segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Os Estados menos evangelizados do Brasil


Missões Nacionais
Pesquisa de dados por João Cruzué/Blog Olhar Cristão
Estats 

João Cruzué

Complementando a postagem anterior darei sequência às informações já obtidas dos dados coletados da publicação de 2011 do economista Marcelo Neri da CPS/FGV- Fundação Getúlio Vargas. Estes dados revelam que os estados brasileiros com o menor percentual de evangélicos (estimativamente) são Piauí, com 8,2% e Sergipe, com 10,7%. Em contrapartida, o Estado do Acre é o que possui o maior número de evangélicos: 36,64%, seguido de Rondônia, com 30,88%. Outra informação interessante são os Estados que estão abaixo da média dos 20,23%, a começar por Pernambuco, Minas Gerais...

Como é de conhecimento dos leitores, elaborei uma previsão em abril de 2009 sobre o percentual de evangélicos para o Censo de 2010. Com base nas informações colhidas na primeira metade da década passada, em que houve uma interrupção na perda de fiéis da Igreja Católica, estabeleci a estimativa de um percentual de 19% para a população evangélica. Entretanto, depois de 2003, a saída de fiéis da Igreja Católica voltou a crescer, segundo o Prof. Neri, em percentuais acentuados nos mesmos níveis da década dos. 90s.

Também como é de conhecimento geral, os agentes do IBGE não usaram um questionário padrão com um ítem específico para contagem de pessoas por religião. Aliás, isto sempre foi feito por amostragem estatística. Daí, como o resultado do item "religião" não foi ainda divulgado pelo Censo IBGE 2010, o único trabalho confiável é do economista Marcelo Côrtes Neri do CPS/FGV. Ele e sua equipe pesquisaram milhares de questionários e microdados do IBGE e chegaram à estimativa de 20,23% da população evangélica, no final de 2009.

Com base na publicação da equipde de Marcelo Neri, "Novo Mapa das Religiões no Brasil", e dos resultados da população por Estados do IBGE, elaborei a tabela acima acrescentando uma coluna para a quantidade estimada de evangélicos por estado, multiplicando o percentual da primeira fonte pela população oficial do Censo 2010, do IBGE.

Meu objetivo com esta síntese em forma de tabela é fornecer dados aceitáveis para eventuais planos de evangelização de Igrejas e Ministros, focados nas áreas menos evangelizadas. A pregação bíblica do Evangelho necessariamente leva Jesus (e não uma religião) aos que ainda não O aceitaram formalmente.

Em Cristo, 

Irmão João Cruzué 
 via http://confeitariacrista.blogspot.com/

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Diretor do Ministério da Cultura destaca 'interesse estratégico' da língua portuguesa para o Brasil



O fortalecimento internacional da língua portuguesa tem "interesse estratégico" para o Brasil, disse, nesta quarta-feira (14), o diretor de Relações Internacionais do Ministério da Cultura, Marcelo Dantas, em audiência pública promovida pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE). Ele alertou para o risco de ampliação da influência dos países que utilizam os idiomas inglês e francês, especialmente junto às nações africanas de expressão portuguesa.
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) inclui oito países em quatro continentes, reunindo cerca de 250 milhões de pessoas, dos quais quase 80% no Brasil. Nos próximos 50 anos, previu o diretor, Angola e Moçambique devem dobrar a população. Mas apenas 40% a 50% dos habitantes de Angola e cerca de 10% dos habitantes de Moçambique têm atualmente o português como língua materna. Além da influência crescente sobre esses países lusófonos de nações de língua inglesa, disse Dantas, existem organismos internacionais que tentam "boicotar o português".
- O francês e o inglês estão tentando deslocar o português na África. Se a nossa comunidade se enfraquece, o Brasil perde expressão internacional e perde mercados e contratos às vezes bilionários. Angola vai se tornar um dos países mais ricos da África. Podemos ter com eles um projeto de desenvolvimento verdadeiro, equilibrado e conjunto - afirmou Dantas, durante a audiência sobre "A criação e a implementação de um programa de colaboração e intercâmbio de conteúdos culturais entre Estados que integram a CPLP", presidida pela senadora Lídice da Mata (PSB-BA).
Televisão internacional
[Foto: Lia de Paula / Agência Senado]
 Autor da proposta de realização da audiência, juntamente com a senadora Ana Rita (PT-ES), o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), concordou com Dantas. O senador defendeu a implantação de uma televisão internacional de língua portuguesa e um maior intercâmbio entre escritores e estudantes dos países da CPLP.
- Temos que resistir à avassaladora força imperialista do inglês e, daqui a pouco, do mandarim, que vai se transformar em um idioma importante na África - alertou Cristovam.
O presidente do Instituto Cultural Brasil Plus, Túlio Gontijo Rocha, apresentou durante a audiência o projeto de uma televisão via internet para cobrir todos os países da CPLP. Ele pediu apoio aos integrantes da comissão na busca por um patrocínio cultural de R$ 5,4 milhões para colocar a emissora no ar.
Por sua vez, o gerente institucional e de negócios da TV Brasil Internacional, Phidias Barbosa, informou que os governos do Brasil e de Portugal firmaram acordo para um trabalho conjunto entre a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a Rádio Televisão Portuguesa (RTP). Porém, o acordo ainda não foi posto em prática porque existem dúvidas se a RTP virá a ser privatizada pelo novo governo português.
Integração acadêmica
A integração acadêmica entre os países de língua portuguesa foi defendida por três expositores. O reitor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afrobrasileira (Unilab), Paulo Speller, informou que a universidade, que terá campi no Ceará e na Bahia, pretende alcançar em uma primeira etapa 5 mil estudantes.
O secretário de Ciência e Tecnologia de Niterói (RJ), José Raymundo Romêo, disse que a Associação das Universidades da CPLP, que ajudou a fundar, já abriga 131 instituições, após 24 anos de funcionamento. O vice-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, Deonísio da Silva, afirmou "já estar na hora" de o Brasil assumir maior compromisso em relação aos países de língua portuguesa.
Na opinião de Ana Rita, as universidades têm cumprido "papel necessário e importante" não só na integração interna brasileira, mas também com a América Latina e os países africanos. Por sua vez, o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) sugeriu que os integrantes da comissão façam uma visita às sedes da Unilab, em Redenção (CE), e da Universidade da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR), para conhecer os primeiros resultados dessas "duas grandes iniciativas".
Marcos Magalhães / Agência Senado

