Mostrando postagens com marcador Nordeste. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nordeste. Mostrar todas as postagens

sábado, 25 de junho de 2016

Como um Biodigestor pode mudar a vida do Sertanejo?


As perturbações ambientais provocadas pelas mudanças climáticas globais vêm tornando-se mais frequentes e afetam o cultivo de alimentos e a criação animal no mundo inteiro. Incêndios florestais, secas e inundações são os efeitos mais evidentes destas mudanças, as quais são objeto de preocupação da Diaconia, organização formada por igrejas evangélicas, cujos valores são baseados em princípios do reino de Deus, a exemplo da promoção da paz, da justiça e do respeito à igualdade de direitos. Firmada nestes princípios cristãos, a Diaconia defende a construção de uma sociedade justa, pelo serviço ao próximo, entre eles o cuidado com a criação.
A Diaconia contribui para restaurar a relação de homens e mulheres com a natureza, garantindo o direito das pessoas de conviver num mundo equilibrado, com boas práticas ambientais e qualidade de vida.
O salmista diz em seus poemas que “ao Senhor pertencem a terra e tudo o que nela existe, o mundo e os que nele habitam” (Sl 24.1). A Diaconia assume esta afirmativa como parte da “prática de sua fé” ajudando e empoderando politicamente famílias do Semiárido brasileiro no cuidado com a criação. Desenvolve projetos de boas práticas ambientais, com igrejas evangélicas e redes locais de articulação da sociedade civil, sensibilizando, mobilizando e capacitando famílias agricultoras para a transformação de suas vidas.
Uma das grandes iniciativas da instituição é o Biodigestor Sertanejo, que produz gás de cozinha, adubo orgânico, contribui para a diminuição do aquecimento global, melhora a saúde das pessoas e aumenta a renda das famílias. Um bom exemplo de transformação socioambiental é a experiência inspiradora do casal de agricultores Deda e Genedite. Eles melhoraram sua qualidade de vida por meio de práticas de convivência respeitosa com o meio ambiente. Possuem uma área de cultivo de produção de alimentos em bases agroecológicas, sistemas de captação de água da chuva e um biodigestor. (Para entender melhor esta experiência inspiradora que mudou a vida de Deda e Genedite, leia a história completa nowww.diaconia.org.br.)
DOWNLOAD GRATUITO

Para mudar a vida das famílias, é importante fortalecer o diálogo e o engajamento de igrejas cristãs, organizações da sociedade civil e redes locais de articulação – todos assumindo o princípio de luta por justiça de Deus. A Diaconia participa de articulações como a Rede Miqueias, Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) e Fórum Ecumênico ACT Brasil. Acreditamos que nosso papel é o de contribuir para a restauração das relações entre a humanidade e a natureza, por meio de articulações sociais que lutam por direitos, implementação de tecnologias sociais e influência em políticas públicas necessárias para se ter um meio ambiente saudável e sustentável.
Nota: Texto publicado originalmente na seção Meio Ambiente e Fé Cristã da revista Ultimato, edição 360.

  • Marcelino de Souza Lima foi coordenador político-pedagógico da Diaconia e do Programa de Apoio à Agricultura Familiar (PAAF).
  • Ita Porto de Oliveira é assessora político-pedagógica da Diaconia.

VÍDEO
Vídeo da prática “Disseminando o Biodigestor”, vencedora do 9º Prêmio Caixa Melhores Práticas em Gestão Local Edição 2015/2016:


terça-feira, 25 de março de 2014

Conheça o Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro

Terceira edição do livro contem 10 mil expressões típicas da região Nordeste. (Foto: Ludmila Portela/Divulgação)Terceira edição do livro contem 10 mil expressões típicas da região Nordeste. Primeira versão foi lançada em 1998. (Foto: Ludmila Portela/Divulgação)
O Dicionário do Nordeste, escrito pelo jornalista pernambucano Fred Navarro, ganha sua terceira edição, com lançamento marcado para esta sexta-feira (13/12/13). O evento com participação do autor está marcado para às 18h, no Museu do Estado de Pernambuco, nas Graças, Zona Norte do Recife.
O livro é fruto de 21 anos de pesquisa. “A ideia surgiu quando me mudei do Recife para São Paulo e percebi que os paulistas não me entendiam direito. Falava que minha coluna estava tronxa e eles riam. Notei então que cada lugar tem sua própria língua”, afirmou Navarro. Com isso em mente, o jornalista começou a anotar as palavras tipicamente nordestinas que encontrava e pesquisava as origens delas. Assim, a terceira edição do dicionário chega ao público contendo a tradução de 10 mil registros.
“Descobri que algumas expressões que pensava serem do Nordeste na verdade são de Minas, no Pará... Também tive a oportunidade de apreender palavras usadas por baianos ou aquelas que nasceram no Recife. Um exemplo é 'boyzinha', que significa garota e é tipicamente recifense”, revelou o autor. "Já na Bahia, por exemplo, eles dizem muito 'vamos na praia domingar'. Nunca tinha ouvido isto antes, mas descobri que quer dizer ir passear, se divertir. "
A proposta do Dicionário do Nordeste é servir como uma guia da região, pois também tem comidas e brincadeiras locais. A primeira versão, publicada em 1998, continha 2.500 palavras do vocabulário nordestino. Já a segunda edição, de 2004, chegou ao público com o dobro de verbetes. O livro é lançado em parceria com os estados de Alagoas, Bahia e Sergipe.

