domingo, 18 de junho de 2017

Como os cristãos devem se relacionar com os muçulmanos?

No outono passado, o jornal Times, do Reino Unido, apresentou aos seus leitores o uso do taweez[1] no sufismo sunita generalista dentro do islamismo. Por quê? Porque estava a noticiar a condenação de um salafista que havia assassinado um imã que praticava esta forma do islamismo[2].

A variedade do Islão

Os leitores do Times, já familiarizados com termos como sunita, xiita, sufismo e salafismo, estavam a conhecer mais uma vertente do islamismo, praticada por 41 % dos paquistaneses e 26 % dos nacionais do Bangladesh[3]. Como, pergunto eu, eles irão integrar esta informação nas categorias “radical” e “moderado” que a mídia costuma atribuir ao islamismo? E como podem os cristãos integrar a variedade do islamismo nas suas cosmovisões?
Como devemos olhar para o islamismo?
Ao longo das quatro décadas e meia desde que compreendi como Deus se preocupa com os muçulmanos, já escutei muitos debates acerca de como a missão cristã deve ser dirigida. Devemos nos focar no islamismo “popular” — na enorme percentagem daqueles que usam o taweez e cujas vidas são dominadas pelas crenças no jinn. Devemos nos focar no serviço — às mulheres que foram abusadas, às minorias que sofrem com o racismo e aos que vivem na pobreza. Devemos nos focar na apologética, na polêmica, no diálogo e na coexistência… ou talvez em questões políticas. Talvez os cristãos devessem estar na frente da batalha contra o terrorismo ao estilo do Estado Islâmico.
Por detrás destes debates estão perguntas sobre como deveremos olhar para o islamismo, que, por sua vez, encontram eco nas respostas polarizadas dadas aos muçulmanos, que estão a dividir o universo evangélico nos nossos dias. Creio que o principal problema é não sabermos como encaixar a variedade do islamismo nas nossas categorias de pensamento. À medida que o mundo secular luta com a dificuldade que é acrescentar o mundo do taweez no seu entendimento da “religião”, os cristãos também têm dificuldade para encaixar o islamismo na sua compreensão do mundo. Por isso, escolhemos categorias que já existem e nos focamos nos muçulmanos que cabem dentro delas. Os nossos mestres e pregadores precisam urgentemente ler a Bíblia de uma forma que permita a toda a igreja se relacionar com toda a variedade do islamismo e dos muçulmanos
PRECISAM
Se pensarmos assim, vemos que o desafio é ainda maior: o islamismo pode ser um caso especial, mas precisamos de uma cosmovisão bíblica que nos dê um enquadramento que permita o relacionamento com todos os povos de todas as fés. O meu livro, The Bible and Other Faiths,[4] procura fornecer isso mesmo: uma forma de ler a Bíblia que tem em conta o mundo religioso “por detrás” dos textos bíblicos, de forma a ajudar-nos a entender o nosso próprio mundo religioso. O meu livro mais recente, Thinking Biblically about Islam,[5] lida com o caso especial do islamismo.

Enquadramentos bíblicos

A obra Thinking Biblically about Islam desenvolve dois enquadramentos bíblicos de pensamento e aplica-os de duas formas:
Os enquadramentos bíblicos lidam, em primeiro lugar, com o desenvolvimento de uma compreensão da humanidade que inclui os muçulmanos e, em segundo, de uma forma de entender o islamismo. Ambas estão relacionadas porque o “islamismo” é praticado por seres humanos, e é por isso mesmo que apresenta tanta variedade.
As aplicações interrogam, para começar, sobre como podemos refletir acerca de vários aspectos do islamismo: o Corão, Maomé, a umma e a sharia; e, em segundo lugar, sobre como os nossos estudos bíblicos podem nos transformar em nossos relacionamentos com muçulmanos.
Esta análise de duas vertentes reflete uma tensão inerente a muita da polarização a que assistimos nas respostas cristãs ao islamismo: estamos tentando compreendê-lo como um sistema posterior a Jesus Cristo e que se vê a si mesmo como suplantando o cristianismo, enquanto tentamos nos relacionar com a enorme proporção de seres humanos que são muçulmanos. Por um lado, muitos cristãos sentem que o islamismo nunca deveria ter existido e que os muçulmanos são intrusos no seu mundo. Por outro, muitos cristãos vivem em lugares onde se relacionam com muçulmanos diariamente e têm amigos, colegas e familiares muçulmanos a quem amam.
Aqui está uma amostra dos dois enquadramentos bíblicos:

Uma visão da humanidade que inclui os muçulmanos

A base deste enquadramento é Gênesis 4 a 11. É uma análise padronizada do texto como um quiasmo (a letra maiúscula chi, do grego, parece um X). Ou seja, a sua estrutura é ABCB’A’ ou ABA’ ou ABCDC’B’A, etc. Os primeiro e último elementos “correspondem”, à medida que definem temas e assuntos, podendo repetir palavras. O elemento central é o ponto principal do assunto do texto. Os elementos intermédios “correspondem” (aqui são ambos genealogias) e indicam de que forma todo o argumento faz sentido.[6] Portanto, esta análise corresponde Gênesis 4 e 11, Gênesis 5 e 10 e, depois, considera Gênesis 6 a 9 como central.
Em Gênesis 1 a 3, aprendemos que todos os seres humanos, incluindo muçulmanos, são feitos à imagem de Deus e estão debaixo da queda. Gênesis 4 a 11 nos dá uma análise de um mundo religioso caído que pode ser lida como um quiasmo. O início e fim lidam com a religião à escala individual e societal. O ponto central é a história do dilúvio, e no meio estão as genealogias que são tão importantes em toda a estrutura de Gênesis:
A Capítulo 4: Os seres humanos fora do Éden procuram se aproximar de Deus através de um ato religioso. Não é evidente o porquê de um ser aceito e o outro rejeitado, mas fica claro que o resultado é a violência.
B Capítulo 5: Os seres humanos têm uma origem comum, e todos (exceto Enoque que aponta para uma esperança de vida) partilham a morte na sua genealogia.
C Capítulos 6 a 9: A resposta de Deus ao alastrar da violência é a ira e o sofrimento(6:6). A história do dilúvio é lida como demonstrando duas formas possíveis de Deus lidar com o mal: o juízo do dilúvio e o pacto de aliança que sucede ao sacrifício de Noé. Esta última indica a preferência de Deus, que se mantém por toda a história.
B’ Capítulo 10: As sociedades humanas têm uma origem comum e estão debaixo da mão provedora e doadora de vida de Deus.
A’ Capítulo 11: Os seres humanos têm a tendência de usar a religião para propagar o poder e o território de um povo em particular. Esta é a religião perigosa, que Deus irá julgar para limitar o mal que dela advém.
Esta análise nos fornece categorias simples, mas convincentes, para refletir sobre sunitas e xiitas, sufismo e salafismo, e sobre quem usa o taweez e os apoiantes do Estado Islâmico que matam idólatras.

