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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

INDONÉSIA – A influência saudita por trás do aumento do extremismo islâmico


[Milhares de muçulmanos de toda a Indonésia foram às ruas para protestar contra o ex-governador de Jacarta, Basuki Tjahaja Purnama (‘Ahok’), em 4 de novembro de 2016. Ahok foi julgado por ter insultado o Islã quando citou um verso do Alcorão e está agora na prisão por blasfêmia. (Foto: World Watch Monitor)]
Ahok, ex-governador de Jacarta, foi preso por ter insultado o Islã quando citou um verso do Alcorão (Veja aqui). “A sua eleição e julgamento expuseram a crescente radicalização na Indonésia, especialmente entre os jovens, e levou a uma campanha mais agressiva para enfrentar o radicalismo islâmico” é o que afirma Paul Marshall em seu artigo (leia em inglês) para o Lausanne Movement.
O crescimento deste radicalismo islâmico tem se dado pelo desempenho da Arábia Saudita em oferecer uma rede bem financiada de escolas, bolsas e mesquitas. A tentativa é de substituir as interpretações locais do Islã, que geralmente incentivam a democracia e as relações pacíficas entre religiões, pelo wahhabismo, forma rígida e conservadora do islamismo e que é a religião oficial da Arábia Saudita.
De acordo com Paul Marshall, a Arábia Saudita tem estabelecido mais de 150 mesquitas na Indonésia desde 1979, providenciando livros escolares, trazendo seus próprios pregadores e professores e financiando milhares de bolsas de estudo para pós-graduação na Arábia Saudita.
“Alunos das universidades sauditas se tornaram influentes em círculos extremistas”, acrescenta Marshall. “Eles incluem Habib Rizieq, o fundador da Frente dos Defensores Islâmicos, e Jafar Umar Thalib, que fundou a milícia anti-cristã Laskar Jihad”.
“O governo indonésio respondeu ao risco de aumento do extremismo proibindo os grupos islâmicos radicais e introduzindo novas regras para impedir a disseminação de pontos de vista radicais em suas universidades”, observa Marshall.
Mas, segundo informações divulgadas pelo Human Rights Watch, os estudantes das escolas da Arábia Saudita recebem educação que contém ódio e linguagem provocativa contra outras tradições islâmicas que não sejam Sunita e fazem severas críticas aos judeus, cristãos e pessoas de outras crenças (veja aqui).
Como parte de um esforço para combater o aumento de extremismos e intolerância religiosa no país, o governo da cidade de Jakarta e a maior organização islâmica na Indonésia, Nahdlatul Ulama (NU), têm reunido forças para treinar e educar pregadores islâmicos para espalhar mensagens de união e paz, segundo afirma a agência de notícias católica UCANews. De acordo com o governo de Jacarta, “a meta do programa que começa em Novembro com 1000 pregadores, é instruí-los a ‘passar os ensinos islâmicos apropriados e um islã tolerante’”.
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Fonte: World Watch Monitor
Por: Redação l ANAJURE

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Reunião de artigos de Ali Kamel sobre o fundamentalismo isl@miko


No ano de 2004 o jornalista Ali Kamel, de O Globo, escreveu três artigos sequenciais sobre a Irmandade Muçulmana, fundamentalismo e Bin Laden, interligando o advento das ideias radicais aos eventos do terror, e explanando sobre os dois principais teóricos do novo radicalismo islâmico: Hassan Al-Banna e Sayyid Qutb (da Irm@ndade Muçulm@na). Os artigos acabaram se tornando de certo modo 'clássicos', e apresentam um bom panorama inicial para a compreensão do radicalismo. Reuni os três artigos num único pdf, que disponibilizo AQUI para download ou leitura online.

quinta-feira, 12 de março de 2015

12 fatos que o Ocidente ainda não entendeu sobre o Estado Islâmico

Syrie: les islamistes imposent des règles aux chrétiens à Raqa_© MAHMUD AL-HALABI / AFP

Despertou furor um artigo publicado na atual edição da revista norte-americana The Atlantic: “What ISIS Really Wants” [“O que oEstado Islâmico realmente quer”], escrito por Graeme Wood. Enquanto as fantasias ocidentais reduzem o Estado Islâmico a um bando de psicopatas altamente descontentes, o autor vai mais a fundo e o descreve como uma força descomunal, alicerçada solidamente em uma mistura coesa de ideologia e fé.
 
De acordo com Wood:

1. O Estado Islâmico e a Al-Qaeda estão muito longe de ser a mesma coisa.

O Estado Islâmico já eclipsou a Al-Qaeda e considera seus líderes como apóstatas. É um grave erro ocidental o de não perceber a diferença entre esses dois grupos, particularmente no tocante à sua forma de interpretar o Alcorão.

