso bem conhecido do povo, sendo considerada uma forma de combater problemas que podem ir da doença física ao comportamento inaceitável ou à proteção contra a magia negra. 
  2. Para ler e saber mais sobre o debate em torno desta ocorrência, consulte, por exemplo, https://www.theguardian.com/uk-news/2016/sep/05/alleged-killer-imam-court-islamic-state-rochdalehttp://www.asianimage.co.uk/news/14748549.Why_was_use_of_taweez_s_so_offensive_to_killers_/ 
  3. Esta é, de acordo com o Times, a percentagem de pessoas que admitem usar o taweez num inquérito realizado pela Pew em 2006. The Times, 17, n.º 9 (2016): 15. 
  4. Ida Glaser, The Bible and Other Faiths (Langham: InterVarsity, 2005). 
  5. Ida Glaser and Hannah Kay, Thinking Biblically about Islam (Langham: Langham Global Library, 2016). 
  6. Muitas passagens bíblicas e livros apresentam esta estrutura. A e A’ indicam qual é o argumento, sendo que o ponto central é o elemento fundamental.. 
  7. Nota do editor: consulte o artigo de Jonathan Andrews intitulado “Living as a Christian, Registered as a Muslim?” (Vivendo como cristão, registado como muçulmano?) na edição de março de 2017 da Análise Global de Lausanne
  8. João 1:14 é a chave hermenêutica. 
  9. A extensão das respostas diferentes do Corão é um assunto de grande debate, especialmente onde os silêncios são preenchidos por tradições de polêmica anticristã. Consulte, por exemplo, o debate de questões em torno da crucificação na obra The Crucifixion and the Qur’an: a study in the history of Islamic thought, de Todd Lawson (Oxford: OneWorld, 2009). 

Photo credits

Feature image from ‘Making dua‘ by Omar Chatriwala (CC BY-NC-ND 2.0).
Ida Glaser é a diretora do Centre for Muslim-Christian Studies (Centro de estudos muçulmano-cristãos) em Oxford, no Reino Unido, associado à Crosslinks, agência missionária anglicana. É tutora associada em Wycliffe Hall e membro da Faculdade de Teologia e Religião na Universidade de Oxford. É co-editora da nova série Routledge Biblical Interpretation in Islamic Context series. Este artigo apresenta o seu último livro, Thinking Biblically about Islam (Langham, 2016).

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quenianos asiáticos buscam tribo para chamar de sua