joseph_anton_koch_flood
A: Religião individual. Podemos olhar para todos os muçulmanos como pessoas que tentam chegar a Deus, seja pelo exemplo de Abel ou com motivações iguais às de Caim. Podemos esperar lutas religiosas violentas por causa de questões sobre o que agrada a Deus
Portanto, este tipo de cisões é esperável entre sunitas e xiitas. Contudo, podemos também esperar que alguns dos sufistas, que buscam a face de Deus como um amante busca aquele a quem ama, sejam os “Abéis” do mundo muçulmano. A história nos leva a perguntar até que ponto conseguimos distinguir quais dos apoiantes do Estado Islâmico que sacrificam suas vidas são como Caim, e quais são como Abel.
A’: Religião social. É possível entender as várias dimensões políticas do islamismo como manifestações de uma tendência humana comum de juntar religião, etnia e poder[7] Podemos estar certos de que quando esta fusão ergue estruturas de poder exploradoras que se opõem a Deus, ele irá limitar os danos que elas causam à sua criação, que é boa.
B e B’: Genealogias. Tudo isto é a condição humana partilhada. Os muçulmanos não são intrusos no nosso mundo: todos fazemos parte do mundo de Deus. Uma das implicações disso é podermos esperar os padrões de Gênesis entre cristãos e entre muçulmanos também. Os cristãos também podem discutir sobre quem é aceitável diante de Deus. Os cristãos também podem lutar e matar-se uns aos outros. Os cristãos também podem usar a religião para construir impérios.
C: No centro de tudo está o problema do mal. Não me refiro à questão da origem do mal, embora o livro explore algumas das principais diferenças entre a posição muçulmana e cristã sobre o assunto, ao estudar a história de Adão no Corão e na Bíblia. Antes, a grande questão levantada pela história de Noé em Gênesis é: como é que Deus lida com o mal, e quais as implicações disso para a forma como os seres humanos devem lidar com mal em si mesmos e nos outros.
A minha esperança é que os leitores cristãos estejam agora partilhando um pouco da dor, da ira e do coração de Deus (Gn. 6:6). Espero também que, tal com Aquele a quem servimos, o leitor esteja decidido a preferir o caminho do sacrifício e do pacto de aliança em vez do caminho do juízo em resposta ao mal. Ele nos leva a Jesus e à sua cruz, ao sangue que clama tão mais alto do que o de Abel, o mártir. Talvez a nossa maior dor seja que a cruz e o sangue não existam no pensamento islâmico e, por isso, não são tidos em conta por quem usa o taweez ou pelos apoiantes do Estado Islâmico nas suas lutas contra o mal. E assim chegamos ao centro do segundo enquadramento analítico.Isto nos sugere uma chave para um pensamento biblicamente fundamentado acerca das variedades do islamismo: podemos descobrir o que estes muçulmanos em particular consideram ser o mal, e como estão a tentar lidar com isso. Um exemplo é a polarização entre quem usa o taweez e os apoiantes do Estado Islâmico. Os primeiros se focam no mal que os afeta e às suas famílias na vida diária. Eles lidam com isto através de rituais e, muitas vezes, tentando controlar o jinn que consideram ser responsável pelos seus problemas. Os apoiantes do Estado Islâmico concentram-se mais nos males políticos, que consideram serem causados por uma adoração errada. É frequente tentarem lidar com eles tentando destruir as causas.

O enquadramento para entender o islamismo

Este enquadramento advém da transfiguração. Ao escrever o livro, compreendi a centralidade da transfiguração nos evangelhos sinóticos; o evangelho de João pode ser lido como uma exegese da transfiguração.[8]
As perguntas às quais a transfiguração responde são perguntas islâmicas: De que forma Jesus está relacionado com os profetas anteriores? O que significa que ele é o Messias? Como lidamos com o escândalo da sua insistência em sofrer uma morte humilhante?
Até aqui, os evangelhos estão largamente em harmonia com a visão corânica de Jesus, sendo que o Corão levanta as mesmas questões que os evangelhos. No entanto, os muçulmanos encontram respostas diferentes.[9] Eles negam a crucificação e colocam Jesus no mesmo nível de todos os outros profetas. Na verdade, eles revertem a transfiguração para depois desenvolver uma tradição profético-jurídica, com base numa figura que combina o paradigma da entrega da lei como alicerce da comunidade de Moisés, com o zelo monoteísta e de aplicação da lei de Elias.
Estas observações provocam uma releitura dos paradigmas jurídicos e proféticos representados por Moisés e Elias, pelo menos enquanto formas de lidar com os males do pecado humano. Por um lado, como pode o material bíblico nos ajudar a entender as forças e as fraquezas do islamismo? Por outro, por que motivo os relatos bíblicos destes profetas encontram o seu cumprimento na cruz de Cristo em vez de na Medina de Maomé?
Portanto, uma compreensão do propósito e da natureza, das riquezas e limitações da lei bíblica e do sistema dos profetas nos oferece algumas categorias para pensar acerca do islamismo; além disso, abre a possibilidade de uma forma de ler o Novo Testamento que ilumina o modo e o motivo para ser boas novas para os muçulmanos. De ponta a ponta, a Bíblia fala ao mundo do islamismo e para a desorientação do povo secular e cristão que está tendo dificuldades para o entender.
Qual a implicação para os líderes evangélicos? Vamos colocar a Bíblia “em conversa” seria com o pensamento islâmico e o povo muçulmano, pregando todos os desígnios de Deus ao nosso mundo que sofre.
Os muçulmanos ainda estão aguardando a vinda de Jesus e de outras figuras messiânicas, que vêm para lidar definitivamente com o mal, destruindo os maus e salvando os bons. Tal como os cristãos também aguardam o julgamento final, que diferença faz nas nossas vidas e naquilo que pregamos o fato de o Messias já ter vindo e de ter lidado com o mal na cruz?  A cruz é o sacrifício aceitável disponível para quem é como Caim tanto como para quem é como Abel. Ela desafia todas as fusões de religião e poder, juntando, de uma vez para sempre, o julgamento que purifica e a dor que perdoa. De que forma podemos fazer dessa cruz a base de todas as nossas respostas ao islamismo?

