terça-feira, 27 de março de 2012

Tráfico de órgãos em Bangladesh: um grotesco tipo de exploração de humanos, nunca visto na história


Por Bernardo Staut 

Um antropólogo da Universidade Estadual de Michigan, que passou mais de um ano infiltrado no mercado negro de rins humanos, publicou o primeiro estudo de campo que descreve as terríveis experiências que as pessoas mais pobres passam, devido ao tráfico de órgãos.

Monir Moniruzzaman entrevistou 33 pessoas que venderam seus rins, em Bangladesh, e descobriu que eles tipicamente não recebem o dinheiro prometido e ainda carregam sérios problemas de saúde, que os deixam deprimidos, envergonhados e algumas vezes sem poder trabalhar.

Moniruzzaman comenta que as pessoas que vendem seus órgãos são exploradas por pessoas desonestas. A maior parte dos receptores dos órgãos são pessoas de Bangladesh que vivem em locais como os Estados Unidos, a Europa e o Oriente Médio. Como esse tipo de comércio é ilegal, os vendedores forjam os documentos para indicar que o vendedor e o receptor são parte da mesma família.

De acordo com Moniruzzaman, médicos, hospitais e empresas relacionadas fecham os olhos para esses atos ilícitos porque acabam lucrando com isso.

A maior parte das 33 pessoas de Bangladesh teve o rim removido na fronteira com a Índia. Geralmente, o vendedor pobre e o receptor rico se encontram em um local médio, e o transplante é realizado no momento.

“Isso é um sério tipo de exploração das pessoas mais pobres. Seus corpos viram negócios para prolongar a vida dos mais ricos”, comenta o pesquisador.

O trabalho inclui as experiências de Mehedi Hasan, um jovem de 23 anos que vendeu parte do fígado para um receptor rico de da capital de Bangladesh, Dhaka. Como muitos dos residentes pobres do país, Hasan não sabia o que um fígado era. O vendedor explorou isso, e disse que faria Hasan rico.

O receptor morreu pouco depois do transplante. Hasan recebeu apenas parte do dinheiro prometido, e agora está muito doente para trabalhar, andar longas distâncias e até respirar propriamente. De acordo com Moniruzzaman, ele pensa constantemente em se matar.

Os vendedores de órgãos geralmente conseguem suas “presas” através de anúncios falsos. Um deles, em um jornal de Bangladesh, prometia recompensar o doador de rim com um passaporte para os Estados Unidos. Moniruzzaman coletou mais de 1.200 anúncios similares para o estudo.

O comércio de órgãos está crescendo em Bangladesh, um país onde 78% da população vive com menos de dois dólares por dia (R$ 3,60). O preço médio por um rim é de 100 mil takas (cerca de R$ 2.510), um valor que tem baixado muito devido à intensa oferta.

Uma mulher anunciou que estava vendendo sua córnea para que pudesse alimentar a família. A justificativa era que precisava de apenas um olho para ver. O transplante não aconteceu, mas Moniruzzaman afirma que já houveram casos de córneas sendo vendidas.

Moniruzzaman afirma ser importante notar que a maior parte dos vendedores não fazem “escolhas astronômicas” no preço dos órgãos, pois são manipulados. Ele comenta que o mercado global de órgãos é um fenômeno relativamente recente – tornou-se possível com os avanços médicos dos últimos 30 anos, e representa uma das formas mais grotescas de exploração humana.

Para combater esse tipo de tráfico, o autor recomenda, entre outros passos:

Pressão global. Os Estados Unidos deveriam ter um papel ativo em pressionar os governos estrangeiros a entenderem o problema e acabar com os vendedores, receptores, médicos e pessoas envolvidas no negócio.
Transparência e garantia. O governo deveria garantir que todos os centros tenham registro para transplantes, e verificar a relação entre os doadores e os receptores.
Doação de órgãos após a morte. Países como Bangladesh não possuem um sistema em que as pessoas possam doar seus órgãos após morrer.
Moniruzzaman afirma que, realmente, o tráfico de órgãos não vai deixar de existir. “Mas com esforços colaborativos, podemos reduzir significativamente essa terrível violação dos direitos humanos”, diz. [ScienceDaily]

sábado, 17 de março de 2012

The Top Risks When Traveling Overseas, livro grátis dicas para você evitar se envolver em problemas durante viagens