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Troque sua viagem à "Terra Santa" pela Santificação de toda a Terra - Participe desta Campanha


Sammis Reachers


Desde o início da Cristandade que existe a prática de peregrinar à Terra Santa, assim como a outros ‘santuários’ cristãos. Prática esta levada a cabo notadamente por católicos romanos ao longo de séculos e séculos (uma a mais de suas centenas de práticas vazias, cal com que caiam sepulcros). Uma mistura cruel de IDOLATRIA e MERCANTILISMO. No entanto, é com tristeza e espanto que tenho visto multiplicar-se ultimamente este tipo de ‘turismo’ entre os cristãos evangélicos/protestantes brasileiros, das mais variadas vertentes: São caravanas e mais caravanas indo todos os anos para conhecer Israel.

Primeiramente, reproduzo abaixo um post que publiquei no Twitter, e que foi bastante retuitado, me incentivando a escrever este texto:

Não, não, não viaje para a Terra Santa. DEUS prefere que você invista este dinheiro em #Missões . Deixe seu sonho, viva o sonho de seu DEUS!

Irmãos, será preciso algum laivo, necessárias algumas gotas de MATURIDADE, ou qualquer criança das EBI’s de nossas igrejas sabe que isso é uma inútil vaidade, e mais, quase um ultraje ao Deus que alegamos servir, e à memória de milhares e milhares de cristãos missionários que deram tudo de si e dos seus para fazer o Evangelho avançar um centímetro, milímetro que fosse, e chegar à minha e à tua porta?

E então meu irmão? Preciso me prolongar em argumentos, destrinchar motivos e razões? Há algo a acrescentar, da parte de quem quer que seja? Há o que argumentar? Ou é tudo muito claro, muito simples, não o sendo somente para aqueles que obstinadamente não querem ver?

A obra missionária avança, mas avança a passos muito, mas muito mais curtos do que poderia, deveria! Temos material humano e dinheiro, MUITO MATERIAL HUMANO E MUITO DINHEIRO, mas não os empenhamos! Misericórdia, sobre todos nós misericórdia! Até quando dormiremos? Misericórdia! Até quando meu sonho, teu sonho reinará? Até quando o que é só meu, só teu persistirá? Quando será a vez do Outro, do Único? E aí vêm pastores e mais pastores (a cada semana um novo pastor envereda nesta empresa) promovendo caravanas para Israel? O que o Reino de Deus ganha com isso? E por que não descer até o inferno? Mais emoção e aventura, a possibilidade de encontrar pessoas queridas, e muito mais calor do que o deserto do Negueb pode ofertar!

Está então lançada a 'Campanha': troque sua viagem para Israel (ou para Ilhabela, ou para Miami) por três meses de sustento para um casal missionário transcultural em Rondônia ou Burkina Faso! Troque suas passagens aéreas por uma moto para os missionários do sertão nordestino! Troque suas estadias em hotéis 4 e 5 estrelas por apoio financeiro a escolas de formação de missionários transculturais aqui mesmo no Brasil, por sustento para vocacionados que querem estudar nestas instituições – mas não podem! Troque sua viagem de cruzeiro por meia tonelada de Bíblias – na língua que você escolher! Troque a bolsa Gucci que é o sonho de sua esposa, sua filha – por uma, duas, ou melhor, mensais ofertas para missionários brasileiros que livram a abrigam meninas vendidas pelas próprias famílias para a prostituição na Índia, Tailândia e Nepal! 

Viva os sonhos de Deus! Viva os sonhos de Deus! Enxergue finalmente que esta é a única vida verdadeira! Aceite e exulte por ter sido chamado para não ser, para esvaziar-se – para que Ele seja através de você! Perceba a gritante diferença entre os sonhos dEle e os seus, dê-se conta das vaidades e do vazio delas, do vazio delas – e de seus promotores e incentivadores! Faça a diferença e tenha certo seu Galardão Incomensurável, que lhe será entregue com honras ao mérito ao fim da única viagem verdadeira, a única que importa! Acumule tesouros que os lobos não podem rapinar – acumule no refúgio secreto o quanto puder e não puder, toneladas do único ouro que existe: ALMAS de homens salvos!

Não me agrada apontar ninguém, não sou pregador para bradar por santidade do alto de qualquer tribuna – sou só um cristão vendo que caminhamos para o nada e para sepulcros caiados, sou só um desesperado por misericórdia e por MUDANÇA!

Participe desta campanha, divulgue o texto e as imagens, republique em seu blog, site e em qualquer mídia ao seu alcance.


O $HOW TEM QUE PARAR. Uma campanha dura de roer, contra uma prática dura de engolir, por uma Missão que não pode parar!


