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quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Países Divididos - A natureza desigual da propagação do evangelho e suas oportunidades e desafios

Ted Esler

Via https://tedesler.substack.com/p/split-countries 

À medida que a Missio Nexus se aprofunda no universo do Um Terço de Nós, tenho refletido um pouco mais sobre por que os não alcançados continuam sendo um desafio tão grande para o movimento missionário global. Recentemente, estive refletindo sobre o desafio dos "países divididos", que nos oferece uma perspectiva única sobre alguns desses desafios.

Um "país dividido" é aquele em que as culturas não alcançadas estão geograficamente concentradas em uma parte do país, enquanto o cristianismo predomina em outra. Existem inúmeros exemplos de países divididos ao longo de uma linha geográfica que atravessa a África. Aqui estão alguns exemplos, com mapas extraídos do The Joshua Project . Escolhi esses lugares porque já viajei para as regiões não alcançadas de cada um desses países, mas também há outros exemplos.

Gana - A parte sul do país, cristianizada, reflete as estratégias costeiras do trabalho missionário de séculos anteriores. Se você visitar o sul, encontrará um forte movimento missionário. Indo para o norte, a situação muda substancialmente, e você encontrará populações muçulmanas.

Nigéria - A Nigéria é o país dividido por excelência. Populações islâmicas radicais no norte estão travando uma guerra terrorista contra a população majoritariamente cristã do sul. A Nigéria tem um movimento missionário maduro e bem liderado. Acredito que este seja um dos pontos positivos nas missões africanas. No entanto, as culturas islâmicas austeras e agressivas dificultam o trabalho dos missionários. O grupo dominante é o Hauçá-Fulani, que não foi alcançado, com pequenos focos de trabalho aqui e ali.

Chade - O trabalho missionário inicial no Chade concentrou-se nos povos que vivem na região mais ao sul. Acima deles, há um grande grupo de povos não alcançados e, por fim, uma região menos povoada, mas fortemente islâmica, no norte.

No entanto, esse fenômeno não se limita à África. Nagaland, no leste da Índia, é de longe a região mais cristianizada do país. O sul da Índia também abriga uma igreja substancial. No entanto, no norte, grandes populações islâmicas se misturam com grupos hindus, constituindo talvez o maior desafio geográfico para missões da atualidade. Essa concentração geográfica significa que os missionários indianos atravessam barreiras culturais significativas à medida que se deslocam de uma região do país para outra.

Países divididos nos oferecem um conjunto de oportunidades e desafios. Missões "culturalmente próximas" são uma estratégia que deve fazer parte da abordagem geral de qualquer equipe. Certamente, entre grupos de povos com elementos compartilhados de língua e cultura, isso faz sentido. Em situações culturalmente distantes, mas geograficamente próximas, esforços missionários mais regionalizados têm funcionado. Missionários brasileiros, por exemplo, têm se mostrado eficazes em alcançar tribos amazônicas.

No entanto, também precisamos enxergar os limites dos missionários culturalmente próximos. Muitas vezes, missionários cultural e geograficamente próximos precisam superar obstáculos que os estrangeiros não superam. Um chinês han pode enfrentar suspeitas em áreas tibetanas devido a tensões históricas, ainda mais do que o status de estrangeiro pode conferir. Um missionário de Nagaland não teria o mesmo status cultural no norte da Índia que um estrangeiro. A nacionalidade compartilhada não apaga cismas, preconceitos ou realidades históricas.