A International Health and Travel Insurance oferece o livro grátis The Top Risks When Traveling Overseas (em inglês), com dicas e instruções para você evitar se envolver em problemas em uma viagem internacional. 


segunda-feira, 12 de março de 2012

SOMÁLIA: SARAMPO AINDA É UMA GRANDE AMEAÇA PARA A POPULAÇÃO

Devido à insegurança e a falta de autorização das autoridades da Somália, MSF não consegue realizar campanhas de vacinação em massa em diversas regiões do país

Martina Bacigalupo 
 
12 de março de 2012 – A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) alerta que o sarampo está se alastrando sem controle por diversas regiões do sul da Somália. A doença é altamente contagiosa, e as crianças são especialmente vulneráveis, sobretudo se estiverem desnutridas. Nas últimas semanas, o número de pacientes atendidos com sarampo teve um aumento significativo em alguns projetos de MSF. Muitos estavam em estado grave.

Os conflitos no sul da Somália são um fator chave para a grave situação de desnutrição no país, para a baixa taxa de cobertura de vacinação e a falta de acesso a serviços de saúde. Esses fatores acabam facilitando a dispersão de uma série de enfermidades, como o sarampo, e agravando a situação do país.  

“Nas últimas semanas, nós diagnosticamos e tratamos mais de 300 pacientes com sarampo – a maioria crianças –, nas cidades de Haramka e Marere, na região de Lower Juba Valley”, disse Silvia Colona, coordenadora de projeto no sul da Somália. “Na semana passada, nós também montamos uma unidade de tratamento contra sarampo na cidade de Kismayo, que ficou imediatamente cheia de crianças em estado grave.”

O sarampo é fatal se não for tratado, sobretudo para crianças pequenas, mas com a assistência médica adequada, a maioria dos pacientes sobrevive. “Eu sabia que ele estava com sarampo”, disse uma mãe que trouxe seu filho para a unidade de tratamento em Kismayo. “Mas eu não sabia onde podia levá-lo para receber tratamento até que meus parentes me falaram desse local.”

Infelizmente, a falta de informação e a insegurança da região estão impedindo muitas outras pessoas de receber tratamento. “Nós acreditamos que essa é só a ponta do iceberg, e que devem existir muitas outras pessoas com sarampo que não conseguem chegar as nossas instalações”, concluiu Silvia.

O sarampo pode ser prevenido facilmente por meio de vacinas, que são muito baratas. Mas a cobertura de vacinação em diversas regiões da Somália é muito baixa, e as dificuldades de logísticas e segurança não são os únicos motivos para isso. MSF tem que esperar pela autorização das autoridades em diversas regiões do país para realizar campanhas de vacinação contra sarampo. Assim que a organização conseguir autorização, as campanhas de vacinação serão uma prioridade, pois um grande número de mortes poderá ser evitado.

MSF continua oferecendo assistência médica e humanitária à população somali dentro do país e em acampamentos de refugiados no Quênia e na Etiópia. De maio a dezembro de 2011, a organização tratou mais de 95 mil pacientes com desnutrição, e vacinou mais de 235 mil crianças contra sarampo – além de tratar seis mil com a doença – em regiões onde as campanhas de vacinação são permitidas e nos acampamentos de refugiados nos países vizinhos. Em todas as instalações médicas de MSF, cerca de 540 mil consultas médicas foram realizadas. 

Infelizmente, MSF teve que reduzir suas atividades em Mogadíscio, capital da Somália, no final do ano passado, devido ao assassinato de dois profissionais da organização. Além disso, após o sequestro de outras duas profissionais da área de logística, em outubro e 2011, as atividades no acampamento de refugiados de Dadaab (destino de muitos somalis que fogem da complicada situação no país) também foram reduzidas. MSF pede a todos os somalis – aqueles da diáspora, aos líderes comunitários e especialmente às autoridades que controlam as áreas da Somália onde nossas colegas sequestradas estão detidas – que façam todo o possível para facilitar a libertação segura das duas.

domingo, 4 de março de 2012

Sem empregos e educação, milhões ficam à margem de crescimento brasileiro

Assunção do Piauí. Foto: Júlia Carneiro - BBC Brasil
Assunção do Piauí tem o 10º pior rendimento per capita domiciliar do Brasil. (Foto: Júlia Carneiro - BBC Brasil)



Ao chegar de carro por uma estrada de terra arenosa, uma placa dá as boas-vindas a Assunção do Piauí, "a capital do feijão". Mas as letras desbotadas, quase apagadas, deixam claro que a principal atividade econômica local já viu melhores dias.