Muitos negócios em Nairóbi, como o Haria’s Stamp Shop, são de propriedade de quenianos asiáticos (Adriane Ohanesian para The New York Times)
NAIRÓBI, Quênia — O censo nacional do Quênia costumava incluí-los na categoria “outros”. Agora, os quenianos de origem indiana e paquistanesa, muitos deles descendentes de antepassados que ajudaram a construir o país, mas frequentemente excluídos da vida queniana, estão exigindo pela primeira vez o reconhecimento oficial.
Os “outros” querem se tornar o 44º grupo étnico do Quênia. Essa é, ao menos, a ambição de pessoas como Shakeel Shabbir, o primeiro parlamentar de origem asiática no Quênia, que apoia o nascente movimento que almeja a classificação dos quenianos asiáticos como grupo étnico. Diferentemente dos Kikuyu ou Kamba, os Maasai ou os Samburu, os quenianos asiáticos não pertencem a uma “tribo”, como o censo se refere aos grupos étnicos.
“Já estamos aqui há 100 anos”, disse Shabbir, cujo bisavô veio do Punjab, na Índia, em 1917, para trabalhar numa ferrovia britânica, chamada de “Linha dos Lunáticos” porque sua construção custou milhares de vidas. Seu avô combateu contra as forças coloniais britânicas e foi detido por sedição contra a rainha. “É nosso direito pedir isso”, disse ele. “Precisamos de um lar”.
O Quênia, país de 45 milhões de habitantes, é uma constelação de 43 afiliações étnicas. Normalmente, o reconhecimento enquanto tribo não traz vantagens específicas, a não ser no caso do povo Makonde, sem estado, cujo reconhecimento trouxe a cidadania.
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Shakeel Shabbir, membro do parlamento, defende que os quenianos asiáticos sejam classificados como o 44º grupo étnico do país (Adriane Ohanesian para The New York Times)
Para os quenianos asiáticos, não há qualquer ganho concreto ao se tornarem o 44º grupo, concordou Shabbir. Eles já têm cidadania e dinheiro, propriedades e negócios, a ponto de às vezes atrair o ressentimento de outros quenianos em situação pior. O que falta, disse Shabbir, é algo menos tangível: “Queremos compartilhar os sonhos e esforços do povo queniano”.
Sudhir Vidyarthi, um magnata do ramo editorial, disse que os quenianos asiáticos vivem tão isolados da sociedade que a única prova de sua existência é “um terreno de um acre onde vivem com uma placa dizendo: cuidado com o cão”. É uma referência à ideia segundo a qual os asiáticos, conhecidos pela fortuna, são alvo de ladrões.
Serem considerados uma “tribo” é “sentir-se parte integrante do sistema”, disse Shabbir.
Os interesses étnicos são tão preponderantes no Quênia que alguns temem que o país jamais consiga construir uma identidade nacional comparável à da vizinha Tanzânia, cujo pai fundador, Julius Nyerere, foi capaz de agregar 120 grupos étnicos numa sociedade coesa.
As divisões étnicas no Quênia têm raiz na política britânica colonial de dividir para governar. Membros dos grupos étnicos Kikuyu e Luo, mais numerosos, trabalhavam para os britânicos como administradores e servidores civis. Atualmente, eles compõem boa parte da elite do país: o presidente Uhuru Kenyatta é Kikuyu; seu adversário nas eleições presidenciais, Raila Odinga, é Luo.
A constituição do Quênia exige que o governo inclua funcionários de diferentes origens étnicas. Mas a regra raramente é seguida. Para colher os benefícios da filiação étnica, é necessário pertencer à tribo que está no poder. Tal proximidade pode trazer acordos de negócios, empregos ou vagas para os filhos em instituições de ensino estrangeiras.
Os políticos “hipnotizam primeiro a própria tribo, e então calculam quais outras devem seduzir para alcançar o poder”, disse Ekuru Aukot, advogado e presidente da Aliança Terceira Via, um partido nascente que busca desmontar o que ele descreve como “etnicidade negativa”.
Assim como os indianos no subcontinente às vezes descrevem seus conterrâneos em termos de castas ou lugar de origem, muitos quenianos associam estereótipos aos conterrâneos de outros grupos étnicos. Dependendo do ponto de vista, os Kikuyu são descritos como negociantes astutos ou desonestos. Os Luo são considerados intelectuais, mas também “gostam de uma briga”, de acordo com Isaac Motuku, membro do grupo étnico Kamba, que ele disse com orgulho ser considerado “esforçado”.
A autora Rasna Warah disse que ser uma queniana asiática significa ter três identidades: nascida na África, com ascendência indiana, herdando o legado colonial britânico.
“Os asiáticos não deveriam jogar o mesmo jogo tribal”, disse Rasna. “Somos quenianos ou não somos. Onde fica minha pátria? Isso é tudo que tenho”.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Tradução da Bíblia - Uma missão possível