sábado, 15 de março de 2014

Um passeio pela culinária do sertão nordestino


Brasil - Sertão Nordestino
A temperatura do sertão, região que toma conta de boa parte do Nordeste, está sempre nas alturas. Chuva, só em três ou quatro meses do ano – e olhe lá. É nesse ambiente seco e quente que uma cozinha simples, mas forte, se desenvolveu, baseada em ingredientes com forte vínculo regional. A carne-seca e de bode são os dois principais exemplos. A primeira, pilar da culinária sertaneja, surgiu da necessidade de conservar a carne por mais tempo durante as longas viagens realizadas pela caatinga.
Por resistir bem ao clima, o bode acabou virando preferência regional: sua carne entra no simbólico prato conhecido como buchada de bode . Festivais em homenagem ao animal são realizados por toda a região. No interior da Paraíba, há a festa do Bode Rei, com direito a desfile de uma comitiva formada pela “família real” (incluem-se aí, além do Bode Rei, a Cabra Rainha e os Príncipes Bode) e uma praça de alimentação dedicada a receitas feitas com, é claro, carne de bode – uma das novidades das últimas edições é o McBode, um hambúrguer da carne do animal.
Da terra seca do sertão e do agreste nordestinos saem ingredientes-chave para a cozinha local.Maxixe , batata-doce, inhame , milho , jerimum e macaxeira vêm da horta e, geralmente, acompanham os muitos pratos com feijão-de-corda , a exemplo do baião de dois e doarrumadinho . Manteiga de garrafa e queijo de coalho coroam a maioria das receitas, assim como a onipresente rapadura , que pode ser misturada à farinha de macaxeira ou servir ao preparo de doces típicos, como o bolo de pé de moleque .
Cachimbo: Não tem nada a ver com aquele pequeno aparelho usado para fumar. Trata-se, na verdade, de uma bebida caseira à base de aguardente e frutas. O processo é o seguinte: mistura-se mel à aguardente e adiciona-se ao líquido o miolo de uma fruta da estação, que pode ser umbu, maracujá, caju, limão, coco, abacaxi, goiaba ou manga. A mistura vai para uma garrafa, que é agitada fortemente até o miolo da fruta se desmanchar. Depois, o líquido é coado e engarrafado. A tradição manda servi-lo às pessoas que visitam recém-nascidos.
Cajuína: A música Cajuína, de Caetano Veloso, tornou célebre esta bebida típica de Teresina, no Piauí. Sem álcool, ela é feita do suco do caju filtrado, acrescido de gelatina e clarificado (ou purificado, para que os resíduos sejam separados). O resultado é uma bebida de cor amarelo-âmbar, que deve ser consumida bem gelada.
Alambriga: Sopa de jerimum amassado com leite. A receita, típica do Rio Grande do Norte, também leva carne moída, alho, salsa e farinha, e fica numa consistência bem cremosa.
Arroz de capote: Prato-símbolo da cozinha do Piauí, é um arroz misturado com pedaços de capote (galinha-d’angola). De origem africana, a ave dá um sabor bastante forte a esse prato.
Arroz Maria Isabel: Trata-se de um arroz com carne de sol socada no pilão, pimenta-de-cheiro, alho e cebola. Típico do Piauí, este prato também pode ser encontrado em outros pontos do sertão nordestino e na região Centro-Oeste.
Arrumadinho : Muito encontrado em restaurantes populares e bares de Pernambuco, consiste numa mistura de feijão-verde com manteiga de garrafa, servido ao lado de carne de sol frita e desfiada, farinha de mandioca e vinagrete.
Baião de dois : O prato se tornou tão emblemático do Nordeste que batiza até uma música de Luiz Gonzaga. “Se o baião é bom sozinho, que dirá baião de dois.../Capitão que moda é essa, deixa a tripa e a cuié, homem não vai na cozinha, que é lugá só de mulhé./Vô juntá feijão-de-corda numa panela de arroz...” é um dos trechos da música que revela a composição da receita. Depois de juntar feijão-de-corda já cozido ao arroz, acrescenta-se jabá e queijo de coalho para deixar o prato completo. Vai à mesa acompanhada por paçoca (carne de sol socada no pilão com farinha e temperos).
Buchada de bode : Esta especialidade do sertão é o resultado de uma complexa receita, que agrada paladares afeitos a sabores fortes. Miúdos do bode, incluindo intestino, fígado, rim, coração e pulmão (conhecido como bofe) são picados, temperados, refogados com sangue e pimenta e inseridos no estômago (bucho) do animal. Depois, a buchada é cozida por até cinco horas para, então, ser servida com pirão e arroz. Encontrada, sobretudo, no sertão de Pernambuco, a receita também pode ser feita com o bucho de carneiro.
Caldo de mocotó: É feito com a carne extraída da pata do boi, que tem grande concentração de colágeno – é a ele que se deve a consistência pegajosa do caldo. A receita leva também feijão, pedaços de linguiça e de tripas, e cozinha por horas. No final, acrescenta-se coentro ao caldo, considerado bastante energético.

Carne de sol com pirão de leite: Típica do Sergipe, mas também popular em outras regiões de sertão, a receita manda assar a carne de sol na brasa e servi-la com uma espécie de purê, à base de leite e farinha de mandioca, e conhecido como pirão.