Na pequena cidade, a 270 km de Teresina, as colheitas fracas estão fazendo muitos desistirem de plantar feijão.
"Aqui é assim, a gente só trabalha no escuro. Num ano dá e no outro não dá", diz a dona de casa Francisca Pereira Moreno, mãe de cinco filhos.
Depois de conversar com alguns moradores de Assunção, perguntar onde cada um trabalha parece perder sentido. Os principais empregos da cidade são na prefeitura local, mas para adultos como Francisca, que não sabe ler nem escrever, a única opção está na roça ou nos serviços domésticos. Sem alternativas, a maioria sobrevive do Bolsa Família.
"Tem que ter o Bolsa Família. Porque a renda aqui do feijão não está dando dinheiro. Dá R$ 60, R$ 70", diz Francisca.
A cidade é um dos retratos de um Brasil que ficou praticamente à margem do crescimento econômico nacional registrado nos últimos anos e que tem colocado o país próximo de economias consideradas de primeiro mundo como a Grã-Bretanha.
Apesar do recuo constante da pobreza desde o início do Plano Real, em 1994, e da emergência da classe C, na última década, o país ainda tem focos de pobreza extrema que se caracterizam por baixo rendimento domiciliar, acesso limitado a serviços como saúde e educação e poucas perspectivas de trabalho para os moradores locais.

Oportunidades insuficientes

“Com o crescimento e a geração de empregos, uma parte da população saiu da pobreza extrema. (Mas) as oportunidades não foram suficientes para todos – sobraram os com menos condições de aproveitar, como os que não tinham vínculos com o mercado de trabalho ou acesso à Previdência e à assistência social”, explicou Rafael Osório, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).
Segundo o Censo 2010, em média 8,5% da população brasileira ainda vive com renda per capita mensal de até R$ 70. Isso equivale a cerca de 16,2 milhões de pessoas – praticamente a população do estado do Rio de Janeiro.
Com 7,5 mil habitantes, Assunção do Piauí, visitada pela BBC Brasil em janeiro, teve em 2010 o 10º pior rendimento per capita domiciliar do país – uma média de R$ 137 reais, contra R$ 1.180 de São Paulo.
A taxa de analfabetismo é de quase 40% entre pessoas com 15 anos ou mais. A cidade tem quase 1.500 famílias beneficiárias do Bolsa Família.
"Muitos ficam na fila de espera (do programa) porque Assunção já extrapolou a cota que o Ministério do Desenvolvimento estipula para cada cidade", diz a assistente social Ana Alaídes Soares Câmara, que trabalha no Centro de Referência de Assistência Social da cidade.

Maria Iraneide Moreno, e Tamires. Foto: Júlia Carneiro – BBC Brasil
Cerca de 20% da população de Assunção do Piauí depende do Bolsa Família. (Foto: Júlia Carneiro – BBC Brasil)


‘O terço mais difícil’

Desde o Plano Real, a pobreza caiu 67% no Brasil, algo inédito na série estatística, disse à BBC Brasil o pesquisador Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. “Falta o último terço, que é o mais difícil da jornada.”
Para Neri, é possível que o número de extremamente pobres seja até menor do que o estimado pelo Censo, se for levada em conta a renda obtida em transações não monetárias, como trocas e agricultura familiar.
“Pelo Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios, também do IBGE), essas pessoas seriam 5,5% da população”, disse o pesquisador da FGV.
A incerteza a respeito do tamanho dessa população revela, na verdade, uma boa notícia: como o grupo de extremamente pobres está cada vez menor, eles ficam pouco representados na amostra geral dos brasileiros, explicou Rafael Osório, do Ipea.
“As pessoas extremamente pobres são mais difíceis de se investigar. Algumas sequer são achadas, não interagem com o Estado, não têm documentos, e o acesso a elas é complicado”, disse.
Além disso, a pobreza extrema não é apenas uma questão de renda: diz respeito também à falta de acesso a serviços básicos, como saneamento, moradia e educação de qualidade, e ao isolamento em relação ao mercado de trabalho.

