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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Aprenda a usar o sári, tradicional vestido indiano


Jornalista da BBC finalmente conseguiu dobrar o próprio sári (BBC)
Jornalista da BBC finalmente conseguiu dobrar o próprio sári

Via BBC
A jornalista da BBC em Nova Déli Anu Anand nunca soube como vestir um sári, o traje tradicional popular entre as mulheres na Índia.
Ela mesma é de origem indiana e sempre achou que, quando alguém ajustava os metros e metros de tecido em volta de seu corpo, o traje causava incômodo, restringindo os movimentos.
Para resolver o problema, a jornalista foi até uma escola para aprender como o tecido deve ser dobrado e jogado por cima do ombro.
No vídeo, ela mostra de forma simples o passo a passo da "arte" de se vestir com um sári.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Tenacinango, a capital da escravidão sexual no México

Prostitutas em Tenencingo
Prostitutas em Tenencingo; mulheres são aliciadas em vilarejos mexicanos e mandadas para os EUA
A cidade mexicana de Tenancingo, no Estado de Tlaxcala, é o principal foco de tráfico de mulheres da América do Norte, segundo o governo dos Estados Unidos. Estima-se que 10% de seus 10 mil habitantes se dediquem ao recrutamento, exploração sexual e venda de mulheres.
É possível encontrar em Tenancingo elementos impensáveis em outros vilarejos mexicanos.
Entre eles, Ferraris e caminhonetes de luxo Lincoln estacionadas nas ruas e em motéis, casas adornadas com torres e vitrais trabalhados - e eventualmente, como dizem os boatos locais, mansões com interiores decorados com ouro.
De Tenancingo saíram as famílias de cafetões mais conhecidas do México. Segundo as Nações Unidas, o local é um ponto crítico para a luta contra a escravidão sexual em todo o continente.
As autoridades locais reconhecem que a cidade tem seu lado obscuro, mas afirmam estar trabalhando para erradicar o problema.
"Há tráfico de pessoas, mas não na dimensão que se pensa", disse o prefeito José Carmen Rojas.

Negócio familiar

Recentemente leis foram aprovadas, tanto em Tlaxcala como em outros Estados do México, para dar penas mais duras aos traficantes de pessoas.
Porém, segundo as autoridades, ainda há um grande obstáculo na perseguição a esses criminosos: muitas famílias locais encaram a exploração sexual como uma atividade "normal".
"O problema se iniciou há 40 ou 50 anos", afirmou à BBC Emilio Muñoz, diretor do Centro Frei Julian Garcés, que atende vítimas de exploração sexual e faz campanha da nova legislação sobre o tema.
"Os traficantes começaram a ganhar dinheiro, o que permitiu a eles apoiar economicamente a comunidade, pagando festas e infraestrutura. Ser traficante se transformou em uma aspiração para os jovens e crianças do povoado. Se transformou em algo cultural", disse.
O tráfico de pessoas se enraizou tanto na cidade que se tornou um negócio tipicamente familiar. A especialidade dos cafetões - ou "padrotes", como são chamados localmente - é conquistar as suas vítimas.
"Soubemos de casos de raptos ocorridos na saída das escolas ou do trabalho e, inclusive, compra de mulheres em comunidades indígenas, mas a técnica mais utilizada é a conquista amorosa", afirmou Emilio Muñoz.
"Os traficantes vão a lugares muito pobres, se apresentam como comerciantes e namoram as mulheres. Prometem a elas uma casa, um bom carro, tudo o que elas nunca poderiam ter. Depois as levam para Tlaxcala, onde as convencem a se prostituir como única alternativa para que a família sobreviva."
Os homens herdam as técnicas de sedução de seus pais. As mães se encarregam de preparar o casamento entre o cafetão e a vítima e de convencer as mulheres de que a prostituição é o único caminho.
Elas também ficam com os filhos das vítimas quando elas são enviadas à Cidade do México ou a alguma grande cidade americana - o que funciona como uma garantia para as mulheres não tentem escapar ou denunciar o esquema.