Países divididos destacam a necessidade de parceria entre missionários culturalmente (ou talvez geograficamente) próximos e missionários estrangeiros/de fora. Nos dias de hoje, em que a ênfase está nas missões indígenas, é bom parar e refletir sobre a contribuição única que os estrangeiros trazem. Os papéis podem precisar mudar, mas a realidade é que todos precisamos uns dos outros. Os riscos são altos demais para pensarmos de forma simplista sobre como podemos ver o Evangelho se espalhando em áreas difíceis.

terça-feira, 28 de julho de 2020

MISSIOLÉXICO - Criando palavras e expressões para (melhor) pensar a Missão



Ampliar e/ou melhorar a capacidade de uma língua de dizer algo é ampliar a própria capacidade intelectiva de seus usuários; novos conceitos e configurações técnicas, científicas e sócio-organizacionais (traduzindo: novas coisas, processos e fenômenos) demandam termos apropriados para sua eficaz sedimentação no universo reflexivo seja de um idioma, seja de uma disciplina em particular, ao enriquecer seu arcabouço epistemológico.

Em língua portuguesa, possuímos métodos diversos para a criação de palavras, métodos sabatinados nos ensinos Fundamental e Médio, como o leitor há de recordar: os métodos capitais da derivação e da composição, mas ainda as onomatopeias, as reduções e os métodos que foram mais explorados neste nosso exercício criativo: os hibridismos (a união de elementos de idiomas diferentes – em nosso idioma, geralmente do grego e do latim) e os neologismos, que são palavras criadas para suprir uma necessidade comunicacional em contextos específicos.

Um aviso aos navegantes: O texto aqui apresentado, claro está, é chancelado pela ludicidade e em muito também pela informalidade: o purista, antes que se ofenda, poderá considerá-lo apenas uma “brincadeira” ou no máximo um exercício despretensioso de reflexão.
É provável que muitos desses termos jamais tenham sido “usados”. Quanto à necessidade de engendrá-los, alguns me pareceram interessantes; outros, verdadeiramente úteis; outros ainda constam apenas como exercício de reflexão, como já dito. Vamos lá?

Apomissional: Apo, designativo de grande, superior (apo, apóstolo, apocalipse, apologia). Grande ideia ou ação em termos de alcance e relevância missionárias. Exemplo de ato apomissional: Distribuição de um milhão de Bíblias pela Portas Abertas na China (Projeto Pérola); impacto geral da Conferência de Lausanne. Exemplo de conceito apomissional: o conceito de Janela 10/40, proposto por Luis Bush.

Cadeia missiotróficaTrofé, comida, alimentação. Uma apropriação do termo ecológico cadeia trófica: “Cadeia alimentar” ou pirâmide sistêmica que representa a forma de sustentação da ação missionária considerada em relação a determinado indivíduo, organização, lugar, tempo, cultura. Um exemplo da cadeia missiotrófica tipicamente brasileira: Missionário é treinado com financiamento dividido entre recursos próprios, de sua igreja local, de uma agência missionária que mantém a instituição de treinamento; enviado para o campo, sobrevive em geral de ofertas de parentes e de sua igreja local. Pode ainda contar com ofertantes perenes ou esporádicos, de outras igrejas, cooptados através de visitas a estas igrejas e indivíduos, da divulgação em redes sociais etc. Ilustrativamente, comparar com a cadeia missiotrófica dos Irmãos Morávios: Indivíduo partia em missão munido de poucos recursos, e em geral jamais recebia ajuda posterior de seus enviadores.
A expressão poderia ainda referir o estudo da estrutura de sustentação e propagação do evangelho em culturas “exóticas” em relação aos nossos padrões ocidentais.

Cristão conectivo (igreja conectiva, missão conectiva): Pessoa ou instituição que, em prol do objetivo maior cristão que é levar o conhecimento de Cristo a todos os viventes, trabalha em profunda sintonia e liberalismo com outros cristãos e organizações, muitas vezes de inclinação denominacional e/ou teológica diferente da sua. Não se trata simplesmente do ecumênico, tanto no bom quanto no mau sentido que este termo carrega; é uma superação prática deste estágio, rumo a uma operacionalidade eclesial focada na ou demandada pela urgência missionária.