Comidas de festa junina: Em junho, os dias de Santo Antônio, São João e São Pedro são celebrados com animadas festas, que reproduzem as antigas comemorações feitas na roça pela fartura da colheita de milho. Embora a tradição se mantenha viva em todas as partes do país, é no Nordeste que ela tem mais força: a semana do dia 24 de junho costuma ser feriado, para que todo o povo possa se vestir de caipira, dançar a quadrilha, tomar quentão e se esbaldar nas barraquinhas dos arraiais, lotadas de comidinhas à base de milho – incluem-se, aí, pipoca, bolo de milho, pamonha, curau e o próprio milho cozido. Também há pé de moleque, paçoca e pudim de tapioca. As festas juninas mais famosas do Brasil acontecem nas cidades de Campina Grande, na Paraíba, e de Caruaru, em Pernambuco.
Cuscuz nordestino: Trata-se de uma massa de milho que, depois de ser umedecida e salgada, é deixada em repouso para inchar. Em seguida, vai para a cuscuzeira, em que é cozido no vapor. Pode ser salgado ou doce, cozido com leite de coco ou acompanhado de rapadura. “É o pão na mesa do sertanejo”, diz Ana Rita Suassuna, autora do livro Gastronomia Sertaneja. Como um bom pão, costuma ir à mesa no café da manhã, no almoço – para acompanhar receitas – e na hora do lanche.
Escondidinho : Um dos pratos mais populares do sertão ganhou as mesas de todo o Brasil. O nome curioso é explicado pela própria receita: sob uma camada de purê de mandioca, salpicado de queijo de coalho ralado, esconde-se uma porção de carne-seca bem-temperada. A mistura é gratinada e chega quentinha à mesa.
Galinha de cabidela: Muito apreciada pelos pernambucanos, esta receita consiste em cozinhar pedaços da galinha em um molho à base de seu sangue fresco e temperado. Com um caldo escuro e espesso, a galinha é servida na companhia de arroz branco, farofa de farinha de mandioca, favas e feijão-de-corda, verde ou seco.
Mugunzá: É uma canjica (grãos de milho branco ou amarelo socados no pilão) cozida com leite de coco, de vaca ou de cabra. Esta receita pode ser doce (finalizada com canela) ou salgada. Uma das versões salgadas mais tradicionais é conhecida como mugunzá com mão de vaca, e leva a carne da pata dianteira do animal, rica em colágeno, e linguiça.
Sarapatel: Apesar de ser mais típico em Pernambuco, está em cardápios de todo o Nordeste. Servido como prato ou acompanhamento, é um cozido de miúdos de carneiro, bode ou porco com sangue coalhado, cortado em pedaços e temperado com louro.

Umbuzada: A consistência cremosa deste doce vem da farta polpa dos umbus, que é fervida com pouca água, peneirada e misturada a leite e açúcar até ficar consistente. Embora seja doce, também pode ser consumida na merenda ou na ceia.