Faltam atividades econômicas

Mas, um relatório do Ipea tenta traçar um perfil desse Brasil que demora a crescer: em 2009, 41,8% das famílias extremamente pobres eram formadas por casais com uma a três crianças; 29% eram agricultores e 34% eram inativos (não trabalhavam nem procuravam emprego).
Dados do Censo 2010 indicam que muitos desses bolsões extremamente pobres se concentram em cidades de porte mediano, de entre 10 mil e 50 mil habitantes.
“São cidades onde faltam atividades econômicas”, explicou Osório. “Muitas têm poucos atrativos para empresas e dependem cada vez mais de políticas sociais, e algumas têm um vácuo generacional (sua população economicamente ativa migra em busca de empregos).”
Mas o pesquisador ressalva que não se trata de uma população fixa e estagnada: “Uma parcela tem rendimento incerto e transita entre uma camada de renda e outra. É o caso, por exemplo, de um guardador de carro – se ele ficar doente, perde a renda (e passa a figurar entre os extremamente pobres)”.

Estratégias

Como, então, combater essa pobreza extrema?
A presidente Dilma Rousseff lançou como uma das prioridades de seu governo o programa Brasil Sem Miséria, que tem a ambiciosa meta de erradicar a pobreza extrema até 2014 e que foca as pessoas com renda per capita mensal de até R$ 70.
Iniciado em junho do ano passado, o plano contém ações que complementam o Bolsa Família, com programas para fomentar o emprego, a capacitação profissional e atividades econômicas locais, bem como o aumento da oferta de serviços públicos como saúde, educação e saneamento.
Os especialistas ouvidos pela BBC Brasil elogiam o foco estabelecido pelo programa, mas o projeto tem óbvias dificuldades em levar serviços, renda e oportunidades para as pessoas mais excluídas.
“É preciso localizar (as populações empobrecidas), levar serviços públicos, com agentes sociais. É algo mais caro, mais artesanal”, afirmou Neri, da FGV.
Para Osório, uma alternativa seria aumentar os valores pagos pelo Bolsa Família. “A maior parte dos extremamente pobres já faz parte do programa. Se aumentarem os valores, daremos um baque na pobreza.”
Mas os pesquisadores concordam que o grande estímulo para a saída da pobreza é a geração de empregos – e o desafio do Brasil é conseguir gerar vagas em áreas mais pobres justamente num momento de desaceleração econômica.
"Gerar empregos depende, em última instância, da economia", disse Osório. "E o cenário é adverso, apesar de ser o melhor caminho. Isso pode não ocorrer com a mesma intensidade do que nos anos de crescimento."

Veja Mais:

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mianmar: Razões econômicas


Monges noviços brincam enquanto um policial protege um templo budista onde moradores locais se encontram com representantes da ONU e da polícia birmanesa, em Kyauk Ka Char, Mianmar. 

O país avançou significativamente na erradicação das plantações de papoula de setembro de 2011, ameaçando a sobrevivência de agricultores pobres, que dependem da cultura de ópio para comprar alimentos. 

Com o cessar-fogo pondo fim a anos de conflitos entre o governo e insurgentes étnicos, a representantes da ONU e homens da polícia birmanesa estão percorrendo o Estado de Shan, grande produtor de ópio, para saber dos agricultores  suas necessidades de assistência. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Linguee: Um dicionário online e uma máquina de busca de traduções

Linguee nova versão

O Linguee é um dicionário inteligente que não mostra apenas a tradução de uma palavra em específico. Seu grande diferencial é dar uma ideia geral sobre o que significa uma palavra ou expressão com diversas frases de exemplo. Desta maneira é muito mais fácil entender a semântica de uma expressão, frase ou palavra.

A boa notícia é que, o que era bom, agora está melhor. O Novo Linguee conta com diversas novidades que melhoraram a interpretação de palavras, novos recursos e um visual muito mais bonito e de fácil compreensão.

A ferramenta de tradução mais eficiente da Web combina um dicionário redacional com uma máquina de busca de traduções. A notícia espalhou-se e o Linguee já é uma das startups mais bem sucedidas do último ano: a divulgação e o entusiasmo do(a)s nosso(a)s usuário(a)s resultaram em mais de 1,5 milhão de consultas diárias e fez do Linguee um dos dicionários mais utilizados do planeta!