Reféns

Maria, uma jovem da América Central que não terá a identidade revelada, saiu de seu país com a promessa de trabalhar como garçonete, mas foi vendida de prostíbulo em prostíbulo.
Vilarejo de Tenancingo
A cidade de Tenancingo (México) é o principal foco de tráfico de mulheres da América do Norte
Hoje, ela vive no México em um refúgio para vítimas de exploração sexual e sonha em se tornar jogadora de futebol.
"Alguns clientes te tratam bem e outros não, mas dou graças a Deus que não me aconteceu nada. Algumas colegas acabaram mortas", disse ela.
"Me tiraram todos os documentos e até o número de telefone da minha mãe. Me disseram que teria que trabalhar até pagar minha dívida da viagem que fiz do meu país até aqui. E que não tentasse fugir", afirmou.
Maria foi resgatada de um prostíbulo durante uma operação da autoridade migratória.
"Muitas mulheres exploradas não se reconhecem como vítimas", afirmou a fiscal Irene Herrerías.
"Em outros delitos, as vítimas procuram as autoridades e denunciam, mas elas vivem agarradas aos traficantes ou são ameaçadas por eles", disse.

Machismo

Tenancingo é apenas a face mais visível do dinheiro gerado pelo tráfico de pessoas no México.
Segundo o Centro Frei Julián, as mulheres são recrutadas em ao menos 11 Estados do país e exploradas em outras nove regiões - entre eles Tlaxcala e cidades americanas como Houston, Nova York ou Miami.
Na última segunda-feira, 27 mulheres foram resgatadas no bairro La Merced, no centro da capital mexicana. Lá é possível ver prostitutas e cafetões agindo à luz do dia.
Muitas prostitutas estão nas ruas de maneira voluntária. Outras sofrem exploração de redes que operam em casas escondidas nos becos de La Merced. Em média são obrigadas a ter 40 relações sexuais em um único dia.
Como elas, a cada ano milhares de mulheres caem nessas redes em todo o país, segundo organizações não governamentais do México e dos EUA. Porém, não há estatísticas claras que quantifiquem o tamanho do esquema.
"Há um fator cultural muito determinante", afirmou Felipe De La Torre, coordenador regional de um projeto da ONU contra o tráfico de pessoas.
"Grande parte da sociedade mexicana ainda tem características muito fortes de machismo. Por isso algumas esferas ainda resistem a aceitar que mulheres e vítimas podem ser forçadas a exercer a prostituição", disse o representante da ONU.
Dessa forma, tanto as mulheres que ficam no México como aquelas vendidas como mercadoria sexual em outras partes do mundo vivem a mercê dos cafetões.
Algumas se mantêm temerosas de que algo ocorra aos filhos que tiveram que deixar onde foram recrutadas.
Outras vivem uma segunda condenação: viver com os homens que roubaram suas vidas.