:::: ALGUMAS FRASES PARA REFLEXÃO ::::



“Doe sua vida. Doe todo o dinheiro que puder doar, faça todo o trabalho que puder fazer, faça todas as orações que puder fazer. Doe tudo o que puder, porque por toda a eternidade, você olhará para trás e sentirá alegria por tê-lo feito.” - Bill Hybels

"A Igreja não existe para satisfazer as nossas necessidades… Nós existimos como igreja para satisfazer as necessidades dos outros." - Joel Houston

"Ah, se pudéssemos sentir-nos mais preocupados com o estado de inanição em que se encontra hoje a causa de Cristo na terra, com os avanços do inimigo em Sião (a Igreja) e com a devastação que o diabo tem efetuado nele. Mas infelizmente um espírito de indiferença vem imobilizando muitos de nós." - A.W. Pink

"Suponhamos que alguém me oferecesse mil dólares por cada pessoa que eu levasse a Cristo. Será que com isso a minha vontade de ganhar almas para Jesus seria maior do que a que tenho no momento? Se assim o for, quão mesquinha e medíocre tem sido a minha fé em Deus." - D. L. Moody

"A Igreja costumava ser um barco resgatando os que perecem. Agora, ela é um cruzeiro recrutando pessoas promissoras." - Leonard Ravenhil

"O homem verdadeiramente sábio é aquele que sempre crê na Bíblia contra a opinião de qualquer outro homem." R. A. Torrey

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

As comidas mais estranhas do mundo


Esquilo - Uganda

Rejane Borges - http://obviousmag.org/

Para muitos de nós, os itens que encontramos nos cardápios de certas regiões do mundo são incrivelmente bizarros. Assim como para muitos outros povos o simples ato de comermos hambúrgueres é uma afronta não somente à arte culinária, como também aos seus costumes e crenças. Portanto, deixando de lado os tabus culinários e as diferenças culturais, façamos uma saga gastronômica em busca das comidas mais estranhas ao redor do mundo.

Acredito que, dos cinco sentidos, o paladar é o mais pervertido: saliva, morde, mastiga, degusta e, por fim, engole. O processo gustativo é uma verdadeira viagem em busca do prazer. É demorado, sensível e engenhoso. É como fazer amor com os sabores, um a um, e ao mesmo tempo.
Mais extraordinário ainda é desenvolver tal sentido em busca das mais diversificadas experiências gastronômicas. E muitas delas vão muito além dos sabores. Em alguns lugares ao redor do mundo, o ato de se alimentar é uma experiência complexa, tanto na maneira como se prepara o alimento, quanto na maneira como se serve e se come.
As tradições culinárias de um país ou duma região são determinadas não somente por fatores geográficos, mas também pela cultura e, não raro, pela religião, fazendo da comida a identidade de um povo.

                                            Olhos de gnu cozidos envoltos no estômago do animal, Namíbia.

                                                           Placenta de vaca para venda no mercado, India.



Nas partes mais remotas do Alasca se come salmão cozido em urina de cavalo. O cozimento se dá até o peixe virar uma espécie de geleia. No México encontramos os famosos “escamoles”, considerados um manjar dos deuses no país: o prato é nada mais do que ovas de formiga.
No Vietnã, Camboja e nas Filipinas uma das iguaria é o ovo balut. São ovos de pato fertilizados com o embrião em desenvolvimento. São cozidos e servidos na casca. Também são famosos por supostamente conterem propriedades afrodisíacas. Em Cingapura o escorpião frito é vendido em atacado. O animal é fervido antes para extinguir seu veneno e depois frito em óleo quente. É vendido nas ruas e mercados.
Na China e Vietnã é muito comum a sopa de morcego. Na Coréia do Sul e Sul da China, é muito comum a sopa de cachorro.

                                                                       Testículos de cordeiro, Marrocos.


Ainda no cardápio de sopas, na culinária chinesa está uma das iguarias mais caras ao redor do mundo: sopas de ninhos comestíveis de pássaros. Esses ninhos são feitos com a saliva de alguns pássaros da família dos andorinhões. Rico em nutrientes, o ninho também pode ter propriedades medicinais. Um prato desta sopa pode ser vendido por até 150 dólares. Um quilo da especiaria custa entre 2 mil e 10 mil dólares.
No interior da Amazônia, no Brasil, come-se turu, um molusco que vive em raízes podres de árvores. Alguns povoados o comem vivo e cru. Também pode ser preparado como sopa. Em algumas regiões da África o cérebro de macaco é uma iguaria. Conserva-se em salmoura e, finalmente, é cozido com ervas.
Em partes da América do Sul, sul da África, Austrália e Camboja, a boa pedida é a caranguejeira ou tarântula frita. Já nas Filipinas, as fezes de peixe são consideradas um dos pratos de maior requinte do país.

                                                                                Embrião de Ballut.


As bebidas também entram em nossa odisséia gastronômica. Na Tanzânia, por exemplo, uma bebida típica é o sangue de vaca com leite fermentado, considerada um energético. Já na Coréia, um tônico da saúde é o vinho de ratos bebês. Os ratos ainda pequenos são colocados em uma garrafa com vinho de arroz para fermentar. Na China, bebe-se vinho de pênis de veado. O pênis do animal é jogado dentro de uma garrafa de licor e deixado lá até apodrecer. Por falar em pênis: na cidade de Pequim existe um restaurante especializado em servi-los sob todas as formas compreendidas na culinária peniana.

Especialidade da Casa
Queijo de larvas, morcegos na brasa, peixe podre desenterrado e olhos de gnu são apenas mais algumas das peculiaridades que encontramos por aí. Mas essas peculiaridades são muito mais do que comida, são cultura. Um conto que se ouve, um tempero que se joga, uma panela velha. Pronto, temos os três pilares para entender e apreciar a arte culinária de um povo: história, cultura e experiência. Posto isto, alguém aí se dispõe a experimentar?

                                                                                Estômago de porco, India.





                                                              Escorpião no camarão, California, USA.

domingo, 4 de setembro de 2011

TRADUÇÃO DA BÍBLIA PARA LÍNGUAS INDÍGENAS DO BRASIL


Realizações, Desafios e Possibilidades.