O Linguee está com um visual muito mais moderno, além de novas funções de fácil utilização. Entre as novidades está a sugestão dinâmica de exemplos de frases traduzidas, integração e outras diversas fontes de tradução. Através desta ferramenta é possível traduzir desde palavras usuais até palavras mais complexas que poderão ser encontradas nos seus mais variados contextos de ocorrência.


Sobre o Linguee

O Linguee.com.br é um dicionário online e uma máquina de busca de traduções. Em comparação a outros dicionários online existentes, o Linguee oferece a pesquisa em cerca de mil vezes mais material bilíngue traduzido. Ele foi fundado em dezembro de 2008 após mais de um ano de desenvolvimento por Gereon Frahling e Leonard Fink. Em Maio de 2010, a versão final foi lançada online e em agosto de mesmo ano, foram incluídas as versões em português-inglês, espanhol-inglês e francês-inglês, todas mantendo o mesmo caráter único e a alta qualidade da versão alemã. O Linguee está entre os 100 websites mais visitados da Alemanha e é um dos dicionários online mais utilizados do mundo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Sobre o Projeto Vídeo nas Aldeias, que há 14 anos forma diretores cinematográficos indígenas

Vicente Carelli é antropólogo e fundador do Projeto Vídeo nas Aldeias, que há 14 anos forma diretores cinematográficos indígenas



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Quais são os êxitos do Projeto Vídeo nas Aldeias? 
A coleção de DVDs Cineastas Indígenas, com documentários dirigidos pelos índios formados pelo nosso projeto, e as obras premiadas internacionalmente (como o filme Priara Jô. Depois da Guerra, o Ovo), que levam a intimidade indígena para o público. Algo que eu nem sonhava quando comecei tudo.

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Como os índios enxergam as produções? 
Os índios, quando percebem a possibilidade da produção da imagem, se empolgam na preparação dos seus rituais e cantos mais apreciados e se lamentam por não terem imagens de seus avós. Estar na tela também torna a possibilidade de ser reconhecido mais palpável, não como um índio genérico, mas como um xavante, um kuikuro, um panará, um povo.

É diferente do que vemos na TV?
Os índios não se identificam com sua imagem na TV, sempre acham que inventam coisas ou omitem o mais importante. Nos filmes, querem mostrar o que consideram mais bonito: cerimoniais e festas. O cinema com o qual trabalhamos é o de documentar o cotidiano, o humor das pessoas, as alegrias, as broncas. É um olhar que, para além de nossas diferenças culturais, humaniza o índio, homem como a gente, que ri e se surpreende com as mesmas coisas, que adula seu filhote como a gente faria.


Saiba mais:

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Peru: Tribo recém-descoberta atira flechas contra turistas

Violência marca encontro de tribo amazônica no Peru com civilização.

