domingo, 4 de março de 2012

Sem empregos e educação, milhões ficam à margem de crescimento brasileiro

Assunção do Piauí. Foto: Júlia Carneiro - BBC Brasil
Assunção do Piauí tem o 10º pior rendimento per capita domiciliar do Brasil. (Foto: Júlia Carneiro - BBC Brasil)



Ao chegar de carro por uma estrada de terra arenosa, uma placa dá as boas-vindas a Assunção do Piauí, "a capital do feijão". Mas as letras desbotadas, quase apagadas, deixam claro que a principal atividade econômica local já viu melhores dias.

Na pequena cidade, a 270 km de Teresina, as colheitas fracas estão fazendo muitos desistirem de plantar feijão.
"Aqui é assim, a gente só trabalha no escuro. Num ano dá e no outro não dá", diz a dona de casa Francisca Pereira Moreno, mãe de cinco filhos.
Depois de conversar com alguns moradores de Assunção, perguntar onde cada um trabalha parece perder sentido. Os principais empregos da cidade são na prefeitura local, mas para adultos como Francisca, que não sabe ler nem escrever, a única opção está na roça ou nos serviços domésticos. Sem alternativas, a maioria sobrevive do Bolsa Família.
"Tem que ter o Bolsa Família. Porque a renda aqui do feijão não está dando dinheiro. Dá R$ 60, R$ 70", diz Francisca.
A cidade é um dos retratos de um Brasil que ficou praticamente à margem do crescimento econômico nacional registrado nos últimos anos e que tem colocado o país próximo de economias consideradas de primeiro mundo como a Grã-Bretanha.
Apesar do recuo constante da pobreza desde o início do Plano Real, em 1994, e da emergência da classe C, na última década, o país ainda tem focos de pobreza extrema que se caracterizam por baixo rendimento domiciliar, acesso limitado a serviços como saúde e educação e poucas perspectivas de trabalho para os moradores locais.

Oportunidades insuficientes

“Com o crescimento e a geração de empregos, uma parte da população saiu da pobreza extrema. (Mas) as oportunidades não foram suficientes para todos – sobraram os com menos condições de aproveitar, como os que não tinham vínculos com o mercado de trabalho ou acesso à Previdência e à assistência social”, explicou Rafael Osório, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).
Segundo o Censo 2010, em média 8,5% da população brasileira ainda vive com renda per capita mensal de até R$ 70. Isso equivale a cerca de 16,2 milhões de pessoas – praticamente a população do estado do Rio de Janeiro.
Com 7,5 mil habitantes, Assunção do Piauí, visitada pela BBC Brasil em janeiro, teve em 2010 o 10º pior rendimento per capita domiciliar do país – uma média de R$ 137 reais, contra R$ 1.180 de São Paulo.
A taxa de analfabetismo é de quase 40% entre pessoas com 15 anos ou mais. A cidade tem quase 1.500 famílias beneficiárias do Bolsa Família.
"Muitos ficam na fila de espera (do programa) porque Assunção já extrapolou a cota que o Ministério do Desenvolvimento estipula para cada cidade", diz a assistente social Ana Alaídes Soares Câmara, que trabalha no Centro de Referência de Assistência Social da cidade.

Maria Iraneide Moreno, e Tamires. Foto: Júlia Carneiro – BBC Brasil
Cerca de 20% da população de Assunção do Piauí depende do Bolsa Família. (Foto: Júlia Carneiro – BBC Brasil)


‘O terço mais difícil’

Desde o Plano Real, a pobreza caiu 67% no Brasil, algo inédito na série estatística, disse à BBC Brasil o pesquisador Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. “Falta o último terço, que é o mais difícil da jornada.”
Para Neri, é possível que o número de extremamente pobres seja até menor do que o estimado pelo Censo, se for levada em conta a renda obtida em transações não monetárias, como trocas e agricultura familiar.
“Pelo Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios, também do IBGE), essas pessoas seriam 5,5% da população”, disse o pesquisador da FGV.
A incerteza a respeito do tamanho dessa população revela, na verdade, uma boa notícia: como o grupo de extremamente pobres está cada vez menor, eles ficam pouco representados na amostra geral dos brasileiros, explicou Rafael Osório, do Ipea.
“As pessoas extremamente pobres são mais difíceis de se investigar. Algumas sequer são achadas, não interagem com o Estado, não têm documentos, e o acesso a elas é complicado”, disse.
Além disso, a pobreza extrema não é apenas uma questão de renda: diz respeito também à falta de acesso a serviços básicos, como saneamento, moradia e educação de qualidade, e ao isolamento em relação ao mercado de trabalho.

Faltam atividades econômicas

Mas, um relatório do Ipea tenta traçar um perfil desse Brasil que demora a crescer: em 2009, 41,8% das famílias extremamente pobres eram formadas por casais com uma a três crianças; 29% eram agricultores e 34% eram inativos (não trabalhavam nem procuravam emprego).
Dados do Censo 2010 indicam que muitos desses bolsões extremamente pobres se concentram em cidades de porte mediano, de entre 10 mil e 50 mil habitantes.
“São cidades onde faltam atividades econômicas”, explicou Osório. “Muitas têm poucos atrativos para empresas e dependem cada vez mais de políticas sociais, e algumas têm um vácuo generacional (sua população economicamente ativa migra em busca de empregos).”
Mas o pesquisador ressalva que não se trata de uma população fixa e estagnada: “Uma parcela tem rendimento incerto e transita entre uma camada de renda e outra. É o caso, por exemplo, de um guardador de carro – se ele ficar doente, perde a renda (e passa a figurar entre os extremamente pobres)”.