Quais são os conhecimentos necessários para trabalhar com a tradução das Sagradas Escrituras? É comum pensar que tradução se trata de uma tarefa a ser realizada entre dois idiomas, por quem tem o domínio de ambos. No entanto, ela é mais do que a construção de uma ponte entre duas diferentes línguas para se transitar o sentido. As competências necessárias são ainda maiores quando falamos de um trabalho de tradução para línguas que possuem pouco ou nenhum estudo prévio, gerando desafios que transcendem os limites da linguagem, como no caso das traduções feitas pelos missionários para os povos com que trabalham.
    Importante se dizer, logo de início, que todo trabalho de tradução, mesmo os mais bem realizados, poderão atingir um alto grau de fidelidade e precisão, mas nunca alcançarão a perfeição. Cabe lembrar aqui o famoso ditado italiano, que descreve o tradutor: “traduttore, traditore”, isto é, “tradutor, traidor”. Com isso, quero lhe assegurar que não há tradução perfeita. Independentemente do número de edições, revisões, membros do comitê editorial ou qualquer outro controle de qualidade, a comunicação do sentido entre diferentes universos linguísticos e culturais nunca será exato, esta é uma tarefa que não está ao alcance das mãos humanas. Mas isso não significa que devemos desistir de traduzir ou diminuir o valor desse trabalho.
    Mesmo diante das limitações ressaltadas, cremos que pessoas podem ser alcançadas ao terem contato com o Evangelho por meio de uma tradução, mesmo que esta seja imperfeita. Aliás, foi assim comigo e, provavelmente, com você também, por meio de uma das traduções que temos para a nossa língua. Isso acontece porque, mesmo que as traduções disponíveis não tenham capturado as minúcias do significado dos primeiros textos bíblicos, ainda assim, a mensagem central é comunicada de forma clara e satisfatória para cumprir o seu propósito. A tradução da Bíblia ainda é a palavra de Deus, expressando a mensagem das Sagradas Escrituras, tendo o cerne do seu conteúdo preservado pelo próprio Senhor e sendo ela o instrumento do Senhor para transformar os corações daqueles que a leem.
    Olhando para a história da tradução da Bíblia vemos que ela começou com a Septuaginta, sendo seguida por uma longa lista de traduções, tendo, hoje, disponível ao menos um versículo para milhares de línguas. Mas também é uma história ainda não concluída, aguardando ser escrita para quase 2 mil povos etnolinguísticos. Tradução tem um passado marcado por muitas lutas, perseguições e sangue derramado, justamente por causa do debate das dificuldades e consequências envolvidas no processo. Por diversos momentos a Igreja se deparou com a seguinte pergunta: proteger e preservar o texto sagrado ou traduzir e arriscar incorrer em possíveis erros? Me permita um parêntese aqui: essa pergunta, ainda hoje, ecoa de forma aguda no peito de muitos tradutores da Bíblia.
    Mas foi em momentos em que a Igreja tentou proteger a Bíblia, evitando que ela estivesse disponível a todos, blindando-a para evitar que se incorresse em erros de interpretação e resguardando o seu acesso apenas aos líderes da igreja é que Deus levantou homens como John Wycliffe, William Tyndale, Lutero e muitos outros. Estes foram tradutores que, para colocar a palavra de Deus na mão de pessoas que não tinham acesso a ela, pagaram com suas próprias vidas. Wycliffe, por traduzir para o Inglês, foi condenado como herege e, após morto, foi exumado e teve seus ossos queimados e as cinzas lançadas no rio Swift, na Inglaterra. Tyndale viveu uma vida de perseguição e fuga até que, ao final, foi estrangulado e em seguida teve o seu o corpo queimado.
    Retornando à nossa pergunta inicial, o que um tradutor precisa saber para realizar sua missão? Em nosso primeiro texto, mostramos que verter a Palavra de Deus para uma outra língua requer conhecimento em tradução, linguística, antropologia, tecnologia e outras áreas, sem mencionar uma sólida formação em teologia bíblica e conhecimento do grego e hebraico bíblico.
     Como você já notou, desde o início deste texto estamos abordando a natureza da ciência da tradução propriamente. Como toda ciência, ela possui teorias e métodos que vem se desenvolvendo com o avanço dos estudos. Historicamente, a discussão girou em torno da busca por um resultado que se aproximasse de uma tradução com uma equivalência mais formal, preservando as estruturas e formas do texto, resultando em uma tradução mais literal, ou, a produção de um trabalho em se que apresentasse um texto mais dinâmico, priorizando a comunicação do sentido do texto fonte.
    De maneira geral, toda boa tradução bíblica tem por alvo a incansável produção de um texto claro, preciso, natural e aceitável. A presença desses quatro elementos é essencial. Por se tratar da Palavra do nosso Deus, é sine qua non que ilimitados esforços sejam aplicados na proteção da fidelidade do sentido do texto. Também uma produção textual que respeite as regras da língua alvo, possibilitando uma leitura que possa ser feita com clareza e fluidez é de suma importância. Não há razão para a existência de um texto artificial e com poucas condições de leitura. Não foi por acaso que o Novo Testamento foi escrito em Grego Koine, que era um grego mais popular e acessível a todos.
    Espero que você tenha compreendido um pouco dos desafios da tradução da Bíblia. Este é uma história ainda não concluída, pois muito ainda há por se fazer. Perseguições, lutas e sangue a ser derramado ainda precisam ser superados para que a boa mensagem do Evangelho chegue às mãos dos que ainda não a conhecem, e Cristo, nosso mestre, seja anunciado entre todos os povos. Também a história nos ensina que a palavra do nosso Deus permanece para sempre. Ela já atravessou milênios, é o livro mais traduzido, lido e distribuído na humanidade e tem se provado indestrutível na sua vulnerabilidade. E não apenas a história nos ensina isso, pois o nosso próprio Senhor nos diz que “Para sempre, ó Senhor, está firmada a tua palavra no céu.” (Sl 119.89).
jesseJessé Fogaça - Pastor presbiteriano, linguista e tradutor da Bíblia. Membro da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM), Australian Society for Indigenous Languages (AuSIL) e Summer Institute of Linguistics (SIL Internacional).