domingo, 17 de junho de 2012

Festival de moda muculmana mostra outra cara da mulher islamica

Moscou, 10 jun (EFE).- O primeiro festival de moda muçulmana da Rússia tenta romper os estereótipos da mulher islâmica como pessoas escravizadas pelo rigor dos dogmas do Corão e intocável para as novas tendências.
'Queremos mostrar que a mulher muçulmana também pode se vestir bem e ser moderna, culta e bonita, ao mesmo tempo em que respeita os princípios do Corão', disse neste domingo à Agência Efe Rushán Abiásov, vice-presidente do Conselho de Muftis da Rússia.
O festival, realizado no principal centro de exposições de Moscou, reuniu hoje mais de uma dezena de desenhistas da Rússia, Cáucaso Norte, Ásia Central, Irã e países árabes.
Os vestidos, roupas para noite e longas túnicas apresentados pelas belas modelos russas, que não devem nada as que desfilam por Paris ou Milão, respeitam os princípios do Corão. 'A mulher muçulmana deve ser modesta e deixar só descoberto o rosto, as mãos e os pés. Além disso, a roupa não deve ser em nenhum caso transparente', disse.
Abiásov não nega às mulheres o direito a vestir calças jeans e roupas mais leves, embora dependa da situação e das circunstâncias.
A moda muçulmana surpreendeu os presentes, não tanto por seu atrevimento, mas pela mistura de classicismo e modernidade, tradições islâmicas e últimas tendências. Em muitos casos os tamanhos eram justos e os saltos muito altos, o que contribuía para ressaltar a elegância dos modelos expostos.
Os chapéus e lenços com estampas originais chamaram a atenção. 'Roupa sem idade. Eterna. Um vestido para cada ocasião. Romântica e extravagante', dizia a apresentadora, enquanto ao fundo tocava uma música que lembrava 'As mil e uma noites'.
A impressão do espectador é que os desenhistas buscaram na tradição uma forma de apresentar uma mulher feminina, graças à pureza do material utilizado e as cores pouco chamativas. 'Queremos mostrar a beleza do Islã. Muitas mulheres querem se vestir bonitas, mas encontrar roupa que respeite os códigos e seja bonita nem sempre é fácil', disse uma porta-voz da organização do evento.
Os organizadores do festival reconhecem que nem todos os países muçulmanos aplicam as mesmas regras e são tão rigorosos com o código de vestimenta de suas mulheres. 'Na Rússia nunca tivemos tradição de túnicas negras como no mundo árabe. As mulheres muçulmanas russas não passam o dia em casa, sem se relacionar com ninguém', acrescentou a porta-voz.
Uma das estrelas do evento foram os vestidos desenhados por uma casa de modas iraniana, muito mais conservadores que o resto dos vestidos mostrados no primeiro festival de moda muçulmana de Moscou.
'A fé é uma questão interior. Eu não sinto que tenha que esconder todo o corpo para ser uma muçulmana melhor. Por outro lado, minha irmã, mais jovem que eu, cobre o cabelo', disse à agência Efe Yulia, de 22 anos da região dos Urais.
Esta bela estudante com um longo rabo de cavalo e veste jeans apertados acredita que é possível encontrar o equilíbrio ideal entre a modernidade e os princípios do Islã. 'Quando eu tiver filhos, deixarei que eles sejam o que escolherem. Isso depende do homem muçulmano, pois há os inteligentes e outros que pensam que mostrar o cabelo é para pecadoras', disse.
Sobre o assunto, Abiásov ressalta que cada vez há mais lojas na capital russa e na internet que vendem roupa para muçulmanos. Na Rússia há mais de 20 milhões de pessoas, divididos entre as repúblicas de Tartária e Bashkiria, Cáucaso e Sibéria.
O clérigo ressaltou que os muçulmanos russos estão acostumados a conviver com cristãos e judeus, tradição de tolerância que é desconhecida por outros países onde o Islã é a única religião. EFE

domingo, 1 de abril de 2012

Circuncisão Feminina na África - Pr. José Ferreira


Pr. José Ferreira
São sete horas da manhã, hoje é uma sexta-feira. Já estamos em novembro de 1.987, no final da estação chuvosa. Aqui na Guiné Bissau este cantinho gostoso da África. A chuva cai quase todos os dias de maio a outubro, produzindo um enorme lençol verde em toda a savana, ornamentando-a com flores silvestres e belas aves exóticas.
A região de Bafatá é “Chão” das tribos muçulmanas Fulas e Mandingas. Na nossa rua o movimento é incomum desde a madrugada, deixa antever que algo está para acontecer. Talvez uma cerimônia importante seguida de festa.
As mulheres africanas estão chegando a todo o momento, exibindo seus “panos novos” e os cabelos tecidos formando penteados complicados. As bailarinas trazem chocalhos em volta da cintura e dos tornozelos. Os jovens e senhores chegam com seus tambores.
Desde a madrugada ouvíamos o barulho dos pilões. São as mulheres preparando o arroz, a  mancarra e o “xebem”.
Elas pilam em três ou quatro para cada pilão, produzindo um som cujo arranjo musical foi composto, segundo eles, pelos deuses africanos.
Os movimentos que uma mulher faz ao levantar e baixar a mó do pilão leva o seu corpo a obedecer ao compasso da música, produzindo assim uma dança perfeita. A mulher africana não necessita aprender a dançar. Ela já nasce sabendo.