Estratégias

Como, então, combater essa pobreza extrema?
A presidente Dilma Rousseff lançou como uma das prioridades de seu governo o programa Brasil Sem Miséria, que tem a ambiciosa meta de erradicar a pobreza extrema até 2014 e que foca as pessoas com renda per capita mensal de até R$ 70.
Iniciado em junho do ano passado, o plano contém ações que complementam o Bolsa Família, com programas para fomentar o emprego, a capacitação profissional e atividades econômicas locais, bem como o aumento da oferta de serviços públicos como saúde, educação e saneamento.
Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil elogiam o foco estabelecido pelo programa, mas o projeto tem óbvias dificuldades em levar serviços, renda e oportunidades para as pessoas mais excluídas.
“É preciso localizar (as populações empobrecidas), levar serviços públicos, com agentes sociais. É algo mais caro, mais artesanal”, afirmou Neri, da FGV.
Para Osório, uma alternativa seria aumentar os valores pagos pelo Bolsa Família. “A maior parte dos extremamente pobres já faz parte do programa. Se aumentarem os valores, daremos um baque na pobreza.”
Mas os pesquisadores concordam que o grande estímulo para a saída da pobreza é a geração de empregos – e o desafio do Brasil é conseguir gerar vagas em áreas mais pobres justamente num momento de desaceleração econômica.
"Gerar empregos depende, em última instância, da economia", disse Osório. "E o cenário é adverso, apesar de ser o melhor caminho. Isso pode não ocorrer com a mesma intensidade do que nos anos de crescimento."

Veja Mais:

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mianmar: Razões econômicas


Monges noviços brincam enquanto um policial protege um templo budista onde moradores locais se encontram com representantes da ONU e da polícia birmanesa, em Kyauk Ka Char, Mianmar. 

O país avançou significativamente na erradicação das plantações de papoula de setembro de 2011, ameaçando a sobrevivência de agricultores pobres, que dependem da cultura de ópio para comprar alimentos. 

Com o cessar-fogo pondo fim a anos de conflitos entre o governo e insurgentes étnicos, a representantes da ONU e homens da polícia birmanesa estão percorrendo o Estado de Shan, grande produtor de ópio, para saber dos agricultores  suas necessidades de assistência. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Linguee: Um dicionário online e uma máquina de busca de traduções

Linguee nova versão

O Linguee é um dicionário inteligente que não mostra apenas a tradução de uma palavra em específico. Seu grande diferencial é dar uma ideia geral sobre o que significa uma palavra ou expressão com diversas frases de exemplo. Desta maneira é muito mais fácil entender a semântica de uma expressão, frase ou palavra.

A boa notícia é que, o que era bom, agora está melhor. O Novo Linguee conta com diversas novidades que melhoraram a interpretação de palavras, novos recursos e um visual muito mais bonito e de fácil compreensão.

A ferramenta de tradução mais eficiente da Web combina um dicionário redacional com uma máquina de busca de traduções. A notícia espalhou-se e o Linguee já é uma das startups mais bem sucedidas do último ano: a divulgação e o entusiasmo do(a)s nosso(a)s usuário(a)s resultaram em mais de 1,5 milhão de consultas diárias e fez do Linguee um dos dicionários mais utilizados do planeta!

O Linguee está com um visual muito mais moderno, além de novas funções de fácil utilização. Entre as novidades está a sugestão dinâmica de exemplos de frases traduzidas, integração e outras diversas fontes de tradução. Através desta ferramenta é possível traduzir desde palavras usuais até palavras mais complexas que poderão ser encontradas nos seus mais variados contextos de ocorrência.


Sobre o Linguee

O Linguee.com.br é um dicionário online e uma máquina de busca de traduções. Em comparação a outros dicionários online existentes, o Linguee oferece a pesquisa em cerca de mil vezes mais material bilíngue traduzido. Ele foi fundado em dezembro de 2008 após mais de um ano de desenvolvimento por Gereon Frahling e Leonard Fink. Em Maio de 2010, a versão final foi lançada online e em agosto de mesmo ano, foram incluídas as versões em português-inglês, espanhol-inglês e francês-inglês, todas mantendo o mesmo caráter único e a alta qualidade da versão alemã. O Linguee está entre os 100 websites mais visitados da Alemanha e é um dos dicionários online mais utilizados do mundo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sobre o Projeto Vídeo nas Aldeias, que há 14 anos forma diretores cinematográficos indígenas

Vicente Carelli é antropólogo e fundador do Projeto Vídeo nas Aldeias, que há 14 anos forma diretores cinematográficos indígenas



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Quais são os êxitos do Projeto Vídeo nas Aldeias? 
A coleção de DVDs Cineastas Indígenas, com documentários dirigidos pelos índios formados pelo nosso projeto, e as obras premiadas internacionalmente (como o filme Priara Jô. Depois da Guerra, o Ovo), que levam a intimidade indígena para o público. Algo que eu nem sonhava quando comecei tudo.

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Como os índios enxergam as produções? 
Os índios, quando percebem a possibilidade da produção da imagem, se empolgam na preparação dos seus rituais e cantos mais apreciados e se lamentam por não terem imagens de seus avós. Estar na tela também torna a possibilidade de ser reconhecido mais palpável, não como um índio genérico, mas como um xavante, um kuikuro, um panará, um povo.