domingo, 14 de maio de 2017

O ciclo de poder de Jesus


"Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem." – Romanos 12:21
Seria o efeito dos medicamentos? Seria um sonho confuso? Ou seria uma função prejudicada do cérebro que os médicos previram? Qualquer que fosse o cenário, era desconcertante.
“Nuri”, um muçulmano vivendo no norte da Índia, esteve no hospital por vários dias. Agora, na névoa da fadiga e remédios, ele viu seu filho, “Rasheed”, acompanhado por um hindu, religião tradicional na Índia. E o hindu, que depois veio a ser conhecido como “Pavaak”, estava gritando: “Nuri, seja curado em nome de Jesus!”
Toda essa confusão começou com uma disputa por terra entre seus vizinhos muçulmanos. Como Nuri se recusava a entregar um pedaço do lote da família, a disputa se tornou violenta, até que os vizinhos do clã armaram uma emboscada e bateram nele com varas de bambu até acharem que ele tinha morrido.
Seriam os remédios? Seria apenas uma questão de tempo? Ou seria a oração fervorosa do hindu invocando o nome Jesus? O que quer que estivesse dirigindo o cenário, Nuri deixou hospital poucas semanas depois, em condições muito melhores do que os médicos esperavam. Além disso, sua vida e a de seu filho foram mudadas para a eternidade.
Durante a recuperação, Nuri teve bastante tempo para pensar no que aconteceu. Inicialmente, ele estava bem irado. Ele havia vivido de acordo com as tradições muçulmanas. Ele ordenou ao seu filho que tomasse uma esposa quando Rasheed tinha apenas 13 anos de idade. Nuri continuou a seguir os costumes islâmicos da área, obrigando Rasheed a tomar uma segunda esposa há poucos anos atrás. Seguir estas tradições trouxe muitos problemas à família, pois alimentar duas bocas a mais não é nada fácil.
E que gratidão recebeu? Muçulmanos tentaram roubar a terra de onde ele tirava o sustento de sua família. Depois de espancado, não foi um muçulmano que veio orar por ele. Quem veio orar foi um hindu, que se tornou cristão. Pavaak desconsiderou o complicado sistema de castas da nação para mostrar amor e preocupação por Nuri.
Pavaak levou seu amigo, “Bill”, um trabalhador da Frontiers que mora na cidade, para visitar Nuri e Rasheed no hospital. Foi assim que eles entenderam quem era Jesus, aquele que Pavaak citava em suas orações. A medida que Bill explicava o papel do pecado, Nuri e Rasheed entenderam melhor a motivação de seus vizinhos. Quando Bill descreveu como, através da cruz, Jesus quebrou a maldição do pecado, Nuri e Rasheed estavam prontos para seguir Jesus.
Finalmente, à medida que Bill os ensinava sobre perdão, Nuri e Rasheed foram capazes de retornar ao lugar onde puderam ter paz com seus vizinhos. Aquele perdão não passou desapercebido pelos muçulmanos. Logo os vizinhos estavam se perguntando como vítimas de injustiça eram capazes de perdoar e Nuri e Rasheed responderam: “Cristo crucificado!”
Desde que recebera alta do hospital, Rasheed continuou a estudar com Bill acerca de Jesus. Seu testemunho estimulou outros muçulmanos a aceitarem o Salvador. Atualmente, Bill está ensinado aos novos seguidores a usarem suas influências na comunidade para criar um reavivamento por Jesus.
Através da fé em Cristo, velhos ciclos são quebrados. O sistema de casta entre hindus e muçulmanos, o espírito de violência dentro da comunidade islâmica e a falta de perdão entre vizinhos foram substituídos por um novo ciclo – o ciclo de amor – pelo poder de Jesus.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Conheça a falsa banana ensete, alimento típico na Etiópia

