quinta-feira, 10 de abril de 2008

O QUE É LINGÜÍSTCA

Lingüística (Brasil) ou linguística (Portugal) é o estudo científico da linguagem verbal humana. Um lingüista é alguém que se dedica a esse estudo. A pesquisa lingüística é feita por muitos especialistas que, geralmente, não concordam harmoniosamente sobre o seu conteúdo. Russ Rymer disse, ironicamente, que

"A lingüística é a parte do conhecimento mais fortemente debatida no mundo acadêmico. Ela está encharcada com o sangue de poetas, teólogos, filósofos, filólogos, psicólogos, biólogos e neurologistas além de também ter um pouco de sangue proveniente de gramáticos." (Rymer, p. 48, citado em Fauconnier & Turner, p. 353.)

Alternativamente, alguns chamam informalmente de lingüista a uma pessoa versada ou conhecedora de muitas línguas, embora um termo mais adequado para este fim seja poliglota.

Esforços de descrição e de regulamentação: concepções estritas de lingüística

Provavelmente, a maior parte do trabalho feito atualmente sob o nome de língüistica é puramente descritivo. Os seus autores estão procurando clarificar a natureza da linguagem sem usar juízos de valor ou tentar influenciar o seu desenvolvimento futuro. Há,também, alguns profissionais (e mesmo amadores) que procuram estabelecer regras para a linguagem, sustentando um padrão particular que todos devem seguir. As pessoas atuantes nesses esforços de "descrição" e "regulamentação" têm sérias desavenças sobre como e por quê razão a linguagem deve ser estudada. Esses dois grupos podem descrever o mesmo fenômeno de modos diferentes, em "linguagens" diferentes. Aquilo que, para um grupo, é "uso incorreto" para o outro é "uso idiossincrático" ou apenas simplesmente o uso de um subgrupo particular (geralmente menos poderoso socialmente do que o subgrupo social principal, que usa a mesma linguagem).

Em alguns contextos, as melhores definições de "lingüística" e "lingüista" podem ser: "aquilo estudado em um típico departamento de lingüística de uma universidade" e "a pessoa que ensina em tal departamento." A lingüística, nesse sentido estrito, geralmente não se refere à apredizagem de outras linguas que não a nativa do estudioso (exceto quando ajuda a criar modelos formais de linguagem). Especialistas em lingüística não realizam análise literária e não se aplicam a esforços para regulamentar como aqueles encontrados em livros como The Elements of Style (Os Elementos de Estilo, em tradução livre), de Strunk e White. Os lingüistas procuram estudar o que as pessoas fazem nos seus esforços para comunicar usando a linguagem e não o que elas deveriam fazer.

Divisões da lingüística

Os lingüistas dividem o estudo da linguagem em certo número de áreas que são estudadas mais ou menos independentemente. Estas são as divisões mais comuns:

  • fonética, o estudo dos diferentes sons empregados em linguagem;
  • fonologia, o estudo dos padrões dos sons básicos de uma língua;
  • morfologia, o estudo da estrutura interna das palavras;
  • sintaxe, o estudo de como a linguagem combina palavras para formar frases gramaticais.
  • semântica, podendo ser, por exemplo, formal ou lexical, o estudo dos sentidos das frases e das palavras que a integram;
  • lexicologia, o estudo do conjunto das palavras de um idioma, ramo de estudo que contribui para a lexicografia, área de atuação dedicada à elaboração de dicionários, enciclopédias e outras obras que descrevem o uso ou o sentido do léxico;
  • estilística, o estudo do estilo na linguagem;
  • pragmática, o estudo de como as oralizações são usadas (literalmente, figurativamente ou de quaisquer outras maneiras) nos atos comunicativos;
  • filologia é o estudo dos textos e das linguagens antigas.

Nem todos os lingüistas concordam que todas essas divisões tenham grande significado. A maior parte dos lingüistas cognitivos, por exemplo, acha, provavelmente, que as categorias "semântica" e "pragmática" são arbitrárias e quase todos os lingüistas concordariam que essas divisões se sobrepõem consideravelmente. Por exemplo, a divisão gramática usualmente cobre fonologia, morfologia e sintaxe.