Traz esse conhecimento desde a sua infância. Muitas e muitas vezes ainda no ventre da mãe ou amarrada às suas costas ela dançou ou ouviu aquela música.
Está chegando a nossa casa o jovem Kebá, meu professor da língua Fula. Kebá é um moço talentoso. Possui grande conhecimento nos usos e costumes de sua tribo. É muçulmano praticante e professor da Língua Portuguesa na escola da cidade.
Com muito jeito – para Kebá não notar a minha curiosidade – lhe faço uma pergunta objetiva.
– Então, o quê está acontecendo na casa do vizinho?
Ele me responde:
– Não é nada. É apenas a festa de Mariama!
De início pensei logo que se tratava de aniversário. Mariama tinha apenas seis anos,era uma menina esperta e sadia. Quantas vezes ela ia até nosso portão e ficava conversando conosco, uma criança normal que gostava de brincar como as outras crianças e fazer de tudo relativo à sua idade.
Alguém já havia dito à ela naquele dia: Esta festa toda é para você. A pessoa mais importante, hoje, é você. Ela corria de um lado para o outro trajando seu vestido novo, meio sem jeito. Mariama sempre usava apenas trapos imundos, revelando a pobreza em que vivia.
No terreiro, espalhadas pelo chão, esteiras de juncos, várias cabaças cortadas ao meio servindo de tigelas continham certos alimentos, além de garrafões de vinho de caju. Enfim a “mesa” do banquete estava posta.
De repente ouvem-se gritos estridentes de dor profunda. Uma criança gritava e chorava ao mesmo tempo. Então seus gritos foram abafados pelo rufar dos tambores e o chocalhar das danças. Era o ponto culminante da cerimônia.
Daí em diante ouvia-se os adultos conversando e rindo, demonstrando satisfação e alegria.
O que estaria de fato acontecendo ali? Estaria aquela gente fazendo algum sacrifício humano? Tínhamos ouvido histórias de sacrifícios humanos seguidos de canibalismo entre as tribos africanas. No entanto, Kebá que percebia a nossa inquietação, disse:
– Foi apenas a Mariama que lhe botaram o ‘fanado. ’
Fanado? Sim. O que eles chamam de Pequeno Fanado nada mais é que a circuncisão feminina, algo que acontece com todas as crianças muçulmanas do sexo feminino entre quatro e seis anos de idade. Como é feito isto? Pergunto. Uma “mulher grande” – senhora de idade, com muita responsabilidade e experiência, lanceta com um bisturi de fabricação caseira, o clitóris da criança.
A finalidade principal de se botar o fanado na menina é para que elas não venham a ter prazer sexual, facilitando assim a submissão total ao homem, no caso, o seu marido.
O dever da mulher em certas tribos africanas é satisfazer sexualmente o seu marido obedecer-lhe em tudo, cuidar do campo de arroz, da horta, da casa, etc. Dar-lhe bastantes filhos e criá-los.
As mulheres ao casar, seus bens passam a pertencer ao marido, tendo posse somente de seus colares e brincos feitos de conchas marinhas, além do “pano” que envolve seus corpos da cintura para baixo. Da cintura para cima não é precisamente necessário usar roupa alguma.