Um tukul, a cabana tradicional etíope, com uma plantação de ensete na estrada para Boricha, na Região das Nações e Nacionalidades dos Povos do Sul da Etiópia (Foto: Giselle Paulino/ÉPOCA)
Um tukul, a cabana tradicional etíope, com uma plantação de ensete na estrada para Boricha, na Região das Nações e Nacionalidades dos Povos do Sul da Etiópia (Foto: Giselle Paulino/ÉPOCA)

http://epoca.globo.com
Quem olha para essa planta de aparência tropical, com caule suculento e folhas largas verdes e brilhantes, pensa que se trata de uma bananeira comum, apenas sem os cachos da fruta paradisíaca. Ainda que pertença à mesma família musácea de nossa banana comestível, a ensete (Ensete ventricosum) é muito mais que uma simples herbácea. Nativa da Etiópia, a falsa banana ou banana-da-abissínia oferece uma fibra muito usada pela população do sul do país – até mesmo para construir casas –, possui propriedades medicinais e é a base da alimentação de quase 10 milhões de pessoas que vivem na região.
Em 1640, o padre português Jerônimo Lobo viajava pela antiga Abissínia e descreveu a ensete como “uma árvore peculiar do país” que, quando preparada para comer, “lembrava o nabo.” A planta passou a ser chamada “árvore dos pobres”, embora fosse consumida também pelos ricos. Seu outro nome é “árvore contra a fome”, já que todos aqueles que plantavam a espécie não corriam o risco de não ter o que comer. Com uma ensete no quintal, sempre há alimento.
Vimos plantações de ensete pela primeira vez em uma comunidade Dorze, na Região das Nações e Nacionalidades dos Povos do Sul da Etiópia (RNNPS) que, como o nome sugere, abriga mais de 50 diferentes etnias concentradas no vale do Rio Omo, perto das fronteiras do Quênia e do Sudão do Sul. Essas tribos, como Mursi, Hammer, Karo, Tsemay ou Arbore, representam alguns dos últimos exemplos de povos nativos africanos que ainda vivem com pouca influência ocidental e mantém seus costumes e tradições.
A etnia Dorze vive nas montanhas, a 3.000 metros de altitude, a algumas dezenas de quilômetros de Arba Minch. A principal característica da comunidade são suas casas construídas a partir de bambu e “folhas de bananeira”, ou o que pensávamos ser uma bananeira. Chegando a atingir 10 metros de altura, apesar da aparência frágil, as cabanas podem durar até meio século.
A etnia Dorze habita as montanhas e usa as folhas secas de ensete para construir suas casas (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
As cabanas do povo Dorze podem atingir 10 metros de altura e são sempre rodeadas com plantas de ensete (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)






































Além de abrigar a (extensa) família etíope, a casa feita com folhas de banana tem espaço suficiente para acolher animais domésticos da família, como bezerros, cabras e bodes. Não há problema em conviver com os animais, pois, segundo o povo Dorze, estes ajudam a manter o calor no interior das casas. Vistas à distância, as cabaninhas parecem uma família de elefantes, tanto pela cor acinzentada como pela forma ondulada.
Mas foi apenas um ano mais tarde, durante uma pesquisa de campo com o povo Sidama, também na RNNPS, que fomos compreender a importância dessa planta para a segurança alimentar e nutricional da Etiópia. Embora pareça paradoxal, a Etiópia é um país rico em biodiversidade com grande diversidade genética de culturas como cevada, milhete, sorgo, gergelim, moringa ou linhaça, além de possuir espécies nativas como o tef e a ensete. Relatos de exploradores do século 16 dão detalhes da riqueza do país e da beleza das montanhas cobertas por uma, então, vegetação exuberante. 
No entanto, de acordo com o World Resource Institute, atualmente apenas 4% da vegetação nativa restou no país. Um dos motivos desse verdadeiro colapso foram os séculos de governos autoritários e exploratórios que obrigaram os agricultores a entregarem parte de suas produções e a pagar taxas abusivas à aristocracia da época. Essas medidas forçaram a população a viver em situação de pobreza extrema na qual as únicas alternativas eram avançar com a agricultura sobre as terras virgens e cortar a madeira das florestas para serem processadas e vendidas como carvão.
O livro publicado pelas universidades da Flórida e de Hawassa Ensete: The tree against hunger mostra que, no passado, a falsa banana espalhava-se por todo o território etíope, mas hoje é encontrada apenas na RNNPS e em alguns lugares ao redor do Lago Tana, nas montanhas Simien e no sul da Eritreia.
Cena típica rural etíope, com a sempre presente plantação de ensete ao fundo  (Foto: Giselle Paulino/ÉPOCA)



