Seguindo por uma trilha, logo avistei, no sopé de uma pequena montanha, na outra margem do riacho, uma palhoça bem rudimentar. Formato retangular, cobertura e paredes de capim, sendo a metade bem fechada, sem janelas, e a outra metade totalmente aberta. De longe parecia não ter ninguém. Atravessei o riacho, de águas cristalinas e pouco profundas. Subi o barranco e então avistei a figura de um ancião indígena à minha espera. Na parte aberta da palhoça um fogo aceso. Uma criança engatinhando brincava nas proximidades. A imagem era singela. A simplicidade material e a riqueza cultural ali se misturavam. Aproximei-me e rompi o silêncio com uma das poucas expressões que conhecia naquela língua: “may xeka!” – “olá!” (literalmente “muito bom!”). Ao que o ancião prontamente me respondeu.
Logo descobri que se tratava de Totó Maxakali, um dos anciões mais antigos daquele povo. Comecei a conversar e me apresentei, enquanto vasculhava o local com um olhar discreto. De repente ele me perguntou, com um português muito limitado, se eu conhecia “Aroldo”. Entrou na palhoça e saiu com um livro cuidadosamente embrulhado num saco plástico. Desembrulhou com cuidado, mostrou-me orgulhosamente e disse: “amigo Aroldo”. Na capa estava escrito “Topa Yõg Tappet” – “O Livro de Deus”. Era um exemplar do Novo Testamento Maxakali, cuja tradução havia sido concluída vinte anos atrás. “Aroldo” é a forma aportuguesada que usam para referirem-se a Harold, o tradutor.
Harold e Frances Popovich são americanos, missionários da SIL – Sociedade Internacional de Lingüística, que vieram para o Brasil em março de 1958. Depois de alguns meses estudando o português, seguiram para o nordeste de Minas Gerais, para trabalhar com os Maxakali, chegando ali em fevereiro de 1959. Sendo o povo falante quase que exclusivamente da língua materna, o primeiro passo foi aprender a língua Maxakali. Foram os primeiros a fazer  um estudo sistemático dessa língua. Desenvolveram um alfabeto para a mesma, criaram cartilhas de alfabetização e traduziram o Novo Testamento, concluindo o mesmo em 1981, após 22 anos de árduo trabalho. Esse processo muito contribuiu para a valorização da língua e  revitalização da cultura. Dos oito grupos indígenas de Minas Gerais, os Maxakali são os únicos  que preservaram de forma efetiva a língua e suas instituições culturais. Mas o trabalho dos Popovich contribuiu também para a preservação étnica do povo, dando assistência na área de  saúde e coibindo invasões das terras por parte de fazendeiros da região. Quando ali chegaram, os Maxakali estavam em acelerado processo de extinção, reduzidos a 197 pessoas! Hoje somam mais de mil indígenas. 2
Esse é apenas um exemplo das dezenas de projetos de tradução bíblica que já foram e estão sendo desenvolvidos entre grupos indígenas em solo brasileiro.

O QUE JÁ FOI FEITO E QUEM FEZ
1
Temos atualmente no Brasil 2 Bíblias completas e 32 Novos Testamentos traduzidos para línguas indígenas. Resultado do esforço de dezenas de igrejas enviadoras, 7 agências missionárias, 66 tradutores e mais de 150 falantes nativos diretamente envolvidos no processo  de tradução. Vejamos o que os números indicam sobre todo esse trabalho.

Tradutores
Os 66 tradutores são oriundos de 6 diferentes países: 40 americanos (sendo 2 desses com nacionalidade brasileira, por serem filhos de missionários), 12 ingleses, 7 canadenses, 3 brasileiros, 3 alemães (sendo 1 com nacionalidade brasileira) e 1 colombiano. Deste quadro, 24 são solteiros, dos quais 23 são mulheres e um único homem (padre). Dos 42 tradutores casados, 34 trabalharam como casais e 8 homens se dedicaram sozinhos ao trabalho direto de tradução, via de regra estando a esposa envolvida em algum outro ministério igualmente importante como educação e saúde. No total, foram 41 mulheres e 25 homens.
Transformando estes números em percentuais, pode-se perceber que, quanto à nacionalidade 95,4% são estrangeiros, dos quais 63,5% são oriundos dos Estados Unidos da América. Quanto ao estado civil 51,5% são casados e quanto ao sexo 60,7% são mulheres. Isto nos mostra que os projetos de tradução até então concluídos foram feitos quase que exclusivamente por força missionária estrangeira, com uma grande participação de missionárias solteiras e também muitas famílias missionárias envolvidas.