Cristobstar: Interpor, ser, promover obstáculos à propagação do conhecimento de Cristo (evangelização). Ex.: O governo saudita cristobstou nossos esforços. O governo chinês é o maior cristobstáculo asiático. Uma variação do conceito seria cristobstruir. Ex.: O direcionamento dos recursos da igreja para a aquisição da guitarra Fender é uma verdadeira cristobstrução.

Eklesioeirinilatria: Este termo quase cacofônico dá conta de um fenômeno que corporifica uma terrível contradição: ekklesia é o termo que em grego refere a “chamados para fora”; eirini é paz; latria é adoração. Assim, o termo refere o conjunto de “chamados para fora” que ama, adora estar “dentro”: na segurança da vida comunal da igreja, entre iguais, ou seja, em paz – ao contrário de lançar-se ao encontro do outro e à oposição que todo fiel de Cristo encontrará em sua interface com o mundo caído; patologia da pessoa ou instituição que se recusa a evangelizar e empenhar-se nos muitos processos que a ela conduzem. Horror ou desprezo pelo mundo que faz calar o amor do qual o Cordeiro o fez digno; medo cristão do mundo que supera a coragem que, como já mortos (e, logo, impossíveis de matar) temos ou deveríamos ter em Cristo. Adoração ou dependência viciosa da “paz das quatro paredes”.

Endoekklesia / endoeclesiaEndo, dentro. Igreja voltada para dentro; contradição em termos. Endoeclesismo: Relacionada ao termo anterior.

Etnópolis, etnópoleEtno, raça, etnia; pólis, cidade. Cidade polarizadora dentro de uma cultura, país ou região (regional, nacional, continental, mundial) que reúne, dentre todas de seu conjunto, a maior confluência de povos (etnias) diferentes. Ex.: Nova Iorque é a maior etnópole do mundo. São Paulo, por sua vez, reúne a maior variedade de povos diferentes dentro do Brasil. Você saberia identificar a etnópole de seu estado? Nem sempre é a capital. Remete indiretamente à estratégia paulina de plantar igrejas em grandes centros do helenismo, para com isso facilitar a propagação do evangelho.

ExomissiologiaExo, fora. Acredite, há quem creia que existam formas de vida, e inteligentes, habitando em outros planetas. A Bíblia não nega, mas também não afirma e mesmo não fala nada sobre isso (embora há quem utilize o texto de João 10.16 para considerar tal possibilidade). Agora, imagine a questão. Seres inteligentes, em suposição igualmente caídos, personagens de culturas e processos outros que não os que nós vivenciamos, e eles também necessitados de re-ligação com o Criador, através da ponte Jesus Cristo. Que corpo fantástico de conhecimentos seriam necessários para que pudéssemos levar o evangelho a tais seres? Esta é a função da exomissiologia. Mas ei, este termo não é meu, já existe e há até uma tese de mestrado sobre o tema (HOFFMANN, 2004). Fascinante, não?
Mas, agora deixe-me ir além. E se não formos nós os emissários (transmissores), mas sim os receptores tanto de um contato com alguma outra civilização planetária, quanto com uma nova (ou nova faceta da) revelação (não confundir com um novo evangelho, que é anátema) que eles nos tragam acerca da obra de Cristo? Como lidar com esse aporte? Como debater, negar, avaliar, contextualizar? Uma ciência ou disciplina à parte se faria necessária, um novo braço ou ramo da (exo)missiologia, portadora de um novo nome exatamente para diferenciar epistemologicamente os estudos: uma xenoteologia e, porque não, uma xenomissiologia. Pois em grego xeno significa estrangeiro, mas também, convidado; logo, alguém que vem a nós.

KeryssofobiaKerisso, proclamar, anunciar, tornar conhecido, e fobia, medo. Medo do chamado. Após a percepção, por parte do indivíduo (percepção que por vezes dá-se até mesmo por métodos sobrenaturais), de que Deus o está chamado para a ação missionária, um misto de terror e desespero toma conta do mesmo, que não se imagina nem capaz de cumprir o chamado, nem desejoso de abandonar seu modo de vida atual. Aquele que já viu essa rejeição fóbica atuando num indivíduo em seus níveis extremos, percebe que ela pode aparentar ou assemelhar-se mesmo a uma patologia psicológica.