É diferente do que vemos na TV?
Os índios não se identificam com sua imagem na TV, sempre acham que inventam coisas ou omitem o mais importante. Nos filmes, querem mostrar o que consideram mais bonito: cerimoniais e festas. O cinema com o qual trabalhamos é o de documentar o cotidiano, o humor das pessoas, as alegrias, as broncas. É um olhar que, para além de nossas diferenças culturais, humaniza o índio, homem como a gente, que ri e se surpreende com as mesmas coisas, que adula seu filhote como a gente faria.


Saiba mais:

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Peru: Tribo recém-descoberta atira flechas contra turistas

Violência marca encontro de tribo amazônica no Peru com civilização.

[O Globo, 31 jan 12] Uma tribo de índios até há pouco totalmente isolada na Amazônia peruana começou a fazer aparições esporádicas nas margens dos rios da região e chegou mesmo a lançar flechas contra turistas que costumam fazer um roteiro ambiental na área e contra um funcionário do Parque Nacional Manu, onde ficam suas terras. Um nativo de um outro grupo, que ajudava um arqueólogo a fazer estudos na área e já teria travado algum contato com a tribo, teria sido flechado no coração e morrido.
Autoridades peruanas afirmaram ontem que estão lutando para manter eventuais visitantes longe da tribo e evitar novos problemas. O comportamento do pequeno grupo de índios mashco-piro intriga os cientistas. Aparentemente, o grupo passou a se aproximar mais da margem do rio e se mostrar mais agressivo devido a pressões impostas pelo desmatamento ilegal e a exploração de óleo e gás. Pequenos aviões da companhia de petróleo têm sobrevoado a área, no sudeste do Peru. Além disso, segundo especialistas, eles estariam se sentindo acossados por turistas que, em algumas ocasiões, teriam deixado roupas junto aos rios, como forma de atraí-los para as margens.
De acordo com ribeirinhos do estado de Madre de Dios, os índios foram vistos pela primeira vez em maio do ano passado. Em novembro, um arqueólogo espanhol que trabalha na região fez as fotos que ilustram a matéria — divulgadas ontem pela ONG Survival International e consideradas as mais detalhadas já feitas de um grupo indígena isolado, que nunca manteve contato direto com outros grupos.
— Tem havido um aumento dos conflitos e da violência contra pessoas de fora que apareçam em sua terra ancestral — afirmou, em entrevista à BBC, a pesquisadora da ONG Rebecca Spooner, lembrando que eles estariam se sentindo acossados com o comportamento dos forasteiros.
No ano passado, eles teriam disparado uma flecha sem ponta contra um guarda florestal do parque e turistas, como forma de avisar que não queriam visitas.
Para conseguir as fotos, o arqueólogo espanhol Diego Cortijo se manteve a uma distância de 120 metros e contou com a ajuda de um telescópio acoplado a uma câmara. Ele estava acompanhado do nativo de um outro grupo, Nicolas Shaco Flores, que, há 20 anos vinha tentando manter contato com a tribo, para quem costumava deixar alguns utensílios. Ele teria, inclusive, chegado a conversar com alguns deles. Cinco dias depois de as fotos serem tiradas, no entanto, Flores foi morto com uma flecha no coração. Muitos acreditam que os mashco-piro seriam os responsáveis, embora isso não esteja totalmente comprovado.
— O fato de eles se aproximaram ocasionalmente das margens para conseguir machetes e outros utensílios não significa que queiram contato e uma prova disso são os recentes atos violentos — sustenta Rebecca, que não sabe dizer quem teria matado Flores. — Já protestamos agora e no Parque Nacional de Manu não há mais turistas. Mas vamos enviar um abaixo-assinado com 150 mil assinaturas ao governo para que tome medidas também contra os madeireiros, que subornam autoridades locais para entrar.
— Ele estava com sua filha e seu genro cultivando o solo quando tudo aconteceu e só os dois conseguiram escapar — afirmou o arqueólogo, em entrevista ao jornal espanhol “El Mundo”. — Não se sabe quem o matou, mas duvido que tenham sido os indígenas do grupo que conhecia, com os quais nunca havia tido problemas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CHOMSKY, LEVY-STRAUSS E MAUSS - Pensadores e antropólogos reconhecem: é necessário que exista um Deus


Ronaldo Lidório

     A filosofia antropológica é uma das minhas áreas de interesse, sobretudo as teorias que giram em torno das formas normativas para agrupamentos sociais. Nos últimos tempos tenho lido pensadores contemporâneos que, em algum instante de suas conclusões teóricas, propuseram a não existência de Deus. Já estudava Chomsky há algum tempo e recentemente interessei-me por outras mentes brilhantes que igualmente iniciaram suas carreiras acadêmicas tentando dispensar teoricamente a existência do Eterno na formulação social humana. Minha pequena pesquisa pessoal tinha como alvo avaliar as conclusões finais em seus estudos já que todo pensador possui valores ainda inconclusivos ao longo da pesquisa. Como interessado na antropologia sinto-me atraído pelo que podemos chamar de ‘acuo filosófico’. Um momento dialético em que o pensador (ou uma sociedade pensante) conclui, mesmo com amargura e não raramente revolta acadêmica, a necessidade do Eterno sem o qual a humanidade torna-se empírica e filosoficamente inviável. Reconheço como leitor da Palavra que não há aí nenhuma luz que os conduza a Deus. Somente a Graça o faz. Entretanto há certamente uma escuridão que faz compreender o vácuo existencial sem a concepção de Deus. 
     Lendo o pensamento científico destes pensadores torna-se quase facilmente perceptível a sua divisão conclusiva em dois grupos. Aqueles que se frustram existencialmente e inconcluem suas teorias como Nietzche com seu niilismo onde se torna "negador de Deus" (1) e posteriormente (como seria diferente?) negador da vida sendo claramente influenciado pelo trauma da morte do pai, ministro luterano, já por algum tempo enlouquecido, quando ainda era criança. Ou por Kafka em seu ceticismo disfuncional onde jamais chegou a conceber sentido para a vida e vendo o mundo como "uma sociedade esquelética sem qualquer fim" (2) e sem conseguir detectar ‘a fonte da formulação deste cenário socio humano que chamamos de vida’ (3) que aparentemente era seu alvo inicial. Seguem-se a estes, outros como Derrida, Freud, atualmente Goleman e quase todos à sombra de Darwin sem mencionar Kant com seu racionalismo irônico onde diz ter "destruído Deus para depois o reinventar, apenas em benefício da necessidade teísta de Lampe, seu criado". (4) 