Bolo de jerimum: Bolo feito de uma mistura de purê de jerimum, leite de coco, açúcar, farinha de trigo, ovos e manteiga. É assado no forno em tabuleiros.
Bolo de mandioca: Também conhecido como “bolo puba”, tem massa à base de mandioca, leite de coco, ovos, manteiga e açúcar. É assado no forno e servido com café.
Bolo pé de moleque : Comum em época de festa junina, é um bolo de mandioca, açúcar, leite de coco, ovos e manteiga, que se diferencia dos outros por ganhar castanhas de caju moídas, erva-doce e cravo. É decorado com castanhas inteiras e assado no forno.
Chouriço: Tradicional no Rio Grande do Norte e na Paraíba, este doce mistura sangue e banha derretida do porco a pedaços de rapadura, casca de limão, erva-doce, gengibre, castanha de caju torrada, cravo e pimenta-do-reino. Leva horas para chegar ao ponto e pode ser consumido quente ou frio, puro ou acompanhado por farinha de mandioca.
Tijolo: A raiz do umbuzeiro, conhecida como batata de umbu, é a base desta sobremesa, que ainda leva açúcar, coco e frutas. Compactado, o doce tem o formato de uma rapadura, mas a consistência se revela bem mais macia. É típico do sertão de Pernambuco.
Arroz vermelho: Foi introduzido no Brasil, mais especificamente na Bahia, pelos portugueses no século 16. A produção acabou migrando para a região semiárida da Paraíba, principalmente no Vale do Rio Piancó. Hoje, o estado é o maior produtor de arroz vermelho do país, conhecido também como arroz da terra. Na região, é tradicionalmente cozido com água, leite, sal e tempero verde, para acompanhar cozidos de galinha e de bode.
Bredo: Vegetal com folhas que lembram espinafre, que cresce espontaneamente ao redor das casas. Há o bredo vermelho e o branco, mas este último é o mais apreciado. Pode entrar no preparo de caldos de frango ou ser cozido no leite de coco. Também serve para acompanhar peixes, fritadas, feijão e carnes.
Carne de bode : Por se adaptar bem ao clima semiárido, o bode é um símbolo da alimentação do sertanejo. Sua carne pode ser defumada (como carne de sol), guisada, grelhada, assada no forno ou na brasa, e cozida em forma de caldeirada ou de buchada. Há inúmeras festas regionais em que o animal é o tema – a mais conhecida é a Festa do Bode Rei, na cidade de Cabaceiras, na Paraíba. Em Petrolina, Pernambuco, há, inclusive, um “bodódromo”, que reúne um complexo gastronômico ao ar livre, cujo tema é a carne de bode. Hoje, contudo, a carne mais utilizada nos restaurantes locais é a de carneiro, mais fácil de ser encontrada nos mercados e com sabor não tão diferente da de bode.
Carne de sol : É a carne ligeiramente salgada e seca em locais cobertos e bem ventilados. A desidratação forma uma espécie de casca que conserva a parte interna da carne úmida e macia. Na cozinha sertaneja, está sempre presente, seja frita ou assada na brasa, para acompanhar pirão de leite, feijão-verde, farofa, macaxeira, batata-doce, manteiga de garrafa (manteiga líquida), queijo de coalho ou vinagrete.
Carne-seca (jabá ou charque): Leva uma quantidade maior de sal que a carne de sol e é empilhada em locais secos. Durante a maturação, as peças de carne são mudadas constantemente de posição para facilitar a evaporação. Depois, ficam sob o sol até que a desidratação se complete.
Feijão-de-corda (fradinho): Muito utilizado na cozinha nordestina, tem alto valor nutritivo e se integra facilmente a variadas receitas. Pode ser preparado quando ainda está verde ou seco, em cozidos de carnes e legumes, para acompanhar carne de sol e carne de bode, ou, ainda, misturado a farofa de mandioca ou cuscuz.
Feijão guandu: Leguminosa arbustiva muito comum no sertão. Pequeno, este feijão é preparado com pimenta, pimentão, cominho, semente de coentro, ervas e alho. É consumido na forma de farofa, misturado a farinha e a pedaços de carne.
Fruta de palma: Conhecida também como palma forrageira, é um vegetal do semiárido nordestino bastante utilizado na alimentação de gado. Seu fruto, chamado de figo-da-índia, entra na produção de uma bebida fermentada, o “vinho de palma”, além de compor vinagres, aguardentes, licores – também é seco e servido na forma de passas. Como retém bastante água, a planta é usada pelas pessoas na época de seca, para se reidratar.
Inhame : Tubérculo de origem africana muito apreciado no sertão e em outras regiões do Brasil. Costuma ser cozido com água e sal e passado na manteiga, às vezes acompanhado de carne.
Jambo: Com esta fruta avermelhada de polpa suculenta e sabor adocicado, fazem-se doces e compotas, facilmente identificados pela cor rosa. Carnudo, também pode ser consumido sozinho.
Jamelão: Nativa da América do Sul, conhecida também como melão caboclo, tem casca dura e resistente, de cor que varia entre o amarelo e o roxo-escuro, polpa carnuda, amarelada e de aroma marcante. O sabor lembra o de um melão. É consumido in natura ou em sucos e batidas.
Jerimum (abóbora): É o nome nordestino da abóbora, fruta essencial à cozinha sertaneja. O jerimunzeiro é utilizado por inteiro: as folhas podem ser cozidas no feijão ou refogadas; as flores entram em ensopados de leite de coco ou são refogadas com manteiga e cebola; e o jerimum costuma ser cozido em água e sal ou em leite e utilizado de várias maneiras, em doces, purês, e misturas com batata-doce ou jabá.
Jerked bife: Carne bovina salgada, curada e seca, que se diferencia da carne de sol e da carne-seca por levar nitrito de sódio ou de potássio na salmoura em que é preparada. O resultado é um teor de umidade maior que o da carne-seca artesanal. A denominação e as regras de produção foram criadas pelo Ministério da Agricultura.
Macaxeira (mandioca mansa): Ao contrário da mandioca brava (leia em Região Norte), esta não tem nenhum componente que faça mal à saúde. Por isso mesmo, a macaxeira pode ser utilizada in natura, cozida, frita ou assada. Também entra na massa de diversos bolos típicos, em pedaços ou, principalmente, na forma de farinha.
Manteiga de garrafa : Muito característica do sertão, sobretudo na companhia de carne de sol e de macaxeira, é a manteiga em estado líquido. Para ser produzida, é preciso bater a nata do leite de vaca com colher de pau até que ele se transforme numa massa homogênea, cozida em banho-maria para soltar a manteiga líquida, que é vendida engarrafada.
Maxixe : Fruto verde e espinhoso, típico do sertão, que serve de base à maxixada, um cozido com coco, coentro, cebola, alho, sal e pimenta, que acompanha pratos de carnes, arroz branco, farofa ou feijão. O maxixe também pode ser utilizado em caldos e sopas, preparado com nata de leite cru, cozido no feijão ou, apenas, refogado na cebola.
Mel de engenho (melado): É o caldo da cana que passou por um processo de evaporação para a retirada de impurezas. Este líquido denso, vendido em garrafas, incrementa bolos, doces, frutas, farinhas, queijos e milho verde assado ou cozido.
Milho : De origem americana, o milho já era cultivado pelos nativos antes da chegada dos europeus. É um dos principais ingredientes da culinária brasileira, presente o ano todo na mesa, mas principalmente nas festas juninas. Existem dois tipos mais comuns: o milho branco, utilizado para fazer mugunzá (conhecido como canjica no Sudeste), e o milho verde, que entra no preparo de uma infinidade de doces (incluindo pamonha, curau e bolo) ou pode ser consumido em espigas cozidas ou assadas – barraquinhas de milho cozido, espalhadas por praias e quase todas as regiões do país, servem uma das comidas de rua preferidas do brasileiro.
Pimenta-de-bode: De cor amarela ou vermelha, parecida com uma pitanga, é bem picante e aromática. Pode temperar peixes, caldos e molhos.
Queijo de coalho : Típico do Nordeste, tem origem relacionada ao matulão, bolsa feita do estômago de animais em que os viajantes acondicionavam o leite. Como as jornadas eram longas, o leite acaba por coagular e dar origem ao queijo de coalho. Hoje, este queijo fresco é feito da prensagem da massa que surge da coagulação do leite. Cortado em cubos, entra no preparo de baião de dois; no formato de cubos retangulares, é colocado em espetinhos e assado na brasa, e compõe um dos petiscos mais apreciados em diversos cantos do país.
Rapadura : Esta placa retangular, doce e muito dura, feita do caldo de cana fervido, filtrado, misturado no tacho até ganhar consistência e assado, é fundamental à mesa nordestina. Serve-se rapadura em pedaços ou em forma de mel (depois de ser dissolvida no fogo) com quase tudo: bolos, doces, frutas, farinhas, queijos e milho.
Sapoti: Fruta energética de sabor doce, semelhante ao do caqui. Mais presente no interior da Paraíba, costuma ser consumida ao natural.
Umbu: Fruto do umbuzeiro, uma árvore que vive mais de 100 anos e retém água na raiz, que produz uma espécie de batata importante para a alimentação na época de seca – sua importância é tão grande que já foi chamada de “árvore sagrada do Sertão”, pelo escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões. O umbu costuma lotar os mercados entre novembro e março, período em que é servido ao natural. Seu sabor, que varia de azedo a doce, também aparece em refrescos, sorvetes, geleias, doces e na chamada umbuzada, preparada com leite e açúcar.
 