Organizações
Das 7 organizações missionárias envolvidas, 1 é estrangeira (SIL) e as demais brasileiras: MNTB – Missão Novas Tribos do Brasil, MEVA – Missão Evangélica da Amazônia, MICEB – Missão Cristã Evangélica do Brasil, ALEM – Associação Lingüística Evangélica Missionária, JAMI – Junta Administrativa de Missões da Convenção Batista Nacional e a missão católica Salesiana. Entretanto, 26 das 34 traduções foram gerenciadas pela SIL, seguidas de 3 traduções da MNTB, 2 da MEVA, 1 da parceria MICEB e SIL, 1 da parceria ALEM e JAMI e 1 dos Salesianos. Portanto, 76,5% vem de força estrangeira. Entre as  agências nacionais há uma saudável tendência a parcerias. 3 Tempo investido nas traduções Das 34 traduções de Novos Testamentos, 2 foram feitas entre 8 e 9 anos, 8 entre 11 e 20 anos, 10 entre 21 e 29 anos, 11 entre 31 e 38 anos e 3 entre 41 e 46 anos. Contando da chegada do primeiro missionário tradutor ao campo até o momento da publicação, a média geral é de 26,5 anos de trabalho. Estão incluídos aqui os intervalos no processo de tradução, por motivos como férias, licença por problemas de saúde e ausências do campo por proibições políticas. O Novo Testamento mais rapidamente traduzido foi o Nheengatu (8 anos) e o que gastou mais tempo foi o Xavante (46 anos). Isto não reflete a habilidade ou falta de habilidade dos tradutores, mas sim, outros elementos como a complexidade da língua, a disponibilidade de falantes nativos com facilidade em tradução e a quantidade de intervalos no processo. Desses  Novos Testamentos, 2 são adaptações: do Kaxinawa 2 do Peru (25 anos) e do Tukano da Colômbia (9 anos). As 2 Bíblias completas representam esforços continuados às traduções dos respectivos Novos Testamentos. Com a tradução do Antigo Testamento Wai-Wai, concluído em 2002, essa língua tornou-se a primeira entre as indígenas do Brasil a ter uma Bíblia completa. Foram 28 anos para traduzir o Antigo Testamento somando um total de 53 anos de trabalho para traduzir toda a Bíblia. Já o Antigo Testamento Guarani-Mbyá foi concluído em 17 anos, que somados aos 12 anos investidos na tradução do Novo Testamento totalizam 29 anos de trabalho.
Todos esses números nos mostram que o trabalho de tradução bíblica para línguas indígenas tem sido árduo, exigindo muita perseverança, paciência e dedicação. Inclusive as adaptações, que no pensar de muitos é trabalho fácil, mostram-se não tão fáceis assim.

Começos e conclusões
O primeiro trabalho de tradução para língua indígena teve início em 1949 (Wai-Wai).
Na década de 1950 outros 13 projetos foram iniciados, seguidos por mais 15 na década de 1960 e 4 nos anos setenta. Das traduções aqui em análise apenas uma teve início na década de 1990,
sendo esta de iniciativa brasileira (Tukano). A primeira tradução concluída foi em 1965 (Baniwa), seguida por outras 4 na década de 1970, 13 na década de 1980, 11 nos anos noventa e 5 nos primeiros anos do século 21.
Portanto, as décadas de 1950, 60 e 70 foram marcadas pelo maior fluxo de missionários vindo para o Brasil com projeto de tradução. No início dos anos oitenta, houve uma grande pressão por parte do governo coibindo o ingresso de novos missionários em solo brasileiro para 4 trabalho entre indígenas. Isto pode explicar esta pausa a partir da década de 1980. O esforço de tradução bíblica para línguas indígenas brasileiras tem, portanto, 56 anos de história.

Troncos e Famílias Lingüísticas
De acordo com o lingüista Aryon Rodrigues 3, as línguas indígenas brasileiras estão agrupadas em dois grandes troncos lingüísticos e em algumas famílias não agrupadas em troncos. Tronco e família lingüística são termos técnicos para indicar agrupamentos de línguas que possuem uma origem comum. É como o caso do português que pertence à mesma família lingüística do espanhol, francês e italiano, família esta chamada românica, tendo o latim como língua mãe. Digamos que são línguas irmãs. Mas a família românica é irmã da família germânica, que abarca o alemão, inglês, holandês e sueco, e da família eslava, formada pelo russo, polonês, checo e outras. Desta forma, o português seria língua prima do inglês e do russo, por exemplo. Essas três famílias lingüísticas juntas formam o tronco lingüístico indoeuropeu. O mesmo acontece com as línguas indígenas. Temos no Brasil os troncos Tupi e Macro-Jê, cada um com várias famílias lingüísticas. Temos as famílias Aruak, Karib, Tukano, Maku e outras que não se agrupam em troncos, e ainda algumas línguas isoladas que não se agrupam em nenhuma família ou tronco. Das nossas 34 traduções, 10 são de línguas do tronco Tupi, sendo 7 da grande família Tupi-Guarani e as outras três respectivamente das famílias Munduruku, Tenetehara e uma língua não classificada em família (Sateré-Mawé). Outras 9 são do tronco Macro-Jê, sendo 5 da grande família Jê e as demais respectivamente das famílias Maxakali, Karajá, Bororo e uma língua não classificada em família (Rikbaktsa). As demais 14 línguas são de famílias não agrupadas em troncos, sendo 5 da família Aruak, 4 Karib e as demais respectivamente das famílias Nambikuara, Pano, Arawá, Guaikuru e Tukano. Por fim, temos 1 tradução em língua isolada (Tikuna).
Portanto, todos os principais troncos e famílias lingüísticas indígenas já possuem traduções bíblicas. Se considerarmos que, em muitos casos, uma tradução em língua irmã serve como bom ponto de partida para uma nova tradução, temos então um bom caminho andado.

População indígena
Das 34 traduções, 7 representam povos com mais de 10 mil pessoas. 3 representam povos com 5 a 10 mil pessoas. 17 são de línguas cujas populações somam entre mil e 5 mil pessoas. E as outras 7 traduções são de povos com menos de mil pessoas. Isto aponta a tendência natural de investir esforços em direção a línguas com populações maiores. Mas 5 torna-se também desafiador, se considerarmos que cerca de dois terços dos povos indígenas do Brasil possuem menos de mil pessoas.

Regiões
Na região norte estão 18 das 34 traduções. No centro-oeste 11, no nordeste 2, outras 2 no sul e 1 no sudeste. É natural que seja assim, visto que, a grande maioria dos grupos indígenas está exatamente nas regiões norte e centro-oeste do país. E também pelo fato de grande parte dos povos do nordeste e sudeste já ter perdido suas línguas maternas, falando apenas o português. Mas pelo menos 14 dessas traduções são usadas além das fronteiras brasileiras, em países vizinhos como Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa, Suriname, Peru, Paraguai, Uruguai e Argentina. Temos também o caso de um Novo Testamento traduzido na Colômbia sendo usado em território brasileiro (Kuripako). Isto se dá pelo fato de vários povos indígenas viverem sobre as fronteiras geopolíticas do Brasil.