2. O Estado Islâmico defende a estrita observância do Alcorão e se proclama responsável pelo cumprimento das suas profecias apocalípticas.

Os seguidores do grupo são muito bem doutrinados na fé e seguem a lei islâmica ao pé da letra, o que inclui a “obrigação” de praticar crucificações e amputações e de impor a escravidão.

3. O Estado Islâmico se considera um califado.

O grupo conseguiu cumprir o requisito de possuir um território próprio: depois de ocupar a área ao redor de Mosul, no Iraque, eles têm hoje um território tão grande quanto o do Reino Unido. Agora, os crentes são obrigados a observar todas as leis da sharia. Em tese, isto implica a imigração dos fiéis ao califado.

4. Os membros do Estado Islâmico acreditam que têm um papel a desempenhar no armagedom.

Para eles, está profetizado que haverá uma grande batalha contra “Roma” em Dabiq, na Síria; que eles conseguirão saquear Istambul; e que acontecerá um confronto final com um anti-Messias antes do retorno de Jesus, no final dos tempos.

5. O atual foco do Estado Islâmico é a ofensiva jihadista de expansão.

Uma vez estabelecido, o califado deve expandir-se para territórios não muçulmanos, conquistando novas terras pelo menos uma vez por ano. Suas táticas – decapitações, crucificações e escravização de mulheres e crianças – têm o objetivo de aterrorizar os inimigos e apressar o fim do conflito.

6. Os Estados Unidos não foram capazes de reconhecer o abismo entre o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.

O resultado mais imediato deste erro foi tentativa bizarra e falida de libertar o refém norte-americano Peter Kassig. Os Estados Unidos recrutaram um veterano da Al-Qaeda para interceder junto ao Estado Islâmico em favor de Kassig. A ideia foi um fracasso e culminou na decapitação do refém.

7. Território é um requisito essencial para a existência do Estado Islâmico.

Portanto, se eles perderem seu território, deixarão de ser um califado – o que é um argumento tentador a favor de uma intervenção estrangeira.

8. O Estado Islâmico deseja essa invasão!

Ela reforçaria os recrutamentos e a radicalização de muçulmanos em todo o mundo – o que é um argumento muito forte contra a intervenção estrangeira.

9. O Estado Islâmico pode se tornar vítima do próprio sucesso.

É questão de tempo até que a massa de crentes pobres e com altas expectativas se veja diante da privação econômica, da frustração e da redução do número de fiéis que migram para o califado. Mas o mais provável é que esse tempo não chegue tão cedo.

10. Se a Al-Qaeda se aliar ao Estado Islâmico, será catastrófico.

É por isso que Wood considera tão imprudente a tentativa feita pelo governo Obama de abrir canais de comunicação entre a Al-Qaeda e o Estado Islâmico durante as negociações para libertar reféns.

11. A maioria dos muçulmanos não apoia o Estado Islâmico.

Alguns por serem "moderados" e desconfiarem de qualquer tipo de devoção linha-dura (esses muçulmanos, aliás, são considerados apóstatas pelo Estado Islâmico). Outros se opõem ao Estado Islâmico por motivos conservadores e baseados nas escrituras, como é o caso de segmentos salafistas que preferem abster-se do conflito com outros muçulmanos e concentrar-se no aperfeiçoamento da própria vida pessoal.

12. A fé e a confiança do Estado Islâmico na própria missão divina transforma o grupo num inimigo formidável.

Eles promovem o armagedom prefaciado por uma guerra prolongada. E é improvável, por isso mesmo, que se deixem comover por apelos aos seus “interesses” não religiosos.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Boko Haram, o terror que ameaça a Nigéria

O maior PIB do continente tropeça na corrupção e na ineficiência e fica à mercê dos terroristas que sequestraram mais de 200 estudantes no norte do país

Edoardo Ghirotto - http://veja.abril.com.br/
Homem segura um cartaz pedindo a libertação das meninas sequestradas pelo Boko Haram
Homem segura um cartaz pedindo a libertação das meninas sequestradas pelo Boko Haram (Sumaya Hisham/Reuters/VEJA)
A comemoração da notícia de que a Nigéria havia superado a África do Sul e se tornado a maior economia do continente durou pouco. Menos de dez dias depois, o país mais populoso da África foi abalado pelo sequestro de mais de 200 estudantes no estado de Borno, nordeste do país. O grupo terrorista Boko Haram assumiu a autoria do rapto que mobilizou governos e personalidades de vários países em torno da campanha #BringBackOurGirls (‘Devolvam nossas Meninas’). Em vídeo, o chefe da organização, Abubakar Shekau, ameaçou vender as jovens e obrigá-las a se casar. O fato de Shekau ainda fazer propaganda do movimento é uma prova da incompetência do governo nigeriano em lidar com o problema, uma vez que o terrorista havia sido dado como morto pelo Exército em duas ocasiões.
“O Boko Haram foi de um grupo de pregadores, a um grupo armado, a um grupo terrorista, a insurgente, e agora quer se firmar como governo. Um dos principais problemas é que a resposta do governo para combatê-lo não está evoluindo tão rápido quanto o Boko Haram”, disse ao site de VEJA Adunola Abiola, fundadora do centro Think Security Africa, sediado em Londres.
Leia mais:

O Boko Haram foi criado em 2002 pelo clérigo muçulmano Mohammed Yusuf, que fundou um complexo religioso em Maiduguri, também no nordeste do país, onde a resistência da população à educação ocidental é grande. Os muçulmanos da região ainda se recusam a matricular suas crianças em escolas públicas e muitas famílias enviaram seus filhos para a escola islâmica que faz parte do complexo e que serve como um campo de recrutamento de jihadistas, como apontou a rede britânica BBC.
Boko Haram significa “a educação não islâmica é pecaminosa” e foi assim que o grupo ficou conhecido, apesar de seu nome completo dar uma ideia melhor de seus objetivos: ‘Pessoas Comprometidas com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta e da Jihad’. A organização, de fato, não está interessada apenas em barrar a educação ocidental. Sua meta é implantar um estado islâmico na Nigéria. Este objetivo passou a ser buscado por meio da violência a partir de 2009, ano em que Yusuf foi capturado e morto. Desde então, tendo Shekau como novo chefe, os radicais já foram responsáveis por mais de 3.000 mortes. Eles são especialistas em matar “infiéis” – o que inclui policiais, políticos e clérigos de outras tradições muçulmanas, além de cristãos – e incendiar igrejas e instalações militares, não apenas no norte do país, mas em várias regiões, incluindo a capital, Abuja.
A base de ação, no entanto, está mesmo no norte, onde a defesa da sharia é algo presente. Contudo, mesmo as pessoas favoráveis a ela também são atingidas pela violência do Boko Haram e não acreditam que a conduta do grupo esteja de acordo com a lei islâmica. Além disso, a corrupção “aliena o governo, o Boko Haram e seus patrocinadores do espectro da população”, afirma Adunola.
O medo como arma – Na atual crise provocada pelo rapto das estudantes, o governo nigeriano mostrou mais uma vez despreparo para lidar com o terror. O Exército anunciou que as meninas haviam sido resgatadas, informação que foi desmentida pelos familiares das vítimas. Em outra declaração desastrada, antes do rapto das jovens, o presidente Goodluck Jonathan tentara minimizar a gravidade do terrorismo no país ao afirmar que Boko Haram era um “desafio temporário”. Até agora, as autoridades do país tiveram como foco derrubar linhas de comunicação e minar a habilidade operacional da organização. Em maio do ano passado, um estado de emergência foi declarado em três estados do norte onde a presença dos terroristas é mais forte: Borno, Yobe e Adamawa.
HO/Boko Haram/AFP
O terrorista Abubakar Shekau aparece discursando em um vídeo divulgado pelo Boko Haram
“O Boko Haram opera clandestinamente e desencadeia um ciclo vicioso de violência. E o governo tem utilizado meios opressivos e indiscriminados para lidar com o grupo, o que muitas vezes resulta em mortes de civis”, alertou Rona Peligal, vice-diretora da divisão africana na ONG Human Rights Watch (HRW). O grupo tem ainda outra arma perigosa em mãos: o medo. Segundo Adunola, a tática dos terroristas é subjugar a população civil com a ideia de que o governo não tem como protegê-la. “A luta real está em andamento nos corações e nas mentes dos civis e o governo não parece estar respondendo de forma eficiente a isso”.
Saiba mais:

Impacto econômico – Tendo o petróleo como a principal fonte de recursos, a Nigéria tem na falta de segurança um entrave para novos investimentos no setor. A agricultura é outro componente crucial para a economia e tem apresentado crescimento. E é da agricultura que vem a riqueza da maior parte da população nas regiões onde o Boko Haram se faz mais presente. “As pessoas não podem cuidar de suas fazendas devido à violência recorrente, e têm seu gado roubado por integrantes do grupo e outros bandidos”, lamenta Adunola.
Nesta semana, a capital Abuja foi sede do Fórum Econômico para a África, iniciado com um minuto de silêncio em apoio às famílias das vítimas. Na primeira sessão plenária do encontro, o presidente Jonathan agradeceu os países que se comprometeram a enviar especialistas para ajudar a resgatar as adolescentes e declarou que o sequestro “marca o início do fim do terrorismo na Nigéria”. Para o bem das estudantes, de suas famílias e do país, é bom que dessa vez a declaração do governante se confirme. 

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