KeryssotomiaKerisso, proclamar, anunciar, tornar conhecido, e tomia, cortar. Corte, interrupção ou impedimento na obra de proclamação do evangelho. Quebra da (cadeia de) proclamação.

MazetniaMazi, junto; etnia, povo. Estar junto a uma etnia; etnia de adoção. Emprega-se para aquela pessoa que recebeu/percebeu um chamado especial para (trabalhar com, interceder, amar) determinado povo (etnos). Ex.: “Os ianomâmis são minha mazetnia”.

Missioastenia: Astenia, perda ou diminuição da força física. Debilidade (após eventual período de sucesso ou regularidade) de um indivíduo, uma organização, uma cultura ou mesmo toda uma era no seu desempenho missionário.

Missiocultura: Cultura, clima, atmosfera, comovisão (de pessoa ou grupo) centrada na Missio Dei. Ex.: “Aquela igreja vive em missiocultura”.

MissiofagiaFagia, comer. Ação de (re)direcionar para outros propósitos (ou quase que literalmente alimentar-se d)os recursos (financeiros, humanos e espirituais) que Deus providenciou para serem investidos em MISSÕES. Ex.: “Aquele pastor é um missiófago”.

Missiolaetaria: Uma espécie de alegria, de contentamento no Espírito, ocasionada exclusivamente pelo cumprimento da missão; aquela conhecida e simples satisfação de “missão cumprida”, acessível a qualquer ser humano, mas aqui potencializada no indivíduo cristão pelo Espírito Santo; é uma alegria sobrenatural, e traz consigo temor e tremor; uma paz associada a um aumento da certeza, de fazer parte dos processos maiores e globais (universais) de Deus, mesmo em ação no mínimo, no local. Uma alegria eu diria quase sabática, pelo descanso equalizador que ela acarreta; um contrito, pequeno, “civilizado” êxtase.

Singularidade TavTav, Taf, última letra do alfabeto hebraico. Em filosofia, em física e em outras áreas, alguns eventos-mestres são chamados de ‘singularidade’. Por exemplo, temos a hipótese da ‘Singularidade tecnológica’: o momento em que a inteligência artificial (IA), atingindo estado superior, autoreplicável, autoaperfeiçoável, ultrapassará o que é humano, nos tornando não apenas obsoletos, mas eventualmente dispensáveis (futuro discutido em filmes como Exterminador do Futuro e Matrix).
Agora me diga: você já imaginou o que pode acontecer no momento exato em que o último povo da Terra (não pela nossa incerta contagem humana, mas pela de Deus) for alcançado? Aquele momento exato e quase mágico em que a Grande Comissão, aos olhos de Cristo o Comissionador, for finalmente concluída? Tal evento merece com certeza o epíteto de singularidade. Como nomear tal singularidade? Me pareceu por bem utilizar a última letra do alfabeto hebraico. Você poderia propor, “por que não uma Singularidade Ômega, já que Ele o Cristo é o Alfa e o Ômega?”. A razão é que tal terminologia já existe em ciência (SCHMIDHUBER, 2006, baseado em CHARDIN, 1969), designando outro fenômeno.

Xenomissiologia – Ver Exomissiologia.


Referências:

CHARDIN, Teilhard. The Future of Man. New York: Perennial, 1969.
HOFFMANN, Thomas. Exomissiology: The Launching of Exotheology. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/229646070_Exomissiology_The_Launching_of_Exotheology
SCHMIDHUBER, Juergen. Website do autorhttp://people.idsia.ch/~juergen/


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Sammis Reachers - Licenciado em Geografia, com pós graduações em Metodologia do Ensino e Gestão Escolar, é professor, escritor, promotor missionário e editor de recursos vários para servir aos esforços de conscientização e de mobilização missionárias.


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