Ainda existem campos como os da lingüística teórica e da lingüística histórica. A lingüística teórica procura estudar questões tão diferentes sobre como as pessoas usando suas particulares linguagens conseguem realizar comunicação, quais propriedades todas as linguagens têm em comum, qual conhecimento uma pessoa deve possuir para ser capaz de usar uma linguagem e como a habilidade lingüística é adquirida pelas crianças.

A linguagem no tempo

Os lingüistas podem ser divididos entre os que estudam a linguagem em um dado ponto do tempo (geralmente o presente, lingüística sincrônica) e aqueles que estudam sua evolução através do tempo (lingüística diacrônica); séculos, por vezes.

Geralmente, os lingüistas de um campo acham que o outro campo é menos interessante e fornece menos possibilidade de compreensão dos problemas da linguagem.

A lingüística histórica, dominante no século XIX, tem por objetivo classificar as línguas do mundo de acordo com suas afiliações e descrever o seu desenvolvimento histórico. Na Europa do século XIX, a lingüística privilegiava o estudo comparativo histórico das línguas indo-européias, preocupando-se especialmente em encontrar suas raízes comuns e em traçar seu desenvolvimento. Nos Estados Unidos, onde começou a se desenvolver, no final do século XIX, houve uma concentração sobre a documentação de centenas de línguas nativas que foram encontradas na América do Norte.

A preocupação com a descrição das línguas espalhou-se pelo mundo e milhares dessas foram analisadas em vários graus de profundidade. Quando esse trabalho esteve em desenvolvimento no início do século XX na América do Norte, os lingüistas se confrontaram com línguas cujas estruturas diferiam fortemente do paradigma europeu, mais familiar, de forma que começaram a aperceber-se de que necessitavam desenvolver uma teoria da estrutura das línguas e métodos de análise.

Fora de tais preocupações, desenvolveu-se o campo conhecido como lingüística estrutural, cujos pioneiros são Franz Boas, Edward Sapir e Leonard Bloomfield.

Para a lingüística histórico-comparativa ser aplicada a línguas desconhecidas, o trabalho inicial do lingüista era fazer sua descrição completa. A linguagem verbal era, geralmente, vista como consistindo de vários níveis, ou camadas, e, supostamente, todas as línguas naturais humanas tinham o mesmo número desses níveis.

O primeiro nível é a fonética, que se preocupa com os sons da língua sem considerar o sentido. Na descrição de uma língua desconhecida esse era o primeiro aspecto estrutural a ser estudado. A fonética divide-se em três: articulatória (que estuda as posições e os movimentos dos lábios, da língua e dos outros órgãos relacionados com a produção da fala (como as cordas vocais); acústica, que lida com as propriedades das ondas de som; e auditiva, que lida com a percepção da fala.

O segundo nível é a fonologia, que identifica e estuda os menores elementos distintos (chamados de fonemas) que podem diferenciar o significado das palavras. A fonologia também inclui o estudo de unidades maiores como sílabas, palavras e frases fonológicas e de sua acentuação e entoação.

No nível seguinte, são analisadas as unidades com as quais as palavras são montadas, os "morfemas." Esses são as menores unidades da gramática: raízes, prefixos e sufixos. Os falantes nativos reconhecem os morfemas como gramaticalmente significantes ou significativos. Eles podem freqüentemente serem determinados por uma série de substituições. Um falante de inglês reconhece que "make" é uma palavra diferente de "makes", pois o sufixo "-s" é um morfema distinto. Em inglês, a palavra "morfeme" consiste de dois morfemas, a raiz "morph-" e o sufixo "-eme"; nenhum dos quais tinha ocorrência isolada na língua inglesa por séculos, até "morph" ser adotado em lingüística para a realização fonológica de um morfema e o verbo "to morph" ter sido cunhado para descrever um tipo de efeito visual feito em computadores. Um morfema pode ter diferentes realizações (morphs) em diferentes contextos. Por exemplo, o morfema verbal "do" do inglês tem três pronúncias bem distintas nas palavras "do", "does" (com o sufixo "-es")e "don't" (com a aposição do advérbio "not" em forma contracta "-n't"). Tais diferentes formas de um morfema são chamados de alomorfos.

Os padrões de combinações de palavras de uma linguagem são conhecidos como sintaxe. O termo gramática usualmente cobre sintaxe e morfologia, o estudo da formação da palavra. Semântica é o estudo dos significados das palavras e das construções sintáticas.