Notas

  1. Taweezé uma palavra do urdu geralmente traduzida como “amuleto”. Ela se refere a um objeto usado ao pescoço ou atado de outra forma na pessoa. Nele está contido um papel com alguns versos do Corão ou diagramas místicos. A sua preparação é realizada por um religioso bem conhecido do povo, sendo considerada uma forma de combater problemas que podem ir da doença física ao comportamento inaceitável ou à proteção contra a magia negra. 
  2. Para ler e saber mais sobre o debate em torno desta ocorrência, consulte, por exemplo, https://www.theguardian.com/uk-news/2016/sep/05/alleged-killer-imam-court-islamic-state-rochdalehttp://www.asianimage.co.uk/news/14748549.Why_was_use_of_taweez_s_so_offensive_to_killers_/ 
  3. Esta é, de acordo com o Times, a percentagem de pessoas que admitem usar o taweez num inquérito realizado pela Pew em 2006. The Times, 17, n.º 9 (2016): 15. 
  4. Ida Glaser, The Bible and Other Faiths (Langham: InterVarsity, 2005). 
  5. Ida Glaser and Hannah Kay, Thinking Biblically about Islam (Langham: Langham Global Library, 2016). 
  6. Muitas passagens bíblicas e livros apresentam esta estrutura. A e A’ indicam qual é o argumento, sendo que o ponto central é o elemento fundamental.. 
  7. Nota do editor: consulte o artigo de Jonathan Andrews intitulado “Living as a Christian, Registered as a Muslim?” (Vivendo como cristão, registado como muçulmano?) na edição de março de 2017 da Análise Global de Lausanne
  8. João 1:14 é a chave hermenêutica. 
  9. A extensão das respostas diferentes do Corão é um assunto de grande debate, especialmente onde os silêncios são preenchidos por tradições de polêmica anticristã. Consulte, por exemplo, o debate de questões em torno da crucificação na obra The Crucifixion and the Qur’an: a study in the history of Islamic thought, de Todd Lawson (Oxford: OneWorld, 2009). 

Photo credits

Feature image from ‘Making dua‘ by Omar Chatriwala (CC BY-NC-ND 2.0).
Ida Glaser é a diretora do Centre for Muslim-Christian Studies (Centro de estudos muçulmano-cristãos) em Oxford, no Reino Unido, associado à Crosslinks, agência missionária anglicana. É tutora associada em Wycliffe Hall e membro da Faculdade de Teologia e Religião na Universidade de Oxford. É co-editora da nova série Routledge Biblical Interpretation in Islamic Context series. Este artigo apresenta o seu último livro, Thinking Biblically about Islam (Langham, 2016).

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Quenianos asiáticos buscam tribo para chamar de sua