[O Globo, 31 jan 12] Uma tribo de índios até há pouco totalmente isolada na Amazônia peruana começou a fazer aparições esporádicas nas margens dos rios da região e chegou mesmo a lançar flechas contra turistas que costumam fazer um roteiro ambiental na área e contra um funcionário do Parque Nacional Manu, onde ficam suas terras. Um nativo de um outro grupo, que ajudava um arqueólogo a fazer estudos na área e já teria travado algum contato com a tribo, teria sido flechado no coração e morrido.
Autoridades peruanas afirmaram ontem que estão lutando para manter eventuais visitantes longe da tribo e evitar novos problemas. O comportamento do pequeno grupo de índios mashco-piro intriga os cientistas. Aparentemente, o grupo passou a se aproximar mais da margem do rio e se mostrar mais agressivo devido a pressões impostas pelo desmatamento ilegal e a exploração de óleo e gás. Pequenos aviões da companhia de petróleo têm sobrevoado a área, no sudeste do Peru. Além disso, segundo especialistas, eles estariam se sentindo acossados por turistas que, em algumas ocasiões, teriam deixado roupas junto aos rios, como forma de atraí-los para as margens.
De acordo com ribeirinhos do estado de Madre de Dios, os índios foram vistos pela primeira vez em maio do ano passado. Em novembro, um arqueólogo espanhol que trabalha na região fez as fotos que ilustram a matéria — divulgadas ontem pela ONG Survival International e consideradas as mais detalhadas já feitas de um grupo indígena isolado, que nunca manteve contato direto com outros grupos.
— Tem havido um aumento dos conflitos e da violência contra pessoas de fora que apareçam em sua terra ancestral — afirmou, em entrevista à BBC, a pesquisadora da ONG Rebecca Spooner, lembrando que eles estariam se sentindo acossados com o comportamento dos forasteiros.
No ano passado, eles teriam disparado uma flecha sem ponta contra um guarda florestal do parque e turistas, como forma de avisar que não queriam visitas.
Para conseguir as fotos, o arqueólogo espanhol Diego Cortijo se manteve a uma distância de 120 metros e contou com a ajuda de um telescópio acoplado a uma câmara. Ele estava acompanhado do nativo de um outro grupo, Nicolas Shaco Flores, que, há 20 anos vinha tentando manter contato com a tribo, para quem costumava deixar alguns utensílios. Ele teria, inclusive, chegado a conversar com alguns deles. Cinco dias depois de as fotos serem tiradas, no entanto, Flores foi morto com uma flecha no coração. Muitos acreditam que os mashco-piro seriam os responsáveis, embora isso não esteja totalmente comprovado.
— O fato de eles se aproximaram ocasionalmente das margens para conseguir machetes e outros utensílios não significa que queiram contato e uma prova disso são os recentes atos violentos — sustenta Rebecca, que não sabe dizer quem teria matado Flores. — Já protestamos agora e no Parque Nacional de Manu não há mais turistas. Mas vamos enviar um abaixo-assinado com 150 mil assinaturas ao governo para que tome medidas também contra os madeireiros, que subornam autoridades locais para entrar.
— Ele estava com sua filha e seu genro cultivando o solo quando tudo aconteceu e só os dois conseguiram escapar — afirmou o arqueólogo, em entrevista ao jornal espanhol “El Mundo”. — Não se sabe quem o matou, mas duvido que tenham sido os indígenas do grupo que conhecia, com os quais nunca havia tido problemas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CHOMSKY, LEVY-STRAUSS E MAUSS - Pensadores e antropólogos reconhecem: é necessário que exista um Deus


Ronaldo Lidório

     A filosofia antropológica é uma das minhas áreas de interesse, sobretudo as teorias que giram em torno das formas normativas para agrupamentos sociais. Nos últimos tempos tenho lido pensadores contemporâneos que, em algum instante de suas conclusões teóricas, propuseram a não existência de Deus. Já estudava Chomsky há algum tempo e recentemente interessei-me por outras mentes brilhantes que igualmente iniciaram suas carreiras acadêmicas tentando dispensar teoricamente a existência do Eterno na formulação social humana. Minha pequena pesquisa pessoal tinha como alvo avaliar as conclusões finais em seus estudos já que todo pensador possui valores ainda inconclusivos ao longo da pesquisa. Como interessado na antropologia sinto-me atraído pelo que podemos chamar de ‘acuo filosófico’. Um momento dialético em que o pensador (ou uma sociedade pensante) conclui, mesmo com amargura e não raramente revolta acadêmica, a necessidade do Eterno sem o qual a humanidade torna-se empírica e filosoficamente inviável. Reconheço como leitor da Palavra que não há aí nenhuma luz que os conduza a Deus. Somente a Graça o faz. Entretanto há certamente uma escuridão que faz compreender o vácuo existencial sem a concepção de Deus. 
     Lendo o pensamento científico destes pensadores torna-se quase facilmente perceptível a sua divisão conclusiva em dois grupos. Aqueles que se frustram existencialmente e inconcluem suas teorias como Nietzche com seu niilismo onde se torna "negador de Deus" (1) e posteriormente (como seria diferente?) negador da vida sendo claramente influenciado pelo trauma da morte do pai, ministro luterano, já por algum tempo enlouquecido, quando ainda era criança. Ou por Kafka em seu ceticismo disfuncional onde jamais chegou a conceber sentido para a vida e vendo o mundo como "uma sociedade esquelética sem qualquer fim" (2) e sem conseguir detectar ‘a fonte da formulação deste cenário socio humano que chamamos de vida’ (3) que aparentemente era seu alvo inicial. Seguem-se a estes, outros como Derrida, Freud, atualmente Goleman e quase todos à sombra de Darwin sem mencionar Kant com seu racionalismo irônico onde diz ter "destruído Deus para depois o reinventar, apenas em benefício da necessidade teísta de Lampe, seu criado". (4) 