Os seios à mostra servem para facilitar a avaliação masculina.
A menina africana entre dez e onze anos, quando começa a despontar seus seios sabe-se que já está pronta para casar. O homem a quem ela foi prometida, procura a família dela para providenciar a cerimônia de casamento. Por outro ângulo, os seios volumosos demonstrarão capacidade para amamentar os filhos, despertando interesse em homens para tomá-la por esposa, caso não seja prometida.
O Grande Fanado
Quando a jovem africana das tribos muçulmanas atinge de onze a dezesseis anos é levado ao Grande Fanado. Um grupo de menina vai para a selva, num lugar secreto previamente escolhido por adultos, longe dos olhares curiosos dos homens e de algumas mulheres que de algum modo escaparam do Pequeno Fanado.
É possível circuncidar jovens na idade adulta. Se esta se apresentar para o Grande Fanado e comprovado através de exame prévio que não possui a cicatriz no clitóris, então ela é circuncidada      ali mesmo, na hora.
Ao chegarem à clareira sagrada para as cerimônias do Grande Fanado, as jovens têm que se despir completamente. Suas roupas são bem guardadas, pois são impedidas de sair dali antes do término do evento.
Este segundo e último fanado demora vários dias para ser realizado. Durante todo o tempo as candidatas permanecem nuas. Uma vez ali não há lugar para arrependimento.
Ali elas aprendem como se portar sexual com o futuro marido, como obedecê-lo em tudo, agradando-o da melhor maneira, e, muitos conselhos para fazer delas esposas ideais.
Tudo o que fazem ali tem que ser dentro de um segredo absoluto. Não se comenta nada com ninguém, a não ser com outra mulher comprovadamente circuncidada.
Antes de saírem dali são feitos certos juramentos de que tudo o que aconteceu não vai cair nos ouvidos de homens ou mulheres não circuncidadas.
Para um estrangeiro obter certas informações fica mais fácil usando o sistema do “soko di bas”. Esta expressão da língua crioula quer dizer soco em baixo que nada mais é do que alguém com o punho fechado, levando-o rapidamente em direção ao baixo ventre de outra pessoa, que para se defender segura de imediato aquela mão fechada que logo se abre passando assim o dinheiro da propina.
Com um “soko di bas” de dez dólares é possível conseguir boas fotos, filmagens, entrevistas e até ouvir esses tão guardados segredos.
Somente depois de terminado todo o ensinamento é que as meninas recebem suas roupas, panos para a cabeça, miçangas de conchas, provas de que já participaram do Grande Fanado.
Voltam para suas casas, festejam com seus familiares, se sentem importantes e superiores perante aquelas que ainda não foram ao Grande Fanado.
A aula de Kebá transformou-se em exposição da cultura e costumes de sua tribo. Ele se foi. Seguiu seu caminho. 
Eu fiquei só a imaginar. Aquela inocente criança num quarto escuro, sozinha, sofrendo grande dor. Um pano apertado entre as pernas para não sangrar até a morte, com medo, sem nada entender. Enquanto isso, no terreiro, seu povo dançando, comendo e bebendo, cantando feliz, certo de ter feito e participado de algo bom e correto.
O incrível é pensar que em pleno século XXI ainda existe barbaridades como estas, cometidas contra mulheres e crianças, e o mundo evoluído em que vivemos parece contemplar tudo em silêncio porem sem saber como fazer para reverter este triste quadro que ainda perdura.

Trecho do livro Portas de Bronze, publicado pela Editora Scortecci. Mais informações AQUI.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Virgens juramentadas na Albânia