Referências bibliográficas 

ATALA, Alex. Gastronomia + Brasil + Reflexões, In: Por uma gastronomia brasileira. São Paulo: Bei Comunicação, 2003. 
BEATO, Manoel; CHAVES, Guta (Org.). Guia de Vinhos Larousse. São Paulo: Editora Larousse, 2010. 
CAMARGOS, Márcia; SACCHETTA, Vladimir. À Mesa com Monteiro Lobato. São Paulo: Editora Senac, 2009. 
CHAVES, Guta; FREIXA, Dolores. Gastronomia no Brasil e no Mundo. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2009. 
CHAVES, Guta; FREIXA, Dolores. Larousse da Cozinha Brasileira – raízes da nossa terra. São Paulo: Editora Larousse, 2007. 
CHAVES, Guta (Org.). Larousse do Vinho. São Paulo: Editora Larousse, 2007. 
CHAVES, Guta (Org.). Sabor Cultural. Taubaté: Editora Sesc, 2010. 
BELLUZZO, Rosa; HICK Marina. Cozinha dos Imigrantes – Memórias e Receitas. Editora DBA, 1999. 
BOSISIO, Arthur. A Doçaria Tradicional de Pelotas. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2004. 
BOSISIO, Arthur; LODY, Raul; MEDEIROS, Humberto. Culinária Amazônica, o Sabor da Natureza. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2000. 
BOSISIO, Arthur (Org.). Do Pampa à Serra: Os Sabores da Terra Gaúcha. Rio de Janeiro: Editora Senac, 1999. 
CARVALHO, Ana Judith de (Org.). Cozinha Típica Brasileira, Sertaneja e Regional. Rio de Janeiro: Editora Ediouro, 1998.
CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia da Alimentação. Rio de Janeiro: Editora Livros Técnicos e Científicos, 1977. 
CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1983. 
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Editora Objetivo, 2000. 
CASTILHO, Carlos. Fogão Campeiro. Porto Alegre: Editoras Martins Livreiro, 1998. 
CASTILHO, Carlos. O Rio Grande em Receitas. Porto Alegre: Editora RBS Publicações, 2005. 
FERNANDES, Caloca. Viagem Gastronômica através do Brasil. São Paulo: Estudio Sonia Robatto, 2000. 
JUNIOR, Arthur Bosisio. Culinária Nordestina: Encontro de Mar e Sertão. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2001. 
JUNIOR, Arthur Bosisio; MEDEIROS, Humberto. Pantanal, Sinfonia de Sabores e Cores. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2003. 
JUNIOR, Arthur Bosisio. A Doceria Tradicional de Pelotas. São Paulo: Editora Senac, 2003. 
JÚNIOR, Chico. Roteiros do Sabor Brasileiro, Turismo Gastronômico. Rio de Janeiro: CJD Sebrae, 2005. 
LIMA, Cláudia. Tachos e Panelas: Historiografia da Alimentação Brasileira. Recife: Editora Comunicarte, 1999. 
LIMA, Zelinda Machado de Castro. Pecados da Gula: Comeres e Beberes das gentes do Maranhão. São Luís: Editora CBPC, 1998. 
MARCELLINI, Rusty. Caminhos do Sabor, a Rota dos Tropeiros. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2005. 
NUNES, Márcia Clementino; NUNES, Maria Lúcia Clementino. História da Arte da Cozinha Mineira por Dona Lucinha. São Paulo: Editora Larousse, 2010. 
PUTZ, Cristina. História da Gastronomia Paulistana. São Paulo: Editor Guia D, 2004. 
PACHECO, Renato José Costa. Dos Comes e Bebes do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Editora Senac Nacional, 2002. 
RIBEIRO, Joaquim. Folclore do Açúcar. Rio de Janeiro: Fundação Naional de Arte, 1977. 
ROMIO, Eda. 500 Anos de Sabor. Rio de Janeiro: Editora E. R. Comunicações, 2000. 
SILVA, Silvestre. Frutas Brasil Frutas. Barueri: Gráfica Círculo, 1991. 
SUASSUNA, Ana Rita Dantas. Gastronomia Sertaneja, Receitas que Contam Histórias. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2010. 
TAHAN, Vicência Brêtas. Cora Coralina, Doceira e Poeta. São Paulo: Editora Global, 2009. 
TRINDADE, Garcia. Cachaça, um Amor Brasileiro, História, Fabricação, Receitas. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006. 