Muitos negócios em Nairóbi, como o Haria’s Stamp Shop, são de propriedade de quenianos asiáticos (Adriane Ohanesian para The New York Times)
NAIRÓBI, Quênia — O censo nacional do Quênia costumava incluí-los na categoria “outros”. Agora, os quenianos de origem indiana e paquistanesa, muitos deles descendentes de antepassados que ajudaram a construir o país, mas frequentemente excluídos da vida queniana, estão exigindo pela primeira vez o reconhecimento oficial.
Os “outros” querem se tornar o 44º grupo étnico do Quênia. Essa é, ao menos, a ambição de pessoas como Shakeel Shabbir, o primeiro parlamentar de origem asiática no Quênia, que apoia o nascente movimento que almeja a classificação dos quenianos asiáticos como grupo étnico. Diferentemente dos Kikuyu ou Kamba, os Maasai ou os Samburu, os quenianos asiáticos não pertencem a uma “tribo”, como o censo se refere aos grupos étnicos.
“Já estamos aqui há 100 anos”, disse Shabbir, cujo bisavô veio do Punjab, na Índia, em 1917, para trabalhar numa ferrovia britânica, chamada de “Linha dos Lunáticos” porque sua construção custou milhares de vidas. Seu avô combateu contra as forças coloniais britânicas e foi detido por sedição contra a rainha. “É nosso direito pedir isso”, disse ele. “Precisamos de um lar”.
O Quênia, país de 45 milhões de habitantes, é uma constelação de 43 afiliações étnicas. Normalmente, o reconhecimento enquanto tribo não traz vantagens específicas, a não ser no caso do povo Makonde, sem estado, cujo reconhecimento trouxe a cidadania.
04_OTHER2
Shakeel Shabbir, membro do parlamento, defende que os quenianos asiáticos sejam classificados como o 44º grupo étnico do país (Adriane Ohanesian para The New York Times)
Para os quenianos asiáticos, não há qualquer ganho concreto ao se tornarem o 44º grupo, concordou Shabbir. Eles já têm cidadania e dinheiro, propriedades e negócios, a ponto de às vezes atrair o ressentimento de outros quenianos em situação pior. O que falta, disse Shabbir, é algo menos tangível: “Queremos compartilhar os sonhos e esforços do povo queniano”.
Sudhir Vidyarthi, um magnata do ramo editorial, disse que os quenianos asiáticos vivem tão isolados da sociedade que a única prova de sua existência é “um terreno de um acre onde vivem com uma placa dizendo: cuidado com o cão”. É uma referência à ideia segundo a qual os asiáticos, conhecidos pela fortuna, são alvo de ladrões.
Serem considerados uma “tribo” é “sentir-se parte integrante do sistema”, disse Shabbir.
Os interesses étnicos são tão preponderantes no Quênia que alguns temem que o país jamais consiga construir uma identidade nacional comparável à da vizinha Tanzânia, cujo pai fundador, Julius Nyerere, foi capaz de agregar 120 grupos étnicos numa sociedade coesa.
As divisões étnicas no Quênia têm raiz na política britânica colonial de dividir para governar. Membros dos grupos étnicos Kikuyu e Luo, mais numerosos, trabalhavam para os britânicos como administradores e servidores civis. Atualmente, eles compõem boa parte da elite do país: o presidente Uhuru Kenyatta é Kikuyu; seu adversário nas eleições presidenciais, Raila Odinga, é Luo.
A constituição do Quênia exige que o governo inclua funcionários de diferentes origens étnicas. Mas a regra raramente é seguida. Para colher os benefícios da filiação étnica, é necessário pertencer à tribo que está no poder. Tal proximidade pode trazer acordos de negócios, empregos ou vagas para os filhos em instituições de ensino estrangeiras.
Os políticos “hipnotizam primeiro a própria tribo, e então calculam quais outras devem seduzir para alcançar o poder”, disse Ekuru Aukot, advogado e presidente da Aliança Terceira Via, um partido nascente que busca desmontar o que ele descreve como “etnicidade negativa”.
Assim como os indianos no subcontinente às vezes descrevem seus conterrâneos em termos de castas ou lugar de origem, muitos quenianos associam estereótipos aos conterrâneos de outros grupos étnicos. Dependendo do ponto de vista, os Kikuyu são descritos como negociantes astutos ou desonestos. Os Luo são considerados intelectuais, mas também “gostam de uma briga”, de acordo com Isaac Motuku, membro do grupo étnico Kamba, que ele disse com orgulho ser considerado “esforçado”.
A autora Rasna Warah disse que ser uma queniana asiática significa ter três identidades: nascida na África, com ascendência indiana, herdando o legado colonial britânico.
“Os asiáticos não deveriam jogar o mesmo jogo tribal”, disse Rasna. “Somos quenianos ou não somos. Onde fica minha pátria? Isso é tudo que tenho”.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...