A Palavra em Mais de uma Língua
Desta forma, no vasto solo brasileiro, a Bíblia Sagrada é conhecida também como “Deusu JesusweTaeshu Yuba Bena Yuiniki, Hawe Unanuma” – “O Livro de Deus que, através de Jesus, nos deu novas notícias anos atrás” (Kaxinawa), “Deus Athi Kapapirani Hida” – “O Papel da Fala de Deus” (Paumari) e “Pahpãm Jarkwa” – “O Livro da Palavra Bem Respeitada do Pai de Todos Nós” (Ramkokamekrá-Canela). Deus é também conhecido como “Itukó’oviti” – “Criador” (Terena), “Nhanderuete” – “Nosso Pai Verdadeiro” (Guarani-Mbyá) e “Waptokwa Zawre” – “Nosso Grande Criador” (Xerente).

O QUE ESTÁ SENDO FEITO E QUEM ESTÁ FEZENDO 4

De acordo com Paulo Bottrel, do Banco de Dados do Departamento de Assuntos Indígenas da AMTB – Associação de Missões Transculturais Brasileiras, existe atualmente 52 projetos de tradução bíblica em andamento para línguas indígenas brasileiras. Alguns em fase final de editoração e outros em fase inicial de análise lingüística. Em alguns casos o texto bíblico já está na gráfica (como o Novo Testamento Xerente, com publicação prevista para 2006) e em outros o missionário tradutor chegou no campo há poucos meses e está aprendendo as primeiras palavras na língua. 6 O número atual de tradutores não é preciso, mas certamente soma mais de 80 missionários. Boa parte é de estrangeiros, mas a maioria já é de brasileiros. Pelo menos 8 agências missionárias estão atuando com tradução. Um percentual expressivo de projetos está sendo desenvolvido pela SIL, mas grande parte já é iniciativa de agências nacionais, como a MNTB, ALEM e MEVA. As parcerias são muitas, tanto entre as agências brasileiras como entre brasileiras e a SIL. Um fato facilmente observável é que várias agências não diretamente envolvidas com tradução fazem parcerias com aquelas especializadas na área. Os dados apontam um crescente envolvimento da igreja brasileira na tarefa de traduzir a Palavra para línguas indígenas. Devemos ser gratos aos missionários estrangeiros que aqui atuaram, pois não apenas traduziram a Bíblia para várias línguas do nosso país, mas também contribuíram em muito para o despertamento de obreiros e igrejas nacionais. Das 52 línguas alvos de tradução, 4 pertencem à grande família lingüística Jê, do tronco Macro-Jê. Outras 14 são de três famílias do tronco Tupi: Tupi-Gurani (10), Mondé (3) e Ramarama. A maioria (32) pertence a dez famílias lingüísticas não agrupadas em tronco: Arawá (10), Karib (5), Pano (4), Yanomami (4), Maku (4), Tukano, Katukina, Mura, Nambikuara e Txapakura. E ainda, 2 línguas isoladas são alvos de tradução (Aikanã e Jabuti). Isto aponta um processo já esperado. As línguas mais conhecidas e analisadas (Tupi e MacroJê) foram naturalmente as primeiras a serem alvejadas por projetos de tradução. Agora, o esforço de tradução se expande cada vez mais para línguas menos conhecidas. Um fato digno de nota é que dos 52 projetos de tradução hoje em andamento, 28 são direcionados a povos com menos de 500 pessoas e outros 11 para povos com uma população entre 500 e mil pessoas. Ou seja, 39 projetos visam línguas indígenas com menos de mil falantes. Outras 11 são línguas com mil a 5 mil pessoas, 1 com população entre 5 a 10 mil e apenas 1 com população acima de 10 mil. Novamente pode-se perceber a tendência natural de alcançar primeiro os povos maiores e avançar em um segundo momento para os menores. Destes projetos, 39 estão na região norte do país, 11 no centro-oeste e 2 no nordeste, o que também segue a realidade populacional. Como já dito, a grande maioria dos povos indígenas do Brasil, ainda falantes da língua nativa, está exatamente no norte e centro-oeste. Além dos 52 projetos de tradução do Novo Testamento, temos ainda 7 Antigos Testamentos sendo traduzidos para línguas que já têm o Novo Testamento completo. Pelo menos 3 desses projetos estão com a conclusão prevista para 2006. Geralmente, enquanto se  traduz o Antigo Testamento é feita uma revisão do Novo. 7