Sites consultados 
Come-se 

Fotos: 
Getty Images
Restaurante Banzeiro 
Restaurante Brasil a Gosto 
Restaurante Dalva e Dito 
Restaurante Sobá 
Restaurante Tordesilhas 
Torre Café Colonial 

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mitos e verdades sobre a seca

Mãe e filha da Comunidade quilombola de Fonseca, Manaíra (PB). Crédito: John Medcraft.
Mãe e filha da Comunidade quilombola de Fonseca, Manaíra (PB). Crédito: John Medcraft.
Portal Ultimato – Qual o nível de gravidade desta seca no Nordeste?
John Medcraft - Esta seca é gravíssima. É a pior que vi em 41 anos de trabalho aqui.
Marcos Sal da Terra - Esta é, sem dúvida, a maior seca que se tem registro no sertão. A fauna e flora são as maiores vítimas desta estiagem.
Ita Porto - A falta de chuvas em períodos prolongados como o dos últimos 3 anos é considerado um desastre ambiental, considerado um dos piores dos últimos 50 anos. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já são cerca de 1.200 cidades espalhadas em nove Estados que já declararam situação de emergência. São 22% dos municípios do Brasil e quase 10 milhões de pessoas afetadas pelas secas na região. Todos os estados que compõe o semiárido nordestino estão passando por grandes dificuldades. Pernambuco, por exemplo, é o estado com maior número de municípios atingidos. Segundo a Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento), dos 185 municípios do Estado, 151 estão com algum tipo de déficit no abastecimento. Desses, 16 estão em colapso, sendo abastecidos por carros-pipa.
Portal Ultimato – Que tipo de sofrimento as pessoas estão vivendo?
John Medcraft - A falta de água é crítica. Patos (100.000 habitantes) sobrevive, graças a uma adutora do açude de Coremas (60 km ao oeste) que foi uma luta nossa de dez anos atrás. Mesmo assim temos água três dias sim, um dia não. Muitas cidades estão em colapso total de água e dependem de caminhões-pipa do Exército. Imaculada, onde ACEV tem uma igreja, está sem água desde janeiro. Nos sítios, quem não tem poço, precisa andar cada vez mais longe para conseguir água.
Marcos Sal da Terra – A economia quase que entrou em colapso em algumas regiões, principalmente nas bacias leiteiras. As notícias dão conta, por exemplo, que Pernambuco perdeu mais de 600 mil cabeças de gado (mortos, abatidos antes do tempo ou enviados para outros estados da Federação que não estão padecendo com a seca).
Ita Porto - Além da falta de água, algumas regiões também enfrentam a contaminação dos mananciais pelos restos dos animais mortos pela seca, o que provoca doenças diarreicas agudas, com registro de mortes de crianças e idosos. Outro problema é o aumento dos preços dos alimentos, sobretudo aqueles oriundos da agricultura. Com a morte de plantas frutíferas e dos rebanhos de animais, há perda da produção agrícola e diminuição do fornecimento de alimentos. Na pecuária, de acordo com a Associação Municipalista de Pernambuco (AMUPE), a seca já provoca prejuízos da ordem de R$ 1,5 bilhão na pecuária.
Portal Ultimato – Os Governos têm ajudado, de verdade, a enfrentar a seca deste ano?
John Medcraft - Aqui na Paraíba tem sido a seca melhor administrada que já vi. O Exército administra a distribuição de água nos sítios, com fiscalização transparência. Os governos federal, estadual e municipal estão reativando poços velhos e perfurando novos. O governo estadual tem distribuído ração animal subsidiada para, pelo menos, ajudar os pequenos produtores. A bolsa família pelo menos ajuda o sertanejo a sobreviver.
Marcos Sal da Terra - Esperar que os governos ajudem de verdade é uma atitude infantil. A gente sabe que existe a “indústria da seca”, a barganha eleitoral (voto por água, por exemplo), que situações de calamidades e emergenciais favorecem a corrupção. Porém não se pode negar que ações pontuais têm minorado os flagelos que são comuns à estiagem no sertão (caminhões-pipa, Bolsa Família etc).
Ita Porto - Algumas atitudes emergenciais têm sido realizadas pelo Governo Federal como o fornecimento de água através da Operação Carro-Pipa. São 835 cidades, em nove estados, totalizando quase quatro milhões de pessoas. Existem investimentos para construção de reservatórios de água como barragens, cisternas, perfurações de poços, dentre outras ações emergenciais de enfrentamento à seca (confira no Observatório da Seca. Da mesma forma os governos estaduais e municipais têm contribuído de acordo com a sua capacidade de recursos.
Portal Ultimato – No imaginário brasileiro, a seca está muito ligada à região Nordeste. E junto com ela, há toda uma “cultura da seca”. Que mitos ou ideias falsas o brasileiro tem da seca e de suas vítimas? O que é verdade e o que é mentira?
John Medcraft –
1. “Os nordestinos são coitadinhos ou preguiçosos”. O nordestino sertanejo que eu conheço e com convivo há mais de 40 anos levanta ainda no escuro e trabalho num sol escaldante durante longas horas cada dia. Não há mais preguiçosos aqui de que em outros lugares – acredito muito menos. Quanto a coitadinhos, esta imagem vem da exploração de imagens de miséria por organizações, inclusive evangélicas, que faturam com isso para si.
2. “Deus é um culpado pela seca”. A seca é um fenômeno natural. Alguns dizem que ela é causada por um pecado específico; outros que é causada pela idolatria (como se apenas no Nordeste houvesse idolatria). Se chove tanto no Rio de Janeiro e em São Paulo, ninguém deve pecar por lá então!
3. “A seca é a maior inimiga do sertanejo”. Que a seca complica a vida, é verdade. Mas aprendemos cada vez mais a conviver com ela cada e a nos organizar para enfrentar a próxima. Lutamos para uma melhor distribuição da água e que a transposição do Rio São Francisco chegue às pessoas certas e aos centros que mais precisam.
Marcos Sal da Terra - O grande mito é tentar “combater a seca”. Seca não se combate. O sertão é seco e continuará com índices de precipitação pluviométricas muito baixos; este é o nosso clima. O que tem que ser feito é a adoção de políticas públicas e de convivências com a seca. A transposição do São Francisco é um grande exemplo desta realidade. O que era para ser um grande benefício para tanta gente, virou uma vergonha nacional.
Ita Porto - A seca está realmente ligada à região Nordeste do Brasil; isso é fato, consequência de um fenômeno ambiental natural, considerada uma catástrofe natural. Com as mudanças climáticas, no entanto, essa realidade vem deixando de ser um “privilégio” apenas da região Nordeste. No nosso caso, temos percebido que a maioria do nosso povo, devido a forma dos líderes governar os municípios, tem abandonado a cultura da convivência a partir do conhecimento acumulado de convivência com o semiárido pelos nossos antepassados. Esses conhecimentos foram (ou estão sendo) esquecidos por esse povo. Por exemplo, diminuímos a capacidade de plantio, migramos para as cidades, aumentamos o consumo de água como se vivêssemos em uma região que tem muita oferta de água. A seca está tendo um impacto maior, pois perdemos essa resiliência. Antigamente as pessoas guardavam queijo nas paredes para comer, hoje é melhor comprar do que produzir o alimento. Perdemos essa capacidade de convivência. Tínhamos animais adaptados ao ambiente. Nossos rios não eram devastados, hoje os rios não tem a capacidade de guardar água como antigamente. Para nós, perdemos a capacidade de viver nessa região, pois colocaram na nossa cabeça que o bom é viver na cidade.
O gado também sofre com a seca. Crédito: Acervo Diaconia.
O gado também sofre com a seca. Crédito: Acervo Diaconia.
Portal Ultimato – Como expressar o amor de Jesus no meio de tanto sofrimento?