     O segundo grupo é formado por aqueles que, ao fim, conseguem achar humildade de espírito suficiente para concluir que, mesmo não defendendo cientificamente a existência de Deus, a vida (especialmente a humana) não poderia ser concebida sem a presença interventora do Eterno. Rendem-se, não à adoração a Deus, mas à sua necessidade, para eles próprios existirem. Dentre eles encontramos Levy-Strauss, Chomsky, Mauss e o próprio Kant, em seus arroubos de iluminação. 

     Gostaria inicialmente de destacar Noam Chomsky, um dos mais respeitados lingüistas do século XX, conhecido por sua busca axiomática das estruturas de comunicação e influente no mundo acadêmico e filosófico. Judeu, filho de um estudioso da língua Hebraica, tentou ele explicar racional e empiricamente as raízes de comunicação socio-humana quando, desenvolvendo seus principais estudos em Harvard foi tomado pela síntese teórica, óbvia ao seu ver, da ‘cognição inata’. Em poucas palavras trata-se da compreensão de que a comunicação socio-cultural foi desenvolvida antes dos agrupamentos sociais. Ou seja, toda a estrutura de comunicação humana, verbal ou semiótica, foi criada antes do ser humano se agrupar. Ele afirma que ‘a liberdade lingüística e a criatividade não são adquiridas, mas sempre existiram de forma apriorística" (5) e finalmente sucumbe reconhecendo que usuários de linguagem jamais poderiam compreender novas estruturas gramaticais sem jamais as ter encontrado na prática, o que torna a linguagem inata, e primeira, antes da dispersão social. Chomsky concluiu a necessidade do Eterno para que a humanidade pudesse se comunicar. 

     Chomsky trata também em outros estudos da aquisição da linguagem e a sua competência pressupondo a criatividade como sendo algo nascido do "estímulo/resposta" (6). Entretanto mais uma vez conclui que a linguagem, por sua estrutura socio-comunicativa, não poderia ter sido assimilada. Antes precisaria ter sido criada pré-homem. Afirma que ‘a linguagem não possui, como muitos imaginavam, um status autônomo, ..... mas sim a expressão do sujeito psicológico’ (7). Segundo o lingüista Saussure (8) ‘primeiro surgiu a parole (fala), depois a langue (estrutura gramatical)’. Garnins reconhece que ‘a fala surgiu com o primeiro homem, portanto não evoluiu com as escalas pré-humanas, e indica o dedo de Alguém que, antes do homos, já se comunicava’ (9). Mais uma vez não podemos entender aqui qualquer apologia teológica mas ver tão somente pensadores e filósofos reconhecendo a necessidade de Deus. Um acuo filosófico. 

     Claude Levy-Strauss é um dos mais renomados, e citados, antropólogos em nossos dias. Filho de pais artistas, intuitivo e acadêmico, completou sua agregation em filosofia na Sorbonne nos anos 30 e até mesmo teve uma rápida passagem por São Paulo como professor de antropologia. Sua obra clássica (As Estruturas Elementares do Parentesco) possui clara e forte influência de Mauss (que alías chegou próximo das suas conclusões chamadas ‘místicas’). Em sua tese inicial Levi-Strauss estuda o agrupamento humano em uma perspectiva evolutiva e assim esperava-se encontrar ao longo das pesquisas etnológicas uma paralela evolução dos valores humanos. Entretanto, para surpresa do racionalismo e existencialismo reinantes na época, Levy-Strauss analisa os agrupamentos humanos históricos e presentes sob a ótica de uma pesquisa empírica e conclui que os valores sócios culturais sem sombra de dúvidas eram pré-estabelecidos. Em outras palavras, o valor moral existiu antes dos agrupamentos humanos se dispersarem para a formação de grupos maiores. Utilizando o estudo antropológico de alguns axiomas gerais como o incesto ele concluiu que tais valores existiam antes da formação da sociedade alvo. Se o homem ainda não havia tido ‘história’ suficiente para, ele mesmo, desenvolver seu padrão moral e transmiti-lo a grupos posteriores, qual a raiz do padrão moral ? Não há resposta fora da pessoa de Deus. Levy-Strauss menciona que ‘...o princípio da vida não pode ser unicamente explicado por uma versão do funcionalismo (vive-se para um fim) nem tampouco empiricamente por fatos condenados a falares por si mesmos... De fato, sistemas de parentesco mantêm a natureza em xeque pois o incesto, a priori, não é um fenômeno natural, evolutivo, mas sim axiomático, pré-existente’ (10). 