O QUE RESTA A SER FEITO E QUEM FARÁ
O que podemos concluir a partir dos dados acima é que muito já foi feito em termos de tradução bíblica no Brasil. É mais de meio século de história e os grupos que já têm a Palavra e aqueles que estão sendo alvos de tradução somam 86 línguas. Grande parte é resultado do esforço de igrejas, agências e missionários estrangeiros, mas a igreja brasileira também tem respondido de forma positiva nas últimas décadas ao desafio de tradução. A tradução tem contribuído para o surgimento de igrejas indígenas fortes e com liderança autóctone. Tem possibilitado que muitos indígenas conheçam a revelação divina em suas próprias línguas. Tem valorizado línguas maternas e contribuído para a preservação das mesmas. Tem sido um instrumento de revitalização cultural de muitos povos. Tem analisado e documentado línguas ainda desconhecidas. Ou seja, além do seu eterno e incalculável valor espiritual, a tradução bíblica possui também um inestimável valor cultural e científico. Como reconhece Ruth Monserrat 5, a grande maioria das análises lingüísticas entre indígenas do Brasil foi feita por missionários, em especial da SIL. Isto fica igualmente evidente na obra clássica sobre línguas indígenas do Brasil, “As Línguas Brasileiras”, do professor Aryon Rodrigues,
considerado pai da lingüística brasileira. Nas 57 notas de rodapé do seu livro, ele cita a SIL 68 vezes. Das 314 fontes pesquisadas, 109 são da SIL, sem contar as dezenas de artigos, dissertações e teses de missionários da SIL publicados em revistas de lingüística e antropologia em várias universidades do Brasil e exterior. Mas apesar do muito que já foi feito, temos ainda um grande desafio pela frente. De acordo com a pesquisadora Bárbara Grimes 6, são faladas no Brasil cerca 185 línguas indígenas. Como já exposto, 34 já possuem a Palavra traduzida e outras 52 têm um projeto de tradução em andamento. Os Kuripako usam o Novo Testamento traduzido para a sua língua na Colômbia e outros 7 povos usam Novos Testamentos traduzidos para línguas parentes e mutuamente inteligíveis. É o caso dos Katuena, Mawayana e Xereu que fazem uso da Bíblia Wai-Wai por
compreenderem aquela língua. Portanto, restam pelo menos 91 línguas sem tradução da Palavra de Deus. Destas, 15 já foram investigadas e a conclusão é que carecem de tradução. As
demais precisam ainda ser investigadas, mas certamente grande parte das mesmas é igualmente carente de tradução bíblica. Estima-se que tenha no Brasil algo em terno de 30 milhões de evangélicos, distribuídos em cerca de 188 mil igrejas locais 7. Bastaria então que cada 600 mil evangélicos ou que cada 3.760 igrejas locais se responsabilizassem por uma língua. Poderíamos até concluir que no caso da tradução bíblica para línguas indígenas do Brasil a seara é pequena para tantos 8 trabalhadores! Mas sabemos que isto é simplismo e a situação não é bem assim. Mesmo sendo um número mensurável, o desafio continua sendo grande se considerado o despertamento ainda insuficiente da igreja brasileira para esta área e os desafios que envolvem uma tradução.

Treinamento Missionário
Antes de iniciar uma tradução é preciso analisar a língua de forma profunda. Segundo o lingüista-tradutor Norval da Silva 8, deve-se começar pela análise fonética para perceber quais são os sons, seguindo com a análise fonológica para compreender como os sons se articulam,  passando pela análise morfológica para compreender a estrutura interna das palavras, alcançando a análise gramatical para compreender como as palavras são articuladas na formação de orações, até chegar no nível do discurso para compreender as diferentes formas discursivas da língua. Portanto, além do caráter cristão bem moldado e um chamado consciente, um tradutor precisa de uma boa formação lingüística com ênfase em tradução. Temos hoje no Brasil basicamente três centros de formação missionária que oferecem treinamento lingüístico: MNTB, ALEM e JOCUM. Mas o treinamento lingüístico apenas não é suficiente. É preciso ainda um bom treinamento na área teológica com ênfase em exegese e missiológica com ênfase em antropologia. Isto demanda tempo e investimento.

Tradução e Evangelização
Dos 258 povos indígenas brasileiros, 133 possuem presença missionária evangélica e 20 possuem igrejas com liderança autóctone. Destas 20 igrejas autóctones, 14 possuem o Novo Testamento traduzido para suas línguas e as outras 6 têm acesso ao texto bíblico em alguma língua compreendida pelo povo. Em contrapartida, dos outros 20 povos com tradução bíblica em suas línguas, pelo menos 12 permanecem sendo um desafio missionário em termos de evangelização. Alguns por
terem sido alcançados de forma insuficiente e outros por permanecerem ainda sem nenhuma comunidade cristã local. Os demais 8 povos já foram alcançados mas ainda não possuem liderança autóctone. Isso deixa claro que é possível traduzir a Bíblia sem plantar igrejas, mas é quase impossível plantar uma igreja forte e com liderança própria sem viabilizar o uso da Bíblia na respectiva língua do povo. Grande parte dos tradutores não consegue conciliar tradução e evangelização, devido a intensidade do trabalho. Na maioria dos casos, quando tem Bíblia mas não tem igreja, o interesse pela mesma é muito pequeno, por não ser vista como algo da cultura. 9

Tradução e Educação
O lingüista-tradutor Ronaldo Lidório 9 chama-nos a atenção para outro desafio, relacionado à educação. A tradução desvinculada da alfabetização na língua materna tem resultado em alguns Novos Testamentos para não leitores no Brasil. Isto não aponta falta de cuidado ou estratégia dos tradutores, mas sim a impossibilidade de às vezes conciliar tanto trabalho. Tem surgido bons cursos de educação bilíngüe nos centros de treinamento missionário, mas faz-se necessário maior investimento e conscientização desta necessidade. Tanto o desafio da evangelização como o da educação, evoca a necessidade de enviar equipes, onde cada missionário se dedique a áreas específicas. Mas esta visão deve passar pelas agências missionárias e alcançar as igrejas, para que haja um avanço efetivo nesta direção.