John Medcraft - Há tantas maneiras! O essencial é trabalhar com comunidades perfurando poços e, onde for possível, criando hortas onde a água for suficiente e de qualidade. Demonstrar o amor de Jesus em coisas práticas assim torna a fé visível. Ainda se pode ensinar comunidades a criar abelhas, melhorar criação de cabras e coisas assim. O melhor é ajudar as comunidades a criar sua própria renda e cultivar seu próprio alimento, mas quando isso não é possível as cestas básicas devem ser distribuídas, de forma emergencial, dentro das possibilidades de cada instituição.
Marcos Sal da Terra - É simples, façamos o que Jesus ensinou: “Dai-lhe vós de comer” (Lc 9.13). O problema é convencer uma igreja já acostumada a pedir, que também assuma a responsabilidade de dar.
Ita Porto - Jesus Cristo, em toda sua trajetória de vida e missão, nos ensinou (e ainda ensina) a enxergar os problemas da sociedade através da convivência (discipulado) com as pessoas. Seus milagres são relatados sempre do ponto de vista de alguém que se deu ao trabalho de sentir o sofrimento alheio, se misturando na multidão de pessoas que o seguiam. O amor de Jesus pode ser expresso por meio do envolvimento das pessoas com a problemática que estamos vivenciando nos últimos três anos. Somos convidados e convidadas a nos solidarizarmos com as pessoas e, em um contexto de emergência que estamos vivendo com essa seca. Isso pode significar envolver-se na luta por melhoria da qualidade de vida das pessoas que enfrentam o desafio de conviver com esse fenômeno climático. Envolver-se nos espaços de políticas públicas e cobrar a melhor aplicação dos recursos também é uma forma de lutar junto de quem precisa e revelar o amor de Jesus, proporcionando justiça social.
Portal Ultimato – Você vê com bons olhos a participação das igrejas evangélicas na luta contra a seca?
John Medcraft - Igrejas evangélicas que não participam desta luta vão ter que responder diante de Deus. Deus nos coloca em nossas comunidades para sermos “sal e luz”. Pregar é bom, é essencial, mas fazer vista grossa quanto ao sofrimento do próximo é pecado grave. As igrejas evangélicas grandes e ricas de outras regiões precisam entender que estamos no meio de uma catástrofe lenta e discreta; não chama atenção como uma enchente, mas tem efeitos devastadores. Estas igrejas precisam trabalhar junto com instituições sérias e transparentes que fazem auditorias independentes e têm experiência em agir no sertão. Todo cuidado é pouco com os exploradores do momento.
Marcos Sal da Terra - Como na história do aleijado que foi colocado na presença de Jesus, por alguns homens, através de um buraco feito no telhado da casa (Mc 2), vivemos a mesma realidade no sertão. Apenas a exceção se envolve, de forma prática, com a nossa gente.
Ita Porto - Nosso grande desafio é fazer com que as igrejas evangélicas compreendam sua importância e grande potencial no contexto do desenvolvimento social. Nosso convite é que as igrejas se sintam desafiadas a, junto conosco, ocuparmos os espaços de controle social, propondo ações de justiça social e ambiental e, nesse caso, colaborando com as ações de transformação cultural de enfrentamento dos efeitos da seca no Nordeste. Já temos tido bons resultados junto a igrejas parceiras que tem se levantado para lutar em favor de ações de convivência com o semiárido, envolvendo-se em audiências públicas, conscientização da sociedade, numa visão de missão integral.
Menino brinca em região seca de Pernambuco. Crédito: Alison Worrall.
Menino brinca em região seca de Pernambuco. Crédito: Alison Worrall.
Portal Ultimato – A seca tem um “lado positivo”?
John Medcraft - O lado positivo da seca é, como dizia Dom Helder Câmera, que ela é um desafio que faz a vida interessante. Ela nos estica a buscar soluções novas como, por exemplo, dessalinizar água salobra de poços com o mínimo possível de prejuízo ao meio ambiente.
Marcos Sal da Terra - Vemos nela a soberania de Deus. Apesar dos nossos pecados, Ele nos permite “continuar vivos pra contar a história”.
Ita Porto - Sim. As famílias tem se preocupado em se precaver com armazenamento de alimentos a partir do aprendizado das dificuldades enfrentadas pelos anos de seca. Essa pode ser uma oportunidade para, em longo prazo, voltarmos à cultura de convivência com a seca.
Portal Ultimato – Conte-nos alguma história de superação que você viu ou ouviu.
John Medcraft - A ACEV fez um poço nesta seca com uma comunidade quilombola em Manaíra (PB). Era uma comunidade isolada que, além de sofrer com o grave problema da falta de água, ainda sofria terríveis preconceitos raciais. Na terceira tentativa, conseguimos ajudar a comunidade a perfurar um poço que deu água e então bombear a água do vale onde fica o poço para o alto da serra onde a comunidade reside. Presenciei todo este processo e luta. Vi as lágrimas de alegria, a esperança renovada e a autoestima do povo começando a ser restaurada. “Se alguém está em Cristo é verdadeiramente livre”!
Marcos Sal da Terra – Uma comunidade caminhava 18 quilômetros a pé para buscar água (barrenta e salobra), apesar de dispor de cisternas em suas casas, mas que nunca haviam sido abastecidas pelo governo. Lá, uma igreja cavou um poço que custou R$ 7.900. Hoje a comunidade tem 36 mil litros d’água por hora.
Ita Porto - Seu Antonio Magalhães é agricultor e mora na Comunidade Carnaúbinha, na cidade de Afogados da Ingazeira, Sertão do Pajeú (PE). Ele e sua família são assessorados por Diaconia há cerca de 10 anos e desenvolvem estratégias de convivência com a seca, como a reutilização da água usada no trabalho doméstico, o uso inteligente da silagem para armazenar alimento humano e animal. Seu Antonio também gerencia um Banco de Sementes Comunitário que existe há 13 anos com sementes nativas que beneficiam a família dele e a comunidade. Ele cultiva um banco de proteínas com variedades de plantas forrageiras como gliricídia, leucena, palma, feijão guandu, sorgo forrageiro, dentre outras. Essas estratégias fazem parte do resultado da ação de Diaconia junto as famílias, estimulando-as a aplicarem técnicas de convivência com o semiárido. Os silos são feitos em mutirões comunitários estimulando a organização das famílias como forma de fortalecimento político.
Portal Ultimato – Como os leitores podem ajudar seu ministério e organização na luta contra a seca?
John Medcraft - A ACEV só não faz mais poços (já fez mais de 200), só não inicia mais plantações no meio do deserto, e só não cria mais cabras, abelhas e galinhas por falta de mais recursos financeiros. A resposta é simples assim. Já temos uma equipe maravilhosa, dedicada e experiente que deseja e precisa fazer mais. O sertanejo ama o sertão e não quer sair daqui. Temos que facilitar isso e fortalecer a igreja evangélica sertaneja no processo.
Marcos Sal da Terra - O samaritano em (Lc 10) fez o que a grande maioria (representada na mesma história pelo sacerdote e levita) hoje não faz. Ele prestou atenção na situação daquele que havia sido salteado, aproximou-se dele e, cheio de íntima compaixão, pôs “a mão na massa”.
Precisamos mais do que dinheiro (o samaritano não se limitou a dar dois denários ao dono da estalagem), precisamos de gente que disponha dos seus dons e talentos, do seu tempo e do seu esforço. Precisamos menos de discurso e mais de ações. Temos uma “teologia refinada” (tantas vezes), mas uma prática cristã pífia, que não acompanha o discurso (tantas vezes). Temos um exército que tenta em vão defender a fé em Cristo, mas que não vive o que ele ensinou (e acha que isto é defesa).
“Grande é, em verdade, a seara (sertaneja e toda a sua problemática), mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara.”
Ita Porto - Ocupar os espaços de construção das políticas públicas como fóruns e conselhos de desenvolvimento. Que os líderes evangélicos possam estimular os debates sobre o poder da cidadania de seus membros junto às comunidades em que vivem.
***