     O segundo grupo é formado por aqueles que, ao fim, conseguem achar humildade de espírito suficiente para concluir que, mesmo não defendendo cientificamente a existência de Deus, a vida (especialmente a humana) não poderia ser concebida sem a presença interventora do Eterno. Rendem-se, não à adoração a Deus, mas à sua necessidade, para eles próprios existirem. Dentre eles encontramos Levy-Strauss, Chomsky, Mauss e o próprio Kant, em seus arroubos de iluminação. 

     Gostaria inicialmente de destacar Noam Chomsky, um dos mais respeitados lingüistas do século XX, conhecido por sua busca axiomática das estruturas de comunicação e influente no mundo acadêmico e filosófico. Judeu, filho de um estudioso da língua Hebraica, tentou ele explicar racional e empiricamente as raízes de comunicação socio-humana quando, desenvolvendo seus principais estudos em Harvard foi tomado pela síntese teórica, óbvia ao seu ver, da ‘cognição inata’. Em poucas palavras trata-se da compreensão de que a comunicação socio-cultural foi desenvolvida antes dos agrupamentos sociais. Ou seja, toda a estrutura de comunicação humana, verbal ou semiótica, foi criada antes do ser humano se agrupar. Ele afirma que ‘a liberdade lingüística e a criatividade não são adquiridas, mas sempre existiram de forma apriorística" (5) e finalmente sucumbe reconhecendo que usuários de linguagem jamais poderiam compreender novas estruturas gramaticais sem jamais as ter encontrado na prática, o que torna a linguagem inata, e primeira, antes da dispersão social. Chomsky concluiu a necessidade do Eterno para que a humanidade pudesse se comunicar. 

     Chomsky trata também em outros estudos da aquisição da linguagem e a sua competência pressupondo a criatividade como sendo algo nascido do "estímulo/resposta" (6). Entretanto mais uma vez conclui que a linguagem, por sua estrutura socio-comunicativa, não poderia ter sido assimilada. Antes precisaria ter sido criada pré-homem. Afirma que ‘a linguagem não possui, como muitos imaginavam, um status autônomo, ..... mas sim a expressão do sujeito psicológico’ (7). Segundo o lingüista Saussure (8) ‘primeiro surgiu a parole (fala), depois a langue (estrutura gramatical)’. Garnins reconhece que ‘a fala surgiu com o primeiro homem, portanto não evoluiu com as escalas pré-humanas, e indica o dedo de Alguém que, antes do homos, já se comunicava’ (9). Mais uma vez não podemos entender aqui qualquer apologia teológica mas ver tão somente pensadores e filósofos reconhecendo a necessidade de Deus. Um acuo filosófico. 

     Claude Levy-Strauss é um dos mais renomados, e citados, antropólogos em nossos dias. Filho de pais artistas, intuitivo e acadêmico, completou sua agregation em filosofia na Sorbonne nos anos 30 e até mesmo teve uma rápida passagem por São Paulo como professor de antropologia. Sua obra clássica (As Estruturas Elementares do Parentesco) possui clara e forte influência de Mauss (que alías chegou próximo das suas conclusões chamadas ‘místicas’). Em sua tese inicial Levi-Strauss estuda o agrupamento humano em uma perspectiva evolutiva e assim esperava-se encontrar ao longo das pesquisas etnológicas uma paralela evolução dos valores humanos. Entretanto, para surpresa do racionalismo e existencialismo reinantes na época, Levy-Strauss analisa os agrupamentos humanos históricos e presentes sob a ótica de uma pesquisa empírica e conclui que os valores sócios culturais sem sombra de dúvidas eram pré-estabelecidos. Em outras palavras, o valor moral existiu antes dos agrupamentos humanos se dispersarem para a formação de grupos maiores. Utilizando o estudo antropológico de alguns axiomas gerais como o incesto ele concluiu que tais valores existiam antes da formação da sociedade alvo. Se o homem ainda não havia tido ‘história’ suficiente para, ele mesmo, desenvolver seu padrão moral e transmiti-lo a grupos posteriores, qual a raiz do padrão moral ? Não há resposta fora da pessoa de Deus. Levy-Strauss menciona que ‘...o princípio da vida não pode ser unicamente explicado por uma versão do funcionalismo (vive-se para um fim) nem tampouco empiricamente por fatos condenados a falares por si mesmos... De fato, sistemas de parentesco mantêm a natureza em xeque pois o incesto, a priori, não é um fenômeno natural, evolutivo, mas sim axiomático, pré-existente’ (10). 