  Pashe Keqi ainda lembra o dia em que decidiu viver como homem, quase 60 anos atrás. Cortou suas longas madeixas negras e encaracoladas, trocou o vestido que usava pelas calças largas de seu pai e jurou recusar o casamento, filhos e sexo. Caso tivesse nascido na Albânia moderna, diz Keqi, 78 anos, que decidiu jurar virgindade e celibato em troca do direito de viver e de comandar sua família como homem, ela optaria pela feminilidade.
"Na época, era melhor ser homem porque uma mulher e um animal eram consideradas como a mesma coisa", disse Keqi, em um tom de ruidoso barítono. Ela se senta com as pernas bem separadas, como um homem, e gosta muito de doses de raki e de fumar. "Agora, as mulheres albanesas têm direitos iguais aos dos homens, e são ainda mais poderosas. Hoje em dia em acho que seria muito mais divertido ser mulher".
As virgens juradas se tornavam patriarcas de suas famílias, com todos os paramentos da autoridade masculina, ao prometer que se manteriam virgens pelo resto de suas vidas.
O ritual era uma forma de ganhar poder, para as mulheres das regiões rurais de um país imensamente pobre e machista, isolado da vida européia mais ampla por décadas de ditadura stalinista. Mas na Albânia atual, com a paquera via Internet e a MTV, o costume praticamente desapareceu. As meninas já não desejam se tornar meninos.
A tradição das juras de virgindade remonta ao Kanun de Leke Dukagkini, um código de conduta transmitido oralmente entre os clãs do norte da Albânia por mais de cinco séculos. Sob as normas do Kanun, o papel das mulheres é severamente restrito: cuidar das crianças e da casa. Enquanto a vida de uma mulher valia metade da vida de um homem, a de uma mulher que fizesse jura de virgindade tinha o mesmo valor - 12 cabeças de gado.
A jura de virgindade nasceu pela necessidade social em uma região agrária sempre devastada pela guerra e pela morte. Caso o patriarca de uma família morresse sem deixar herdeiros homens, as mulheres solteiras da família podiam se ver abandonadas e impotentes. Ao fazer uma jura de virgindade, as mulheres podiam assumir o papel de homens como chefes de família, portando armas e dotadas do direito de propriedade e de liberdade de movimento.
Elas se vestem como homens, se comportam de maneira masculina e passam a vida na companhia de homens.
Algumas também optavam pela jura de virgindade como forma de evitar casamentos arranjados. Outras ainda juravam virgindade para expressar sua autonomia. Algumas, que lamentavam demais o sacrifício realizado, decidiam abandonar os votos e voltar à condição de mulheres, casando-se mais tarde em suas vidas.
"Abandonar a sexualidade por meio de uma promessa de virgindade era uma maneira de essas mulheres se envolverem na vida pública, em um mundo dominado pelos homens e segregado", diz Linda Gusia, professora de estudos sexuais na Universidade de Pristina, em Kosovo. "Era uma forma de sobreviver em um mundo dominado pelos homens".
Fazer um juramento de virgindade não deve ser considerado como indicação de homossexualidade, uma condição que é tabu no norte da Albânia, dizem os sociólogos.E as mulheres tampouco fazem operações de mudança de sexo. Na região rural do norte da Albânia, restam cerca de 40 dessas mulheres, de acordo com pesquisadores que estudaram o costume.
Conhecida em sua família como "Pasha", Keqi diz que resolveu se tornar o homem da casa aos 20 anos, depois que seu pai foi assassinado em uma disputa entre famílias. Os quatro irmãos homens de Keqi eram opositores do regime de Enver Hoxha, o comunista que dominou a Albânia por 40 anos, até sua morte, em 1985, e terminaram todos prisioneiros ou mortos. Tornar-se homem, ela diz, era a única maneira de sustentar sua mãe, suas quatro cunhadas e os cinco filhos destas.
Comandando sua imensa família na casa em que vivem em Tirana, atendida por sobrinhas que lhe serviam vinho enquanto ela berrava ordens, Keqi diz que a opção por uma vida como homem lhe deu liberdades de que outras mulheres albanesas não desfrutam. Ela podia trabalhar na construção civil e tinha o direito a orar na mesquita em companhia dos demais homens. Mesmo hoje, disseram seus sobrinhos e sobrinhas, eles não ousariam se casar sem a permissão do "tio".
"Eu era totalmente livre como homem, porque ninguém sabia que eu era mulher", conta Keqi. "Podia ir aonde quisesse, e ninguém me xingava porque eu logo partia para a briga. Só tinha homens por companhia, e não sei como as mulheres falam. Nunca tenho medo". Quando foi hospitalizada para uma operação, recentemente, recorda Keqi, as demais mulheres da enfermaria ficaram horrorizadas por dividir o quarto com um homem e pediram para ser transferidas.