     Curiosamente passei a ler um pouco mais de Mauss, que fortemente influenciou Levy-Strauss. Apesar de não possuir conclusões tão expressivas ele expõe exaustivamente o conceito de ‘mana’. ‘Mana’ para Mauss é uma inexplicável sobrenaturalidade sem a qual as sociedades tornar-se-iam inviáveis. A conclusão nesta fase inicial de Mauss foi a de unicidade. A humanidade é uma pois vivemos sob a sombra de um só ‘mana’. Chegou a esta conclusão após o estudo exaustivo etnográfico de três grupos, os Potlatch na América, os Kula no Pacífico e os Hau da Nova Zelândia. Afirmou, ao fim, que ‘passo a crer em meios necessariamente biológicos de se entrar em comunicação com Deus’ (11). Não pensemos entretanto que ‘comunicação com Deus’ provém de uma concepção teológico/revelacional. Ele jamais chegou perto disto. Entretanto reconhece que sem ‘mana’, a existência autônoma do Eterno interventor, a sociedade como existe hoje seria inconcebível pois ‘todos os grupos culturalmente definidos concordam, buscam e reconhecem submissão do invisível sobre a natureza humana’ (12). Mais uma vez enfatizo que não há apologia teológica mas sim reconhecimento da necessidade de conceber Deus, sem o qual invibializaria a própria transmissão cultural. 

     Temos aqui, portanto, uma tríade de conclusões filosóficas as quais, distintas e teóricas, desembocam na expectativa por Deus. Chomsky reconhece a necessidade de Deus para justificar a existência da comunicação pré-social e pré-evolutiva. Levy-Strauss o faz para conseguir explicar a existência de um padrão moral na raiz dos agrupamentos sociais e Mauss torna-se quase obcecado pelo ‘existente espiritual‘ que chama de ‘mana’ sem o qual a transmissão de cultura se tornaria inviável. 

     Como temos a Revelação Bíblica, que expõe um Deus existente e redentor a busca do homem não precisamos de conclusões filosóficas para fundamentar nossa fé. Entretanto faz bem à alma perceber que, mesmo na escuridão anti-teísta, homens, imagem de Deus, não conseguem parar de buscar no Eterno o Ser iniciador e mantenedor social. E isto me faz pensar que, no vácuo existencial do pecado, sob a escuridão da incredulidade e ante as hostes do inferno, a existência de Deus é a único alento perante o desespero de um homem a procura do sentido da vida, qualquer vida. Não há vida sem Deus. 

     Notas 
(1) Human All Too Human, Cambridge Univ. Press 1986 
(2) The Diaries of Franz Kafka, Peregrine 1964 
(3) Literature and Evil, G. Bataille, 1973 
(4) Crítica da Razão Prática – Grandes Filósofos, Ed. Globo 1952 
(5) Do Estruturalismo à pós modernidade, John Lechte, Difel 1994 
(6) Chomsky: Selected Readings, J. Allen, Oxford University Press. 1971 

(7) Language and Problems of Knowledge, Cambridge, MIT Press 1988 
(8) Ferdinand de Saussure, chamado de "pai da lingüística e do estruturalismo" nos círculos de Genebra no início do sec XX 
(9) Signs and System, Holdcroft, Cambridge Univ Press 1991 
(10) The Bearer of Ashes, D. Pace, Boston 1983 
(11) As técnicas do corpo, Marcell Mauss, Editora da Univ de São Paulo 1974. Na verdade Ele aqui se referia a Pascal quando afirmou instruiu: "Ajoelhe-se, mova os lábios em oração e você acreditará em Deus". 
(12) Do Estruturalismo à pós modernidade, John Lechte, Difel 1994 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Remédio contra malária é sintetizado em larga escala

Peter Seeberger e seus colegas descobriram uma forma simples e de alta produtividade para sintetizar a artemisinina, a principal droga contra a malária.[Imagem: Peter H. Seeberger]
Remédio a preços razoáveis
O mais eficaz medicamento contra a malária, a artemisinina, poderá pela primeira vez ser produzida a baixo custo.
Isto significa que poderá ser possível oferecer a medicação, a preços razoáveis, para todos os 225 milhões de pacientes que sofrem de malária em todo o mundo.
Pesquisadores alemães desenvolveram um processo muito simples, com uma única etapa, para a síntese da artemisinina, o ingrediente ativo que até agora só podia ser obtido das plantas.
Artemisinina
A descoberta da artemisinina é um verdadeiro épico, digno de um roteiro de cinema, e deveu-se à abnegação de uma cientista chinesa, que encontrou a receita em um livro de plantas medicinais com mais de 1.600 anos de idade.
Até hoje, a artemisinina é o medicamento mais eficaz contra a malária, e continua sendo extraído da planta Artemisia annua, ou Qinghaosu.
Agora a história tem mais um capítulo, graças ao auxílio do oxigênio e da luz.
Biotecnologia
Ressaltando a importância da planta medicinal, Peter Seeberger e François Lévesque partiram de um subproduto do atual processo de extração da artemisinina de sua planta original.
A vantagem é que este subproduto - o ácido artemisínico - pode ser fabricado biotecnologicamente usando leveduras.
A partir daí, em uma única etapa, os cientistas produzem o princípio ativo do medicamento contra a malária.
Já existiam outras técnicas para fazer isso, mas envolvendo tantas etapas e tantos insumos que o produto final era mais caro do que a artemisinina natural.
Fotoquímica
Os pesquisadores usaram a fotoquímica - reações químicas induzidas pela luz - para ativar um grupo químico muito reativo do ácido artemisínico, formado por átomos de oxigênio - um endoperóxido.
Para que a reação fotoquímica ocorra em todo o material, em larga escala, os pesquisadores construíram um aparato no qual a luz fica no centro de um tubo, por onde corre a mistura a reagir.
Assim, a luz atinge todo o material que está fluindo à sua volta, permitindo a fabricação da artemisinina sintética em escala industrial.
Segundo os cientistas, o composto produzido poderá ser usado não apenas contra a malária, mas também contra outras infecções e até contra o câncer de mama.
A pesquisa foi financiada pela Fundação Clinton.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Médicos alertam para riscos de viagens a altitudes elevadas