     Curiosamente passei a ler um pouco mais de Mauss, que fortemente influenciou Levy-Strauss. Apesar de não possuir conclusões tão expressivas ele expõe exaustivamente o conceito de ‘mana’. ‘Mana’ para Mauss é uma inexplicável sobrenaturalidade sem a qual as sociedades tornar-se-iam inviáveis. A conclusão nesta fase inicial de Mauss foi a de unicidade. A humanidade é uma pois vivemos sob a sombra de um só ‘mana’. Chegou a esta conclusão após o estudo exaustivo etnográfico de três grupos, os Potlatch na América, os Kula no Pacífico e os Hau da Nova Zelândia. Afirmou, ao fim, que ‘passo a crer em meios necessariamente biológicos de se entrar em comunicação com Deus’ (11). Não pensemos entretanto que ‘comunicação com Deus’ provém de uma concepção teológico/revelacional. Ele jamais chegou perto disto. Entretanto reconhece que sem ‘mana’, a existência autônoma do Eterno interventor, a sociedade como existe hoje seria inconcebível pois ‘todos os grupos culturalmente definidos concordam, buscam e reconhecem submissão do invisível sobre a natureza humana’ (12). Mais uma vez enfatizo que não há apologia teológica mas sim reconhecimento da necessidade de conceber Deus, sem o qual invibializaria a própria transmissão cultural. 

     Temos aqui, portanto, uma tríade de conclusões filosóficas as quais, distintas e teóricas, desembocam na expectativa por Deus. Chomsky reconhece a necessidade de Deus para justificar a existência da comunicação pré-social e pré-evolutiva. Levy-Strauss o faz para conseguir explicar a existência de um padrão moral na raiz dos agrupamentos sociais e Mauss torna-se quase obcecado pelo ‘existente espiritual‘ que chama de ‘mana’ sem o qual a transmissão de cultura se tornaria inviável. 

     Como temos a Revelação Bíblica, que expõe um Deus existente e redentor a busca do homem não precisamos de conclusões filosóficas para fundamentar nossa fé. Entretanto faz bem à alma perceber que, mesmo na escuridão anti-teísta, homens, imagem de Deus, não conseguem parar de buscar no Eterno o Ser iniciador e mantenedor social. E isto me faz pensar que, no vácuo existencial do pecado, sob a escuridão da incredulidade e ante as hostes do inferno, a existência de Deus é a único alento perante o desespero de um homem a procura do sentido da vida, qualquer vida. Não há vida sem Deus. 

     Notas 
(1) Human All Too Human, Cambridge Univ. Press 1986 
(2) The Diaries of Franz Kafka, Peregrine 1964 
(3) Literature and Evil, G. Bataille, 1973 
(4) Crítica da Razão Prática – Grandes Filósofos, Ed. Globo 1952 
(5) Do Estruturalismo à pós modernidade, John Lechte, Difel 1994 
(6) Chomsky: Selected Readings, J. Allen, Oxford University Press. 1971 

(7) Language and Problems of Knowledge, Cambridge, MIT Press 1988 
(8) Ferdinand de Saussure, chamado de "pai da lingüística e do estruturalismo" nos círculos de Genebra no início do sec XX 
(9) Signs and System, Holdcroft, Cambridge Univ Press 1991 
(10) The Bearer of Ashes, D. Pace, Boston 1983 
(11) As técnicas do corpo, Marcell Mauss, Editora da Univ de São Paulo 1974. Na verdade Ele aqui se referia a Pascal quando afirmou instruiu: "Ajoelhe-se, mova os lábios em oração e você acreditará em Deus". 
(12) Do Estruturalismo à pós modernidade, John Lechte, Difel 1994 
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