Keqi diz que o fato de que nasceu mulher a tornou um homem mais compassivo. "Se via outros homens desrespeitando uma mulher, dizia que parassem". Ela afirma que se ver privada de uma vida de intimidade sexual era um sacrifício necessário. Ela não sente falta de ter tido filhos, porque sempre viveu cercada pelas sobrinhas e sobrinhos. "Depois que me decidi totalmente, tive a força de não voltar atrás".
Ser o homem da casa também a tornava responsável por vingar a morte de seu pai, ela afirma, de acordo com a norma do Kanun que dispõe que sangue derramado se paga com sangue derramado. Quando o assassino de seu pai foi libertado da prisão, cinco anos atrás, aos 80 anos de idade, Keqi diz que ordenou que seu sobrinho de 15 anos o matasse. A família do homem retaliou matando o menino.
"Sempre sonhei em vingar a morte de meu pai. Meus irmãos tentaram, sem sucesso. Eu lamento que meu sobrinho tenha morrido, claro. Mas seu você me mata, tenho de matá-lo". Na Albânia, um país de maioria muçulmana, o Kanun é respeitado por muçulmanos e cristãos, ainda que os turcos otomanos e sucessivos governos albaneses tenham tentado limitar sua influência.
Os historiadores culturais albaneses dizem que essa adesão a costumes medievais há muito abandonados em outros países é um subproduto do isolamento em que a Albânia viveu. Mas enfatizam que o papel tradicional da mulher está mudando, na Albânia de hoje.
"A mulher albanesa hoje é como que uma ministra da economia, uma ministra da afeição e uma ministra do interior, que controla quem faz o que em cada família", disse Ilir Yzeiri, um crítico que escreve sobre o folclore albanês. "Hoje, na Albânia, as mulheres estão no controle de tudo".
Algumas das adeptas dos juramentos de virgindade lastimam a liberação da mulher. Diana Rakipi, 54 anos, segurança na cidade de Durres, no oeste do país, que jurou virgindade para tomar conta de suas nove irmãs, disse que recorda com nostalgia a era de Hoxha. Nos tempos do comunismo, ela era oficial de alta patente no exército, treinando mulheres para o combate. Agora, lamenta, as mulheres já não conhecem seu lugar.
"Hoje as mulheres saem seminuas para ir à discoteca, e não respeitam os limites", diz Rakipi, que usa o cabelo cortado à escovinha e uma boina ao estilo militar. "Sempre fui tratada como homem, por toda a vida, sempre com respeito. Não sei limpar, não sei passar roupa, não sei cozinhar. Isso é serviço de mulher".
Mas mesmo nas remotas montanhas de Kruje, 50 km ao norte da capital, Tirana, onde estradas de terra serpenteiam por entre as plantações de oliveiras, os moradores locais dizem que a influência do Kanun no que tange a definir papéis sexuais está desaparecendo. Eles afirmam que a erosão da família tradicional, na qual todos viviam sob o mesmo teto, também alterou a posição social da mulher.
"Agora homem e mulher são praticamente iguais", diz Caca Fiqiri, cuja tia, Qamile Stema, 88 anos, é a única virgem jurada que resta na aldeia. "Nós respeitamos muito as mulheres que juraram virgindade, e as consideramos como homens devido aos grandes sacrifícios que fizeram. Mas não existe mais estigma em viver em uma casa sem homens".
Mas não resta dúvida sobre quem manda na casa de pedra de um cômodo na qual a família vive em Barganesh. Na velha aldeia, o "tio" Qamile em um dia recente estava cercado por seu clã, usando um geleshe, o tradicional chapéu branco dos homens albaneses. A única coisa feminina na indumentária e aparência de Qamile eram os chinelos de dedo cor de rosa.
Ela apontou para uma velha foto em branco e preto que pendia da porta de entrada - um homem jovem e bonito - e contou que jurou virgindade aos 20 anos, depois da morte de seu pai. Ela era a mais velha de nove irmãs.
Depois de se tornar homem, ela conta que estava autorizada a sair de casa e cortar lenha com os demais homens. Ela podia usar uma arma. Sentava-se com os homens, nos casamentos, e as mulheres com quem falava desviavam o olhar timidamente.
Ela diz que jurou virgindade por necessidade, e que isso representa um sacrifício. "A verdade é que me sinto sozinha, ocasionalmente. Minhas irmãos todas morreram, e vivo só. Mas nunca quis me casar. Houve gente em minha família que tentou me convencer a mudar de roupa e usar vestidos, mas viram que eu havia me tornado homem e me deixaram em paz".
Ela diz que vai morrer virgem. "Acho que se poderia dizer que sou meio mulher e meio homem, mas nunca fiz tudo que um homem faz", afirma. "Gostei de minha vida como homem. Não me arrependo".
Tradução: Paulo Migliacci ME
 Blog de maedemenina : Mãe de menina, Virgens patriarcas da Albânia- Documentário natgeo -


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Em Cristo 

Pr Henrique Davanso e  Henriqueta 

 J.M.M  -  ALBANIA
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