Turistas que se acreditam alpinistas estão se aventurando cada vez mais por regiões acima dos 5.000 metros de altitude. [Imagem: Wikimedia/Julius Silver]

Passagem só de subida
Um número cada vez maior de turistas está se aventurando em montanhas cada vez mais altas.
A consequência mais imediata é um número igualmente maior da chamada "doença da montanha", que pode levar à morte em poucas horas.
O problema é que esses turistas acreditam ser alpinistas, mesmo sem qualquer preparo adequado, aventurando-se por regiões acima dos 5.000 metros de altitude.
Preocupados com o grande número de ocorrências recentes, dois médicos alemães criaram uma cartilha de orientação para os candidatos a montanhistas.
Eles recomendam que, em muitos casos, é melhor optar por um passeio em altitudes menores do que arriscar a própria vida em regiões tipicamente sem socorro imediato.
Doença da montanha
O chamado mal da montanha ocorre por falta de aclimatação ou por uma subida rápida demais.
O baixo nível de oxigênio nas regiões de alta montanha - acima dos 3.000 metros de altitude - pode causar sintomas dos mais diversos tipos.
Por exemplo, vômitos repentinos e dores de cabeça intratáveis com analgésicos comuns podem ser os primeiros sinais de edema cerebral.
Pessoas que passam 48 horas ou mais acima dos 4.000 metros podem sofrer debilitamento ou falhas de consciência que podem progredir para coma em poucas horas.
Por outro lado, a perda rápida de desempenho físico durante a subida, assim como uma tosse seca, são as primeiras manifestações do edema pulmonar de alta altitude.
Se a pessoa continua a subir, seu quadro avança igualmente para edema cerebral.
A doença é fatal se não for tratada rapidamente - o problema é que os locais onde o mal da montanha se manifesta nunca estão próximos de um hospital.
Sensibilidade à altitude
Os médicos Kai Schommer e Peter Bärtsch alertam que não existem testes de avaliação para a suscetibilidade de uma pessoa às altas altitudes.
Eles recomendam uma auto-avaliação que consiste basicamente em aferir a própria capacidade indo passo a passo montanha acima - mas não em uma única caminhada.
Assim, quem pretende fazer uma longa caminhada por altitudes na faixa dos 3.000 metros, deve ter testado antes sua capacidade para uma permanência similar, ainda que a um ritmo menor, um nível de altitude acima, ou seja, a 4.000 metros.
Em poucas palavras, recomendam eles, não se fabrica um montanhista ou um alpinista em um mês de férias, mas em um longo processo de treinamento, em que o candidato ascende nível por nível.
As recomendações completas, em inglês, podem ser vistas no endereço www.aerzteblatt.de/v4/archiv/pdf.asp?id=116424

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Voluntários sem fronteiras - Os Médicos Sem Fronteiras em Moçambique


Em Moçambique, país africano pobre com altos índices de contaminação por HIV, o trabalho de brasileiros voluntários da organização internacional Médicos Sem Fronteiras dá exemplo de altruísmo e obstinação.


João Correia Filho
A enfermeira Fernanda Azevedo prepara-se para atender pacientes em Lichinga, no norte de Moçambique.


Mônica Guarnieri Machado é pediatra especialista em HIV. Ela se emociona ao contar que no país onde vive e trabalha, Moçambique, no sudeste da África, cerca de 85 bebês são infectados pelo vírus todos os dias. A cifra revela a falta de políticas públicas de saúde, a carência de recursos e a miséria que assolam o país há décadas. Diante delas, a brasileira encara uma triste escolha profissional quase diária: "Se são amamentadas, as crianças correm o risco de ser contaminadas pelo HIV por meio do leite materno. Mas se suspendemos a amamentação, acabam morrendo de disenteria ou diarreia por consumirem água e alimentos contaminados." Paulista de Itapetininga, 42 anos, Mônica acostumou-se a enfrentar as adversidades africanas da sua profissão.
Ela é um dos sete profissionais brasileiros que vivem em Moçambique, atuando como voluntários da organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), fundada na década de 1970, na França, por médicos e jornalistas. Ao todo, há cerca de 100 voluntários brasileiros espalhados por diversos países, a maioria na África, todos atuando em missões que envolvem graves catástrofes naturais, conflitos armados e emergências médicas.
No caso de Moçambique, as missões da MSF começaram em 1985 e se concentram no combate à Aids, doença que atinge grande parte da população do continente africano. Embora façam parte da MSF há mais de duas décadas, os brasileiros aumentaram a sua participação nos últimos anos, sobretudo a partir de 2006, quando foi montado um escritório, na cidade do Rio de Janeiro, responsável pelo recrutamento de novos profissionais.