Entrevistados:
John Medcraft é inglês, naturalizado brasileiro, e mora em Patos (PB). É o presidente da Ação Evangélica (ACEV), uma igreja que neste ano completou 75 anos. A ACEV trabalha em todo sertão paraibano, e também em regiões de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará.
Marcos Sal da Terra é o vocalista da banda Sal da Terra, um projeto missionário que leva a música, o serviço (alimento, água, oração, voluntários) e a Palavra de Deus para o sertão pernambucano.
Ita Porto trabalha na Diaconia, uma organização de inspiração cristã, sem fins lucrativos, que promove a justiça e o desenvolvimento social no Nordeste. A instituição enfrenta a seca com ações estruturantes que ajudam a população, de forma sustentável, a conviver com as condições de semiaridez. Marcelino Lima e Adilson Viana também colaboraram com as respostas.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dicionário de Termos Nordestinos


Como é do conhecimento de todos, uma das regiões menos evangelizadas do Brasil é o sertão nordestino. Graças a Deus, muitas Missões e Igrejas têm se esforçado para alcançar aquelas regiões com a mensagem salvífica do Evangelho.
Mesmo sendo uma parte do Brasil, pode haver alguma estranheza e pequenino choque cultural por parte mesmo de missionários brasileiros, principalmente daqueles oriundos do sul/sudeste do Brasil, e aqueles dedicados a missões de curto prazo, ao chegarem ao sertão.

Para agregar conhecimentos aos dedicados a alcançar o sertão nordestino, publicamos aqui este texto, um pequeno dicionário de termos e expressões comuns Nordeste do Brasil.


Dicionário de Termos Nordestinos - Palavras e expressões nordestinas pesquisadas e dicionarizadas pelo paraibano de Campina Grande e radicado em Maceió, Gilberto Albuquerque, a partir de textos colhidos da internet a aprofundada pela vivência pessoal. 

Para ler online ou baixar o arquivo pelo site Scribd, CLIQUE AQUI.
.



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...