Escolas importantes de pensamento em linguística

Na Europa houve um desenvolvimento paralelo da linguística estrutural, influenciada muito fortemente por Ferdinand de Saussure, (1857 -1913), um estudioso suíço de indo-europeu cujas aulas de lingüística geral, publicadas postumamente por seus alunos, deram a direção da análise lingüística européia da década de 1920 em diante; esse enfoque foi amplamente adotado em outros campos sob o termo "estruturalismo" ou análise estruturalista. Ferdinand de Saussure também é considerado o fundador da semiologia.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Leonard Bloomfield e vários de seus alunos e colegas desenvolveram material de ensino para uma variedade de línguas cujo conhecimento era necessário para o esforço de guerra. Este trabalho levou ao aumento da proeminência do campo da lingüística, que se tornou uma disciplina reconhecida na maioria das universidades americanas somente após a guerra.

Noam Chomsky desenvolveu seu modelo formal de linguagem, conhecida como gramática transformacional, sob a influência de seu professor Zellig Harris, que por sua vez foi fortemente influenciado por Bloomfield. O modelo de Chomsky foi reconhecidamente dominante desde a década de 1960 até a de 1980 e desfruta ainda de elevada consideração em alguns círculos de lingüistas. Steven Pinker tem se ocupado em clarificar e simplificar as idéias de Chomsky com muito mais significância para o estudo da linguagem em geral.

Da década de 1980 em diante, os enfoques pragmáticos, funcionais e cognitivos vêm ganhando terreno nos Estados Unidos e na Europa. Umas poucas figuras importantes nesse movimento são Michael Halliday, cuja gramática sistêmica-funcional é muito estudada no Reino Unido, Canadá, Austrália, China e Japão; Dell Hymes, que desenvolveu o enfoque pragmático "A Etnografia do Falar"; George Lakoff, Len Talmy, e Ronald Langacker, que foram os pioneiros da lingüística cognitiva; Charles Fillmore e Adele Goldberg, que estão associados com a gramática da construção; e entre os lingüistas que desenvolvem vários tipos da chamada gramática funcional estão Simon Dik, Talmy Givon e Robert Van Valin, Jr.

Outros importantes ou notáveis lingüistas e semióticos são:

Falantes, comunidades lingüísticas e os universais da lingüística

Os lingüistas também diferem em quão grande é o grupo de usuários das linguagens que eles estudam. Alguns analisam detalhadamente a linguagem ou o desenvolvimento da linguagem de um dado indivíduo. Outros estudam a linguagem de toda uma comunidade, como por exemplo a linguagem de todos os que falam o Black English Vernacular. Outros ainda tentam encontrar conceitos lingüísticos universais que se apliquem, em algum nível abstrato, a todos os usuários de qualquer linguagem humana. Esse último projeto tem sido defendido por Noam Chomsky e interessa a muitas pessoas que trabalham nas áreas de psicolingüística e de Ciência da Cognição. A pressuposição é que existem conceitos universais na linguagem humana que permitiriam a obtenção de importantes e profundos entendimentos sobre a mente humana.

Fala versus escrita

Alguns lingüistas contemporâneos acham que a fala é um objeto de estudo mais importante do que a escrita. Talvez porque ela seja uma característica universal dos seres humanos, e a escrita não (pois existem muitas culturas que não possuem a escrita). O fato de as pessoas aprenderem a falar e a processar a linguagem oral mais facilmente e mais precocemente do que a linguagem escrita também é outro fator. Alguns (veja cientistas da cognição) acham que o cérebro tem um "módulo de linguagem" inato e que podemos obter conhecimento sobre ele estudando mais a fala que a escrita.

A escrita também é muito estudada e novos meios de estudá-la são constantemente criados. Por exemplo, na intersecção do corpus lingüístico e da lingüística computacional, os modelos computadorizados são usados para estudar milhares de exemplos da língua escrita do Wall Street Journal, por exemplo. Bases de dados semelhantes sobre a fala já existem, um dos destaques é o Child Language Data Exchange System ou, em tradução livre, "Sistema de Intercâmbio de Dados da Linguagem Infantil".

Estudos inspirados no cérebro

Psicolingüística e neurociência fazem pesquisa lingüística centrada no cérebro.


Fonte:

www.tiosam.com/enciclopedia

Um comentário:

Marisol disse...

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