 João Correia Filho

Com 20 milhões de habitantes, Moçambique é o país com mais voluntários brasileiros da Médecins Sans Frontières, devido à língua comum portuguesa, à herança cultural luso-africana e ao fato de a medicina brasileira ter se tornado uma referência mundial no tratamento da Aids. Enquanto no Brasil os índices de contaminação são de 0,5% da população, em Moçambique atingem mais de 17%. Em algumas regiões, como a capital, Maputo, o índice chega a 25% e, em alguns bairros da capital, a alarmantes 36%.
O perfil de Mônica Machado se assemelha ao de profissionais que atuam em trabalhos voluntários e humanitários ao redor do mundo. A médica iniciou sua carreira em pediatria comunitária, voltada para a saúde pública. "Nunca tive a intenção de ficar rica, de ter consultório particular e de aproveitar o status que a minha profissão pode dar. Quando fiz o vestibular já sabia o que queria", explica. "Sempre partilhei da consciência social promovida pela Teologia da Libertação e pelos trabalhos missionários. Sou ligada aos movimentos sociais da Igreja, e isso já me encaminhou para esse tipo de vida", ressalta.

Como integrantes do MSF, os médicos recebem uma ajuda de custo muito aquém do que ganhariam exercendo a profissão no Brasil, sem contar o status e a possibilidade de ascensão social e econômica de que gozam por aqui. Mônica, no entanto, se diz realizada. Todos os dias, ela caminha até um centro de saúde da capital e de lá segue para postos de saúde da periferia, onde acompanha os médicos moçambicanos, geralmente um profissional por posto, orientando-os e dando suporte para casos mais graves. Atualmente há cerca de mil médicos no país. Apenas 40 são formados por ano. Moçambique ocupa um dos últimos lugares do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU: é o 165o país mais pobre das 169 nações listadas no IDH.
A 2 mil quilômetros de Maputo, em Lichinga, no norte do país, o carioca Rafael Machado, de 32 anos, infectologista com especialização em HIV, conta que durante a faculdade de medicina sempre teve a intenção de "lidar com gente". "Fui fazer infectologia, com especialidade em medicina tropical, o que me levou à saúde pública, pois a maioria das doenças tropicais ataca populações de baixa renda", conta. "Na hora de fazer a residência, deparei-me com uma vaga para atuar com o HIV. Topei na hora, pois havia envolvimento social, um peso na sociedade e um grande tabu, e eu gosto de desafios."

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Rafael foi recrutado pela MSF em dezembro de 2009, e em janeiro de 2010 seguiu para sua primeira missão em Moçambique, sendo atualmente o único infectologista da região Norte do país. Além da ausência de estrutura e de equipamentos, um dos principais problemas enfrentados em Lichinga é a falta de medicamentos, que obriga muitos pacientes a abandonar o tratamento. "A maioria vive em locais distantes e não consegue voltar com frequência para buscar seus remédios. O ideal seria que levassem uma quantidade suficiente para permanecer onde vivem por mais tempo, mas não há medicamentos para isso e muitos acabam abandonando o tratamento", diz o médico.
A falta de estrutura do país encontra reflexo no cotidiano de Rafael e de sua esposa, Franciane Fardin Sacramento, 29 anos, capixaba de Vitória, que também atua como enfermeira em Lichinga. Os dois se conheceram quando trabalhavam com comunidades indígenas no Brasil. Na casa onde vivem, as pequenas headlamps, lanternas usadas em acampamentos, são dependuradas em local fixo e estratégico, nas paredes. Precisam estar à mão diante dos constantes cortes de energia elétrica que assolam Lichinga.
Assim, ao menor tremer das luzes, sabem onde encontrá-las. Os brasileiros têm um jeitinho especial para adaptar-se às adversidades.

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17% dos moçambicanos estão contaminados pelo HIV
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Acima, um diminuto Luiz Otávio Guimarães (de mochila preta, no centro da foto) inspeciona a conservação dos medicamentos em Maputo. No interior, as estradas precárias desafiam as visitas às aldeias.
Logística e administração

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Acima, a pediatra paulista Mônica Machado.

Quando se pensa em Médicos Sem Fronteiras, um equívoco comum é achar que a organização é formada só por médicos e enfermeiras. Além deles há muita gente envolvida com a logística das missões, que permite aos médicos chegar a locais de acesso dificílimo, em condições precárias de higiene, sem água ou alimentos. Na verdade, entre os brasileiros recrutados em todo o mundo, apenas 40% são médicos.
Boa parte da equipe brasileira em Moçambique atua em áreas de organização, de logística e de coordenação dos projetos. É o caso do manauara Luiz Otávio Morais Guimarães, 36 anos, que, depois de uma carreira na área de administração e logística em multinacionais, resolveu mudar de vida e aderiu à MSF, trabalhando em países como o Maláui (vizinho a Moçambique) e a Colômbia.
A logística desafia o atendimento médico tanto quanto as doenças
"Todo mundo pensa que a MSF é feita só de médicos", diz Luiz Otávio. "Mas para um médico chegar às aldeias e atender os pacientes é preciso ter toda uma estratégia que garanta local para dormir, água potável, comida e a conservação dos medicamentos. Isso muitas vezes pode ser um grande, imenso, problema", explica o administrador.
Luiz Otávio foi para a MSF no momento que percebeu sua insatisfação com o trabalho. Mesmo trabalhando em grandes empresas, queria mudar de vida. Ao ver um anúncio da entidade em Manaus, resolveu participar do recrutamento e foi aceito. Seis meses depois desembarcava no Maláui. Antes de Moçambique, trabalhou na Colômbia, em Papua-Nova Guiné e no Estado de Alagoas, durante as enchentes de 2010, que deixaram milhares de desabrigados. Em dezembro do ano passado, mudou-se para Maputo, onde atua como coordenador de logística.
A paulistana Kelly Cavalete é outra brasileira que assumiu um cargo de responsabilidade na entidade. Formada em enfermagem, atua como uma das coordenadoras do projeto de HIV, em Maputo. Ela e o marido, Bruno Cardoso, paulista de Caçapava, 35 anos, são responsáveis por equipes que atendem pacientes de HIV nos postos de saúde da capital e prestam auxílio aos médicos que atuam no interior do país.
Kelly conta que seu trabalho é fruto de uma mudança de foco da MSF. "Quando foi criada, na década de 1970, a organização tinha como foco prestar assistência em guerras e catástrofes mundiais, geralmente em situações de emergência. Com o tempo, passou a focar também situações que exigem um trabalho mais demorado e que envolvem ações educativas e de treinamento de pessoal, como é o caso dos países africanos às voltas com altos índices de contaminação por HIV." Nesses casos, o trabalho desenvolve-se em longo prazo, pois trata-se de uma doença que exige acompanhamento constante.
Kelly e Bruno conheceram-se na Amazônia. Participaram de diversas missões da MSF, em vários países, antes de decidir virar um casal e de ter um filho, Madou, que vive com eles em Maputo. Atualmente, a enfermeira brasileira está grávida do segundo filho.