Variedades selvagens da ensete também podem ser encontradas na Ásia, em alguns países da África Subsaariana e em Madagascar. No entanto, apenas na Etiópia a planta foi domesticada em uma escala maior. Alguns historiadores e antropólogos acreditam que esse processo pode ter começado há cerca de 10 mil anos.
Durante a fome que atingiu o país em 1983 e 1984, as comunidades que cultivavam ensete em suas roças conseguiram superar com menos dificuldades os terríveis meses de seca. A planta é capaz de resistir a períodos de estiagem. Ao mesmo tempo, quando a chuva cai com violência, sua vasta folhagem ajuda a proteger o solo das enxurradas, evitando a perda de nutrientes e a consequente erosão.
Nos arredores de Hawassa, a capital da RNNPS, o cenário rural é composto pelos tradicionais tukuls, cabanas circulares de palha, nas quais a eletricidade ainda não chegou. Na região, todo tukul está sempre rodeado por uma plantação de falsa banana. Foi lá que aprendi a importância do kocho, alimento parecido a um pão produzido a partir da ensete e principal componente da dieta da região. “Comemos kocho de manhã, na hora do almoço e no jantar. Não podemos viver sem ensete”, diz Mikael Babe, agricultor de Boricha.
Mikael Babe em sua plantação de ensete. Ele come kocho três vezes ao dia e todos os dias ao ano  (Foto: Giselle Paulino/ÉPOCA)


Para preparar o kocho é preciso extrair a polpa do pseudocaule não lenhoso da falsa banana e enterrar a massa por cerca de 12 a 15 dias para que um processo de fermentação aconteça. Após esse período, o produto é retirado do buraco cavado no solo, hidratado, amassado e assado dentro de uma folha da própria ensete. O ritual vem se repetindo por muitas gerações.
Jovem retira a polpa da falsa-banana de seu pseudocaule com ajuda de um pente artesanal que separa o futuro alimento da fibra (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)
Depois de fermentada por 12 a 15 dias, a massa do kocho é hidratada e amassada como um pão (Foto: Giselle Paulino/ÉPOCA)
Depois do kocho tomar a forma de um pão achatado, ele é assado sobre uma placa quente, dentro de uma folha de ensete (Foto: Haroldo Castro/ÉPOCA)



























































Toda a produção de ensete é destinada ao consumo próprio local. Quando uma família está sem a planta, basta recorrer ao vizinho e pedir emprestado alguns caules ou até mesmo encontrá-la na feira local. Nessas regiões onde os agricultores vivem exclusivamente do que produzem, plantar os alimentos básicos é uma prioridade, principalmente quando se trata de áreas vulneráveis a períodos de seca e riscos de situações de fome, como é o caso da Etiópia e de outros países da África Subsaariana.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a ensete produz mais alimento do que a maioria dos cereais. Estima-se que uma plantação com 50 pés de falsa banana, ocupando apenas cerca de 300 metros quadrados, possa alimentar diariamente uma família de cinco a seis pessoas. Um simples pé de ensete rende, durante seu ciclo, cerca de 40 quilos de kocho.
Outro benefício da planta é que os campos de ensete são adubados por compostos orgânicos feitos a partir dos excrementos de animais domésticos. Esse procedimento contribui com a fertilidade do solo e ajuda a aumentar a capacidade da terra em absorver a água da chuva. Como o cultivo de ensete acaba melhorando a qualidade do solo, sua produção tem sido contínua por séculos a fio.
Para nós ocidentais, não acostumados com comidas fermentadas, o kocho pode parecer pesado e de gosto estranho. Mas na zona rural de Hawassa, a polpa da ensete está presente todos os dias nos pratos dos camponeses.
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