Possibilidades
Tem-se visto nos últimos anos um crescente interesse por tradução bíblica no Brasil. A cada ano novos vocacionados se inscrevem em cursos de lingüística e tradução. Porém, a ida efetiva para o campo não tem se concretizado na maioria dos casos. Isto aponta para uma conscientização ainda insuficiente da igreja brasileira, incluindo seus seminários e agências missionárias. Enquanto isto, a força missionária estrangeira continua ativa, porém, diminuindo.  E ainda não temos notícias de um envolvimento efetivo de tradutores indígenas. O lingüista-tradutor Isaac de Souza 10 classifica a caminhada missionária em direção aos indígenas do Brasil em três “ondas”: estrangeira, nacional e indígena. A onda estrangeira já fez  e tem feito a sua parte. Devemos sempre louvar a Deus pelos muitos missionários estrangeiros que recebemos em nosso país. A onda nacional pode e deve assumir de forma mais consciente o desafio da tradução bíblica em terra brasileira. Mas há lugar também para a onda indígena. Como sugere o líder indígena Henrique Terena 11, os próprios indígenas podem ser um braço forte nesta ação missionária em direção aos povos minoritários do nosso país. O CONPLEI – Conselho de Pastores e Líderes Evangélicos Indígenas, já conta hoje com 1.200 associados. Portanto é hora de investir no treinamento de indígenas para traduzir a Palavra de Deus para outros indígenas. Isto também não é tão simples, demandando tempo e treinamento, mas é possível. No desafio da tradução para os grupos indígenas do Brasil, há lugar para as três ondas. Analisando o trabalho missionário estrangeiro no Brasil, o missiólogo Carlos Caldas 12 conclui que uma das principais áreas para estrangeiros ainda hoje é exatamente a tradução. Concordando com ele, podemos concluir que a tradução da Bíblia para as línguas ainda à 10 espera da Palavra no nosso Brasil, poderá ser levada a cabo numa ação conjugada de tradutores estrangeiros, nacionais e indígenas. O sentimento de Totó Maxakali é o mesmo de muitos indígenas que têm a Palavra de Deus em suas línguas. O indígena Francisco Luiz, do povo Kuripako, testemunhou dizendo: “Antes de conhecermos a Palavra de Deus, vivíamos com medo dos espíritos da mata. Não tínhamos paz nenhuma e sempre existiam conflitos entre nós e os vizinhos. E, por quase nada, espancávamos as nossas mulheres e nossos filhos. Os pajés nos enganavam; nossa vida era só temor; tínhamos medo de tudo e de todos! Mas a Palavra de Deus nos trouxe paz e iluminou as  nossas vidas” 13. Orello Francisco, do povo Kadiwéu, também testemunhou: “A Bíblia que eu tenho é em português. É uma língua que eu acho difícil de falar e entender. Agora que eu estou ajudando na tradução da Bíblia para a minha língua é que eu entendo bem melhor quem é Deus, aquilo que Ele quer me falar e tudo aquilo que eu devo fazer” 14 . E Zelito, do povo Tenharim, apelou: “Queremos as Escrituras na nossa língua. Temos que conservar a nossa cultura. Todos os povos precisam ter as Escrituras traduzidas nas suas próprias línguas” 15.

Como Igreja do Senhor, precisamos atender a este apelo!

Cácio Silva

Outubro de 2005

FONTES
BOTTREL, Paulo (org.). Banco de Dados. Brasília: AMTB, Departamento de Assuntos
Indígenas, 2005.
CALDAS, Carlos. O Último Missionário – Os Missionários Estrangeiros estão Deixando o
Brasil. Qual a Perspectiva para a Nova Liderança Evangélica? São Paulo: Mundo
Cristão, 2001.
GRIMES, Barbara F. (ed.). Ethonologue. Vl. 1. Languages of the World. Dalas: SIL, 2000.
Mais que Uma só Língua. São Paulo: SBB e Chapada dos Guimarães: CONPLEI, 2004.
LIDÓRIO, Ronaldo. Novas Fronteiras. São Paulo: APMT, 2001.
LIMPIC, Ted (org.). CD-ROM Despertando a Visão. São Paulo: SEPAL, 2005.
RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas Brasileiras – Para o Conhecimento das Línguas
Indígenas. São Paulo: Loyola, 1994.
TERENA, Henrique. A Cultura Indígena e a Necessidade do Evangelho. IN: LIDÓRIO,
Ronaldo (org.). Indígenas do Brasil – Avaliando a Missão da Igreja. Viçosa: Ultimato,
2005.
SILVA, Norval Oliveira da. Traduzindo a Bíblia para Povos Indígenas. IN: LIDÓRIO,
Ronaldo (org.). Indígenas do Brasil – Avaliando a Missão da Igreja. Viçosa: Ultimato,
2005. 11
SOUZA, Isaac Costa de. De Todas as Tribos – A Missão da Igreja e a Questão Indígena.
Viçosa: Ultimato, 1996.

NOTAS

1 - Os dados deste tópico foram obtidos em pesquisa junto ao Banco de Dados do Departamento de Assuntos Indígenas da AMTB – Associação de Missões Transculturais Brasileiras, agências envolvidas em projetos de tradução e diretamente com alguns tradutores.
2 - Muitos nomes de povos indígenas são grafados de diferentes formas. Esse texto obedece a convenção de 1953 da ABA – Associação Brasileira de Antropologia, a qual é largamente adotada no meio antropológico e lingüístico brasileiro.
3 - Línguas Brasileiras. 1994.
4 - Os dados deste tópico foram obtidos basicamente no Banco de Dados da AMTB.
5 - Aryon Rodrigues. Línguas Brasileiras. 1994. p.6.
6 - Ethonologue. 2000. pp.267-280.
7 - Ted Limpic. Despertando a Visão. 2005.
8 - Traduzindo a Bíblia para Povos Indígenas. 2005. p.207.
9 - Novas Fronteiras. 2001. p.19.
10 - De Todas as Tribos. 1996. p.37.
11 - A Cultura Indígena e a Necessidade do Evangelho. 2005. p.38.
12 - O Último Missionário. 2001. p.87.
13 - Mais que Uma só Língua. 2004. p.25.
14 - Idem. p.17.
15 - Idem. p.38.
16 - Cácio Silva é pastor presbiteriano e missionário da Missão AMEM. Juntamente com sua esposa Elisângela, está seguindo para a Amazônia, para trabalho entre indígenas. Tem mestrado em missiologia pelo CEM, onde também leciona fenomenologia da religião, e habilitação em lingüística pela ALEM. www.caciosilva.com.br

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