Afinidades eletivas
Embora esteja a mais de 8 mil quilômetros do Brasil, Moçambique tem muitas coisas em comum com nosso país. O gosto pela música, pela dança, pelo futebol, e a alegria contagiante do povo, mesmo com os graves problemas que enfrenta, fazem parte do jeito de ser do moçambicano e do africano em geral. Outro ponto em comum, naturalmente, é o idioma, trazido pelos portugueses no século 16. A população fala dezenas de línguas autóctones, mas o português é o idioma oficial.
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Mosquiteiros contra a malária, em Maputo. Abaixo, a alegria contagiante das mulheres da aldeia de Sabura.
"Na prática, entretanto, descobre-se que há muita gente que não fala português, sobretudo conforme se afasta da capital", diz a infectologista paulista Júlia Chagas Schmidt, de 33 anos, que atua em Maputo. "Muitas vezes achamos que os pacientes estão entendendo o que perguntamos durante uma consulta, pois respondem com um aceno de cabeça, mas muitos não falam nem entendem português e têm vergonha de confessar. Temos que perceber prestando atenção a sutilezas", explica a médica.
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A alegria é a vitamina da celebração da vida contra a adversidade
Júlia chegou a Moçambique para um período de seis meses, tendo passado antes pela Índia, sua primeira missão na MSF. A experiência, de junho de 2009 a maio de 2010, fortaleceu sua ética profissional. "Fui para a MSF porque o que mais gosto é o atendimento clínico. É sempre uma nova descoberta, sempre se aprende. Com o tempo você começa a entender culturalmente algumas doenças, começa a ver muito mais no rosto das pessoas", explica Júlia, que chama a atenção na capital por sua altura, a pele branca e os cabelos louros curtos.
Já a enfermeira paulista Fernanda Cândido de Azevedo, atualmente em sua primeira missão no MSF, tem outra justificativa para a escolha: "Percebi que queria experimentar essa vida quando aconteceu o tsunami na Indonésia, em 2004. Senti o mesmo na tragédia do terremoto do Haiti, em janeiro de 2010. Fiquei com vontade de ir para lá, para ajudar de verdade", conta.
Pesquisando na internet, Fernanda deparou- se com uma reportagem sobre organizações humanitárias. "Estava querendo me reencontrar, queria dar um sentido para a minha vida, crescer como pessoa, e aquele anúncio me soou como ideal para seguir esse caminho", diz a enfermeira, que, após uma difícil seleção, foi chamada para atuar em Moçambique.
Fernanda é testemunha das dificuldades no interior do país. Assim como Rafael e Franciane, ela vive em Lichinga, atuando em um projeto chamado Profilaxia de Transmissão Vertical, que atende mulheres grávidas portadoras de HIV e busca evitar a transmissão da doença para o feto. Visita comunidades distantes, onde a língua do colonizador quase não deixou marcas. Distribui medicamentos, cartilhas, cartazes e fornece orientação periódica a aldeias como Chiulaula, Lulimili e Namacula, na periferia de Lichinga. Também visita locais mais distantes, na zona rural, como Sabura, que não possui energia elétrica para preservar os medicamentos. Nesse caso, os pequenos geradores de energia movidos a óleo, fornecidos pela MSF e por outras entidades humanitárias, são a chave da sobrevivência.
Há muitas dificuldades, mas também há momentos encantadores e mágicos. Pessoalmente, não precisei de muito tempo para descobrir ao que a enfermeira Fernanda se referia. Enquanto visitava a comunidade de Sabura com a brasileira, fomos surpreendidos por uma aglomeração ruidosa de gente atravessando a pequena aldeia de casas de barro e palha. A música e os tambores imediatamente dominaram o ambiente.
Encenava-se a tradicional cerimônia de posse do régulo, o chefe da aldeia. Enquanto os rapazes tocavam, as mulheres cantavam e dançavam. Nossa presença intensificou a empolgação. Quando os moçambicanos olham nos olhos, transmitem alegria de viver. Não há tragédia sem júbilo. A alegria é a vitamina da celebração da vida contra a adversidade.


Médicos Sem Fronteiras no Brasil - http://www.msf.org.br/